Uma griot: morre Adenilde Petrina Bispo, mas seu legado permanece vivo

Coletivo Vozes da Rua, Funalfa, grupo Nzinga e amigos falam sobre trabalhos de educadora, filósofa e militante


Por Elisabetta Mazocoli

02/11/2025 às 07h00

Adenilde Petrina Bisco Leonardo Costa
Adenilde Petrina Bipo morreu na última quinta-feira (30), aos 73 anos (Foto: Leonardo Costa)

“Uma griot”. É assim que Giovani Verazzani se refere à educadora, filósofa e militante Adenilde Petrina Bispo, que morreu na última quinta-feira (30), aos 73 anos. O termo remete aos contadores de história das sociedades da África Ocidental, que tinham o importante papel de transmitir, pela tradição oral, a história e a memória de seu povo marginalizado. No Coletivo Vozes da Rua, no Bairro Santa Cândida e entre as mulheres negras de Juiz de Fora, ela é lembrada da mesma maneira: como quem abriu caminhos e transformou vidas a partir da luta pelo que acreditava ser um mundo melhor. Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e premiada com o Amigo do Patrimônio pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac) da Funalfa, o legado de seu trabalho segue presente com aqueles que a conheceram. 

Quando a escritora e fundadora do grupo Nzinga, Vanda Maria Ferreira, fala de Adenilde, não deixa de citar Angela Davis: “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Foi o que ela sentiu acontecer ao ver o trabalho de Adenilde, que conheceu pela primeira vez em um dos eventos de hip-hop que ela organizava. “Todas nós nos movimentamos com ela. Ela teve um papel no letramento racial de muitas pessoas negras nessa cidade, e na nossa consciência política também”, reflete. Para ela, o jeito de honrar essa figura tão importante no cenário da cidade é justamente perpetuar seus pensamentos. “Juiz de Fora teve a perda de uma pessoa tremenda, mas o legado dela, a essência e a força são gigantes e não foram embora”, afirma Vanda.

Outra atuação importante de Adenilde era o trabalho que tinha com os jovens, através do Coletivo Vozes da Rua, que tem Giovani como presidente. Ele percebeu de perto o seu empenho em mudar a realidade das comunidades e despertar a consciência política e poética dos jovens. “Ela foi muito importante na minha vida, pra eu continuar aprendendo, ter um espaço de discussão e manter o hip-hop fincado nas suas raízes não só pretas e periféricas, mas de transformação”, diz. Um dos grandes diferenciais que Adenilde tinha, para ele, enquanto autoridade, era a capacidade de liderar sem impor uma hierarquia — e dessa forma manter as discussões sempre abertas.

Essa humildade que enxergava em Adenilde vinha acompanhada do conhecimento profundo da “intelectual orgânica” sobre cultura e história do Brasil. Algo que, como ele nota, também foi preciso carregar com força até o fim. “Isso fazia ela ver que os tempos insistem em se fazer os mesmos. Ela deve ter acompanhado mais essa chacina histórica que aconteceu essa semana. Então, vamos continuar trabalhando para conscientizar as pessoas e fazer pontes de diálogo”, afirma. Mesmo assim, acredita que ela continuou acreditando em mudanças e melhoras que se estendessem para uma coletividade, como sempre fez.

É o que também pontua Rogério de Freitas, superintendente da Funalfa, que trabalhou com Adenilde ao longo deste ano. “Ela conseguiu na Funalfa, em 10 meses, mobilizar todo esse conhecimento e as relações do hip-hop para trazer a cultura popular para dentro da instituição. Isso, pra gente, foi muito importante. O hip-hop é uma cultura da periferia e da paz, e ela mostrou isso”, afirma.

Cultura no centro

Adenilde também foi a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior e, em seguida, foi docente na rede municipal de ensino por quase três décadas. Também atuou como líder comunitária e formadora de jovens. Tudo começou quando ela aprendeu a ler e escrever para entender receitas culinárias para preparar nas casas de família, como conta Pri Moreira, sua amiga e membro do coletivo. “Ela foi obtendo conhecimento e percebeu que havia outros caminhos pro povo da periferia trilhar, inclusive na cultura”, explica. Esse olhar continuou presente, inclusive porque percebeu que era uma forma potente para de alcançar jovens da periferia que poderiam seguir por outros caminhos.

Além do Vozes da Rua, Adenilde também participou da criação de grupos de teatro-educação inspirados nas ideias de Augusto Boal e coordenou a Rádio Mega comunitária, que visava a democratização da comunicação e o fortalecimento da população da Zona Leste. O convite para trabalhar na Funalfa veio por conta da atuação dela no projeto Trilhas do Futuro, em 2002, que trazia cultura e arte para jovens marginalizados. Esse trabalho, na época, impressionou Rogério, que sabia que queria trabalhar com ela novamente. “Ela deixa um legado fantástico na educação e na cultura de Juiz de Fora, especialmente porque tinha um lado de educadora popular, que mobilizou centenas de jovens na periferia. É uma pessoa ímpar”, diz.

Um legado em páginas

Todo esse conhecimento e cultura se traduziram não só em várias comunidades de afeto e trabalhos formados, mas em um legado material, no qual, como contam os entrevistados, ela sempre acreditou: a biblioteca do Vozes da Rua. Esse espaço tinha um repertório valioso e que ela sempre fez questão de compartilhar. “É uma mina de ouro de literatura afro-brasileira e mundial”, diz Giovani, que entende que sempre foi um acervo que acolhia “os marginais” da história e da literatura oficial, e assim também provocava o pensamento crítico de quem absorvia o material.  O que eles buscam, agora, é um local dentro do bairro que possa receber esse acervo e servir para a continuidade dos trabalhos. 

É um compromisso que Pri também entende como essencial para continuar criando lideranças e vozes fortes como a de Adenilde. “O legado que Adenilde nos deixa é de buscar sempre o conhecimento para sermos protagonistas de nossas histórias e não se deixar ser massa de manobra do sistema”. Nesse mesmo sentido, Rogério acredita na possibilidade da biblioteca comunitária, para ampliar essas vozes. “É importante unirmos forças na cidade, da sociedade civil, do poder público e de parlamentares, para realizar o grande sonho dela, que era de fazer a biblioteca no Santa Cândida, que ela acalentou, organizou e na qual acreditou tanto”, diz.