Ouça agora

Todas as línguas


Por RAPHAELA RAMOS

02/09/2012 às 07h00

 

No Festival Nacional de Teatro do ano passado, assim que o grupo correu em direção ao público para levá-lo à sala de encenação, sentiu forte o calor de Minas. Como em outras inexplicáveis químicas teatrais, houve ali uma identificação imediata. "O espetáculo foi uma delícia", relembra Tatiana Henrique, atriz do Grupo Okearô de Teatro Independente. A produção "O que fazem as meninas quando desabrocham" acabou se revelando a vencedora da categoria adulto e, agora, retorna à cidade como convidada desta sexta edição do evento promovido pela Funalfa. "Estar em Juiz de Fora é reviver aquele acolhimento", garante Tatiana, duvidando, numa brincadeira, da origem do coletivo formado na Escola Martins Pena, do Rio. "Acho que somos um pouco mineiros."

 

 

A apresentação, marcada para este domingo no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), divide espaço na programação com mais seis convocados. Um deles, "Homens", abriu o evento no sábado. Na segunda, "Sinfonia sonho", uma tragédia contemporânea do Teatro Inominável (RJ), ocupa a ribalta do CCBM com o conflito de um menino de 9 anos tomado pelo desejo de se tornar uma música. A infantil "Cabeça de vento", da Pandorga Companhia de Teatro (RJ), abre as atividades da terça, no Pró-Música, contando as aventuras do personagem Léo ao lado de Benjamin Franklin, da rainha chinesa Fu Hao e de Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra. No mesmo dia, a "A mulher sem pecado", da Cia. Teatral Arlecchino (BH), lança foco sobre o centenário de Nelson Rodrigues em sessão no Cine-Theatro Central. Para o encerramento, estão programadas as montagens "Gran Circo Internazionale e a saga dos heróis desconhecidos", do Grupo Zibaldoni (Ribeirão Preto – SP) e "As mulheres da Rua 23", da Cia. de Teatro Autoral (RJ).

 

 

 

 

‘Inconsequências da fala popular’

 

 

A relação forte com o público mineiro talvez venha da linguagem experimentada pelo Grupo Okearô. Danças e cantigas reforçam os variados dialetos do Brasil, apresentando histórias que poderiam ganhar corpo em qualquer tempo. Segundo Tatiana Henrique, assim como as meninas florescem, o interesse pela oralidade vicejou no escritor Mário de Andrade, autor do livro "Contos de Belazarte", que inspirou a montagem. "Quando produziu essa obra, Mário tinha voltado do Nordeste e descoberto em São Paulo o mesmo falar gostoso", explica a atriz. Os contos "O besouro e a rosa", "A menina de olho no fundo" e "Jaburu malandro", levados para a cena num exercício de junção de texto poético e teatro, são tentativas de grafias das "inconsequências da fala popular", conforme o próprio Mário.

 

 

Tão certo quanto o fato de as mulheres desabrocharem é a dor que acompanha o movimento das pétalas. Assim sugere o espetáculo do Okearô, dirigido por Eduardo Vaccari. Vivendo a sofrida transição feminina, Rosa, Dolores e Carmela se veem diante de um dilema: violar as regras familiares, sendo livres, ou podar seus impulsos, permanecendo imóveis. De um jeito ou de outro, surge a perda e a infelicidade, confirmando a visão fatalista do autor. "São conflitos comuns aos jovens, mas também às lembranças dos mais velhos", observa Tatiana. A atriz é a responsável pela oficina "Contação de história" no festival. "Essa é a base de nossa peça. Podemos falar a palavra ‘azul’ de muitas formas. E o azul da raiva não tem nada a ver com o azul do amor." Outro ator da companhia, André Lemos, também divide seus conhecimentos com os artistas locais no curso "Poesia cênica". Confira a programação das oficinas no site da Tribuna (www.tribunademinas.com.br).

 

 

 

"A mulher sem pecado", montagem de 2011 do primeiro e menos recorrente texto de Nelson Rodrigues, marca a homenagem do festival ao centenário do "maldito". De acordo com o ator Paulo Rezende, que interpreta o paralítico Olegário, a instigante dramaturgia rodriguiana foi tratada pelo diretor Kalluh Araújo de maneira não convencional. "Ele priorizou o corpo dos atores, seguindo a linguagem da alemã Pina Bausch." O cenário, feito de alçapões, revela e esconde os personagens, num jogo de ciúme e loucura cheio de referências cariocas.

 

 

Escrita em 1941, a peça narra o casamento conturbado da jovem Lídia, que sofre ao ser vigiada em tempo integral pelo marido. "A princípio, parece que se trata de um único tema. Mas ele se abre para incontáveis discussões", garante Paulo, assinalando a evidência dada à produção devido às comemorações. No início de agosto, o grupo esteve no festival "A gosto de Nelson", promovido pela Funarte, no Rio. A próxima parada, depois de Juiz de Fora, é o 19º Porto Alegre Em Cena.