Do clique em diante
Com um largo sorriso de quem visita a infância, Sílvia Cruz Pierce chegou ao Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) acompanhada do irmão Gustavo Cruz. Vinte anos antes, a dupla era registrada, diante do pesquisador Albert Sabin, pelo fotógrafo da Tribuna Roberto Fulgêncio. Fazia Sol naquela manhã de maio. Tendas brancas – uma novidade para a época – foram montadas para a inauguração do hospital que leva o nome do famoso cientista, criador da vacina oral para poliomielite. "Recordo-me de detalhes", garante Sílvia. Ao observar com atenção a reprodução em preto e branco exposta na galeria, a jovem, hoje com 28 anos, surpreende-se. "Certas coisas não mudam. Eu já usava botões dourados."
Assim como os irmãos em evidência na imagem de 1992, inúmeros personagens do cotidiano contam a história da cidade por meio do mostra "Tribuna de Minas – três décadas de Juiz de Fora", que leva ao público, durante o "Foto 12", parte do que foi selecionado para o livro comemorativo, lançado em 2011. Do momento exato do clique ao dias atuais, que caminho foi percorrido pelas pessoas imortalizadas no papel?
Silvia e Gustavo, filhos do odontologista Mauro Cruz, seguiram os passos da família. "Cheguei a pensar em medicina, por medo de estar sendo influenciado. Mas, depois, tive a certeza de que essa era a minha profissão", comenta Gustavo, 27, formado pela UFJF. Já casada, Silvia foi estudar cirurgia na Universidade de Nova York, a mesma por onde passou Albert Sabin. Os irmãos guardam com cuidado outro registro feito no dia da inauguração. Lembram-se da simpatia do cientista e de terem trocado algumas palavras em inglês com ele. "Sabin tinha muita ligação com as crianças, acho que por isso ficamos ali na frente", arrisca Silva, que, há dois anos, mora nos Estados Unidos. De acordo com ela, o poder da fotografia está na sua capacidade de trazer de volta os sentimentos do passado. Gustavo concorda: "ao olhar essa imagem, sinto a mesma emoção de quando tinha 7 anos".
Na opinião de Roberto Fulgêncio, editor de fotografia da Tribuna e curador da exposição, o fotojornalismo exerce papel essencial na história. "A mostra repassa a trajetória do país e da cidade, além de abordar incontáveis narrativas pessoais, inclusive a do próprio fotógrafo." De certa maneira, o acervo também revela a evolução da profissão, indo do preto e branco às cores, do analógico ao digital e da exibição sem pudores à preocupação com o resguardo de identidades.
Expectativas e mesmices
Em um comício de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2002, o professor Marco Antonio Fietto aparece nas primeiras filas. "Esse é um momento da coletividade eternizado pelas lentes." Ao se deparar novamente com a foto, que ele guardou impressa no jornal logo quando foi publicada, Fietto constata que não vê alguns amigos há tempos. As 20 mil vidas entremeadas no Parque Halfeld naquele setembro, segundo o professor, dividiam a expectativa por melhorias. "Acho que pouco aconteceu a favor da educação. Ainda espero transformações", avalia Fietto, docente da rede estadual e municipal.
O oftalmologista e professor Rafael Vidal Mérula também reflete sobre alguns problemas que teimam em sobreviver. Aos 14 anos, em 1992, ele participou do movimento que culminou na renúncia do presidente Fernando Collor. "Saí da escola e desci a Rua Halfeld. Lembro que foi uma manifestação real, não influenciada pela imprensa, como dito na ocasião. Hoje, a corrupção continua, mas o povo não se mobiliza da mesma forma", lamenta. O jovem estava na mira do fotógrafo Antônio Olavo Cerezo durante a cobertura do movimento. A imagem integra o livro, mas acabou não sendo selecionada para a exposição.
