Tragédia contemporânea
No palco, duas atrizes levam ao máximo o drama vivido nas ruas por aqueles que só possuem elas como (falta de) teto. Integrante do projeto Uma questão de sobrevivência, a peça Te quero como queres, me queres como podes, estrelada por Renata Duarte Dutra e Maria Alice Rodrigues, aporta na cidade nesta segunda, com duas sessões no Teatro Pró-Música, às 16h e às 20h.
O projeto conta ainda com a performance das duas atrizes da peça, às 14h, no Parque Halfeld, o workshop O teatro latino-americano e seu engajamento social com o diretor da montagem Orlando Orube, às 18h, no Forum da Cultura, e uma mostra com fotos de Marcílio Gazzinelli no Teatro Pró-Música, com 23 imagens dos bastidores da produção. Todas as atividades do projeto, contemplado com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, são gratuitas.
Renata e Maria Alice encenam a história de duas meninas moradoras de rua. Elas são Catarina e Miranda, consumidoras de crack em estado terminal. Na história, relembram suas vidas. Vindas de uma família desestruturada, com a mãe omissa e ausente, o pai violento que as jogou na rua, tudo isso em meio a fantasias poéticas próprias de meninas que poderiam ter tido um futuro promissor.
A montagem tem início com um filme de seis minutos, que apresenta ao público o ambiente e o contexto em que se passa a história. O curta-metragem também serve de cenário aliado à reprodução de uma calçada e a pequenos objetos. O espetáculo, que já roda o país há aproximadamente dois anos e foi vencedor do Prêmio Myriam Muniz, concedido pela Fundação Nacional das Artes em 2011, é uma adaptação do diretor Orlando Orube do texto do dramaturgo argentino Aristides Vargas.
Para realizar a composição das personagens, Renata conta que o trabalho foi intenso e longo. Antes de ensaiar a peça, as atrizes saíram caracterizadas como moradoras de rua pelas praças e avenidas de Belo Horizonte. Começaram então a improvisar o contato com as pessoas e vivenciar situações nas quais são submetidos os moradores de rua. Dentre os muitos desafios para criar as personagens, as atrizes enfrentaram emagrecimento, corte de cabelo e deixaram a feminilidade de lado. Não nos misturamos a grupos, até para preservar nossa integridade física. Mas vivemos o outro lado de uma realidade. Os vidros nos foram fechados e foram de nós que as pessoas correram segurando a bolsa com medo. Essa experiência foi crucial para a elaboração da personagem, conta Renata. Foi somente a partir deste laboratório que elas começaram a descobrir o universo no qual vivem suas personagens, e, com base neste conteúdo, partiram para os ensaios do texto.
Longe do ditatismo, a peça, segundo Renata, tem intenção de fazer com que o público tire suas próprias conclusões sobre o tema. Após o espetáculo, a equipe abre espaço para um bate-papo com a plateia. Usamos o palco para passar uma mensagem, não estamos ligados a governos ou programas. Queremos que cada um pense de sua forma sobre a tragédia do crack na sociedade.
Integrante do projeto, o workshop O teatro latino-americano e seu engajamento social é voltado para a classe artística. A ideia é falar sobre o teatro contemporâneo, mostrando que hoje ele se manifesta de forma diferente de 15 anos atrás. Na aula, com duração de duas horas, o diretor irá mostrar a metodologia aplicada por ele na direção teatral. As vagas são limitadas, e os interessados devem solicitar inscrição pelo e-mail [email protected]









