Entrevista/Lúcia Murat, cineasta
Lúcia Murat foi presa e torturada durante a ditadura militar. Depois que deixou a carreira de jornalista, a partir dos anos 80, a carioca se destacou nas produções audiovisuais com longas que trazem personagens que, assim como ela, sofreram as represálias de um período duro da política brasileira. "Fui presa por três anos quando tinha apenas 21 anos e fui torturada dois meses e meio. É uma situação muito violenta e muito no limite para uma pessoa extremamente jovem", conta a diretora, hoje com 63 anos.
Na quarta-feira passada, a diretora de filmes como "Que bom te ver viva"( 1989), "Doces poderes" (1996) e "Brava gente brasileira" (2000) ministrou palestra no Museu de Arte Murilo Mendes sobre a mulher no cinema brasileiro e fez a apresentação de "Uma longa viagem". A produção é vencedora do Prêmio da Crítica de melhor documentário no Festival de Paulínia de 2011, melhor ator, direção de arte e prêmios júri popular e estudantil no Festival de Gramado. "Não queria fazer um Discovery Channel, uma coisa geográfica. Queria refletir a emoção da época. O que era ser hippie nos anos 70."
Em entrevista à Tribuna, Lúcia Murat comentou o processo de realização do filme "A memória que me contam", longa lançado este ano – "Foi muito bom, porque a obra tem um tom lírico que é muito bonito e que é alcançado pelo trabalho em conjunto" – e fez uma avaliação das produções brasileiras – "creio que é fundamental ter um trabalho autoral no cinema, e, neste quesito, acho que o Brasil está perdendo espaço"
Tribuna – Seu trabalho é muito marcado pela violência, e isso tem a ver com a sua história pessoal. Como é relembrar aqueles momentos de repressão?
Lúcia Murat – Não é nada fácil, mas é necessário. Foi uma necessidade interna minha. Obviamente, o fato de eu ter sobrevivido àquilo tudo me coloca questões para o resto da vida. Questões como a diferença, como é que o ser humano consegue fazer coisas tão bárbaras, o horror e a questão do mal. Então, não é apenas retratar uma realidade específica da ditadura. Acho que estas discussões passaram a fazer parte do meu trabalho. Algumas vezes, de maneira mais irônica, outras, mais agressiva, mais delicada e mais melancólica. Mesmo em filmes muito diferentes como em "Brava gente brasileira", que é um longa sobre a conquista colonial e a resistência indígena, estas questões da diferença estão colocadas. Assim a vida foi passando, e lá se foram dez filmes, entre documentários e ficção.
– Você acha que este tema é bem trabalhado pelo cinema brasileiro?
– Acho que ainda temos muito o que trabalhar em cima disso. Em todos os sentidos, mesmo institucionalmente, o Brasil está muito atrasado em relação aos outros países latino-americanos. Todas as outras nações que passaram por ditaduras fortes, como a Argentina e o Chile, já tiveram a sua comissão da verdade, e nós estamos começando agora. O Brasil tem uma certa vergonha, mas também é algo da cultura brasileira. É uma necessidade de conciliação, o que de um certo modo é até positivo por nos fazer avançar, ser menos agressivos e menos trágicos. Mas não pode nos fazer esquecer o que se passou.
– Você se vê fazendo filmes no estilo da Globo Filmes?
– Eu trabalho com muitos atores conhecidos também. Acabei de fazer um filme com a Irene Ravache. Não é um filme no mesmo estilo da Globo Filmes, porque a proposta é outra, mas já trabalhei em televisão. Quando jovem, a gente precisa ganhar dinheiro, então faz de tudo. Foi uma experiência legal, que me ensinou muita coisa. Mas eu gosto de pesquisa, da liberdade de criar, e a televisão, obviamente, é um projeto industrial, com limites muito definidos. Acho que, trabalhando na TV, não estou me colocando como uma mulher que tem determinadas preocupações e, sim, como uma diretora que tem que fazer um determinado trabalho.
– No documentário "Uma longa viagem", o ator Caio Blat lê as cartas que o seu irmão Heitor, mandado para o exterior, enviava à família. Por que utilizar este recurso?
– Quando eu li as cartas e comecei a entrevistar o meu irmão Heitor, a história iniciou como um registro pessoal e acabou se desenvolvendo no filme, porque as entrevistas eram fantásticas, as histórias eram incríveis, e as cartas também são muito bonitas. Não somente porque retratam uma época, mas porque literariamente são muito interessantes. Mas como fazer? Para mim era importante ter alguém que interpretasse os escritos, e o Caio não lê, ele interpreta, o que é uma coisa difícil.
– Recentemente você lançou "A memória que me contam". Como foi o processo de realização deste filme?
– Foi um filme muito difícil de trabalhar, porque tem elencos de origens diferentes. Tem o Franco Nero, que é um ator internacional, tem a Simone (Spoladore), que é a nova geração e que consegue lidar com televisão e
com o cinema, tem o pessoal mais velho, que faz muito mais televisão do que qualquer outra coisa, que é a Irene (Ravache) e o Otávio Augusto, e também o pessoal do teatro, que é o Hamilton Vaz Pereira e a Clarisse Abujamra. Para dar um tom para este conjunto, precisamos de muito ensaio e discussões. Passamos um tempo antes de entrar em set ensaiando todos juntos para chegarmos a um denominador comum na atuação. Além disso, do pessoal jovem, a gente também trabalhou com o Miguel Tiré, o Patrick Sampaio e o Rogério Blat, preparador de elenco. A Simone, no filme, é uma mulher que aparece na imaginação das pessoas como um grande mito, sempre jovem e bela.
– Gostaria que avaliasse a participação feminina nas produções audiovisuais brasileiras.
– A mulher foi menos associada ao poder. Por isso, ela tem uma tendência a ser mais subversiva nesse sentido. Acho que quando as mulheres começaram a fazer cinema, a trabalhar como diretoras, principalmente depois da Retomada, isso veio se acentuando. Eu acredito muito na questão autoral, ou seja, se você é mulher, o teu olhar vai ser daquela sua experiência. Se você é gay, também vai refletir a sua experiência, o que não significa uma ideologia, aí é outra história. O posicionamento feminino vem de algum tempo. Da mesma forma que, quando eu comecei a fazer cinema, havia muitos festivais só de mulheres, tinha muita discussão de defesa, a tendência é isso diminuir, porque, realmente, as mulheres ganharam espaço dentro do cinema. Hoje, esses festivais até existem, na Europa tem alguns, mas em quantidades bem menores que nos anos 70.
– Como vê o cinema brasileiro atual?
– Está muito bem. Tem uma novíssima geração que está vindo com tudo, abrindo espaço aí na marra. Antes, você tinha a ditadura, que caía e voltava, por exemplo, mas, desde a Retomada, da mesma forma que o país tem uma estabilização democrática, o cinema está mais equilibrado. Ao mesmo tempo, acho que a gente vive um problema extremamente sério de distribuição dos filmes autorais e independentes. Sofremos um processo nos últimos anos de quase sermos enfurnados, de sermos deixados de lado e marginalizados. Hoje, vivemos uma mudança, que é a entrada da internet, mas acredito que isso não irá acabar com o cinema.