Um pouco atrás de Rafael, Luiz Carlos de Carvalho, atual presidente do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça de Juiz de Fora, participava da luta popular aos 41 anos. "A vitória de Collor foi manipulada. Esse tipo de ação continua", compara, alertando para a necessidade de se aprender com o passado. "Se podemos respirar liberdade, os motivos estão lá atrás, desde a resistência contra a ditadura." Carvalho – na época, engenheiro da extinta Rede Ferroviária Federal – recorda-se da ansiedade das pessoas para saber se os candidatos à Prefeitura local se posicionariam a favor do impeachment. De acordo com ele, a nova geração não conhece esse episódio brasileiro como deveria. "Os registros fotográficos, porém, nos ajudam a reavivar os acontecimentos marcantes." Rafael, que nunca tinha visto a foto de Cerezo, engrossa o coro, asseverando não encontrar com frequência jovens politizados. "Eu não tinha partido, mas era engajado. No mundo de hoje, o individualismo alcança altos patamares."
Vida e morte
Quando o fotógrafo e o repórter chegaram à Maternidade Therezinha de Jesus, a diarista Juraci Teodoro de Andrade ainda achava que tinha no colo os gêmeos Lucas e Mateus. Em homenagem aos craques da seleção no Mundial de 1994, entretanto, seu marido havia alterado os planos. "Eram seis da manhã, e eu estava muito cansada. Assim descobri que meus filhos iriam se chamar Bebeto e Romário", conta Juraci, 55 anos. O parto normal aconteceu na madrugada anterior ao tetracampeonato. "Em 30 minutos, os dois nasceram. Muito rápido. E com o título, a festa foi dupla." Ou melhor, tripla.
Segundo a diarista, os irmãos sempre foram conhecidos na vizinhança como os gêmeos da Copa. Aos 18 anos, eles já se acostumaram com a ideia. "Nem gostamos tanto de futebol. Eu curto um pouco mais que o Romário", diz o flamenguista Roberto, sempre chamado de Bebeto. Conforme salienta a mãe, nem mesmo na torcida por um time os meninos se parecem. Romário, botafoguense, é mais alto e tímido. "Eles só são iguais na hora de comer. Comem de tudo. Apesar das diferenças, nunca brigam", elogia Juraci, com mais cinco filhos.
O jornal com a famosa foto acabou sumindo depois que um dos gêmeos o levou para um trabalho na escola. "Mas nós crescemos com a lembrança dessa imagem", confirma Bebeto, que cursa o segundo ano do ensino médio e pretende ser bombeiro ou enfermeiro. Romário, no terceiro ano, quer seguir a carreira militar. O registro, que também não está na mostra do CCBM, foi selecionado para o livro após extensa pesquisa de Roberto Fulgêncio e da editora Mônica Calderano. "Foi como voltar no tempo. Essas reproduções dão oportunidade aos cidadãos de fazer esse mesma viagem", assinala Fulgêncio.
Outro que se deslocou para o passado foi o delegado aposentado José Francisco Chinelato. Há 26 anos, ele e diversos policiais erguiam os braços, atirando para o alto, em homenagem ao delegado Domercílio Stroppa Moreira, assassinado com dois tiros nas costas. "Foi algo espontâneo e marcante. Ele era meu amigo e cunhado." Chinelato, que se recorda bem daqueles momentos no cemitério Parque da Saudade, clicados por Márcio Brigatto, cita os avanços tecnológicos e o aumento da violência como as principais transformações erguidas pela contemporaneidade. "Existe uma nostalgia em relação àquele período, apesar da triste recordação. Mas o tempo traz coisas boas e ruins." Os séculos XIX e XX, por exemplo, apresentaram ao planeta a fotografia. Uma arte que facilita, exatamente, a comparação entre o ontem e o agora.
TRIBUNA DE MINAS – TRÊS DÉCADAS DE JUIZ DE FORA
De terça a sexta, das 9h às 21h. Sábados e domingos, das 10h às 16h
Até 12 de setembro
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200)









