Caso Richthofen: uma história à procura de um autor

Aguinaldo Silva rememora os tempos de repórter policial
O cenário é o Brooklin, bairro nobre de São Paulo. Uma estudante de direito é a mandante do assassinato dos próprios pais. Era noite de 31 de outubro de 2002. Suzane von Richthofen abriu a porta da mansão da família para que os irmãos Daniel e Christian Cravinhos pudessem entrar. No dia seguinte, os filhos encontram o casal morto. Marisia com um saco plástico na cabeça e Manfred com uma toalha. O crime brutal revelou uma protagonista sedutora, que matou “por amor”, conforme suas próprias palavras. Quase 14 anos depois, o Brasil não a esquece, e o caso não escapa a Aguinaldo Silva, um dos maiores novelistas da Rede Globo.
“É um caso que, até hoje, sinto inveja de quem escreveu sobre ele. Não escrevi porque não estou na ativa como jornalista. Não é só o crime em si, mas as consequências dele, o que ela aprontou desde então. Tudo isso mostra que é uma história à procura de um autor”, conta o dramaturgo que rememora os tempos de repórter policial no livro “Turno da noite” (Objetiva, 200 páginas). A obra, de assunto cativante para qualquer profissional de redação, foi o pretexto para nossa conversa que vai ao ar no “Sala de leitura” deste sábado, às 10h30, com reprise na segunda, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010).
Pernambucano de Recife, Aguinaldo publicou o primeiro romance pouco antes de completar 18 anos. Dedicava-se às páginas dos jornais de sua cidade natal para, em seguida, pular para a seção de Polícia de “O Globo”. A principal característica daquele jovem era sua capacidade de dar às matérias um ar folhetinesco. Ali estava claro que nascia um repórter de escrita “impressionista”. “Eu nunca fugia do que estava vendo, mas procurava analisar o que via”, dispara ele, que, embora ainda esteja de férias de “Império”, já se debruça sobre a novela prevista para março de 2018. Por falar nesse assunto, quando nossa conversa chegou a esse ponto, ele deu sinais bem nítidos de que mantém, no sangue, a sede do “furo” jornalístico. “Hoje em dia, se a gente contar o que vai ser a novela, alguém escreve antes”, brinca.
Tribuna – “Turno da noite” é um livro nostálgico?
Aguinaldo Silva – A ideia do livro não foi minha, foi da editora. Alguém na editora descobriu esses textos meus e achou que daria um livro. Aí pediram que eu escrevesse um texto, dizendo em que circunstâncias foram escritas aquelas reportagens. Era época da ditadura, final dos anos 60 e começo dos anos 70. O jornalismo não era exatamente o que é hoje, passava por muitas dificuldades quando você queria fazer uma matéria. Não é um livro nostálgico. Não posso dizer que tenho saudades daquela época, mas eu tenho saudades da época em que era jornalista.
– Hoje, como há uma indústria especializada em processos, muitos jornais contam as versões dos fatos somente baseadas nas narrativas oficiais. Acredita que seja possível fazer um jornalismo policial como naquela época?
– Acho que nossa realidade não permite mais. Na verdade, a violência nas grandes cidades do Brasil se tornou tão exacerbada que o jornalista não pode mais ir a qualquer lugar como fazia antigamente. É muito engraçado porque estas reportagens todas eram escritas à época da ditadura, que era muito perigosa. Mas, ao mesmo tempo, não havia esta loucura de hoje chamada banditismo, em que eles matam por matar. A violência era diferente, era mais psicológica do que física. Sempre cito o exemplo do Tim Lopes, aquele grande jornalista carioca com quem, inclusive, eu trabalhei e foi fazer uma reportagem numa favela sobre bailes funk e acabou sendo queimado vivo e enterrado.
– Em razão do politicamente correto, vivemos tempos de uma autocensura muito grande. Muitos jornalistas saem das redações para confirmar apenas o que suas pautas estão pedindo. Dentro deste contexto, você acha possível que este jornalismo policial seja capaz de fazer surgir escritores como você e Nelson Rodrigues, por exemplo?
– O texto hoje é constantemente policiado. “Eu posso dizer o que penso? Será que alguém vai ficar ofendido?” Você não pode usar certas palavras, certas expressões. Tem que pensar sempre em fazer um texto bem anódino, que não cause problemas. Acho que o politicamente correto está acabando com o grande jornalismo e está acabando com a grande ficção também.
– Além do caso Suzane, que outro crime escabroso daria uma boa novela?
– Hoje em dia eu uso mais personagens que conheci naquela época do que histórias. Uma história que eu ainda daria um tratamento ficcional era o Caso Van-lou, em que um casal foi acusado de matar dois ex-namorados dela. Foi uma história emblemática dos anos 70 que valia a pena retomar e que poderia acontecer hoje, porque é atemporal.
– É mais difícil escrever sendo cerceado pela censura da Ditadura Militar ou em meio à censura da Rede Globo?
– Não é bem a censura da Rede Globo, é a de Brasília. A gente não tem uma censura oficial, mas tem uma censura que é feita através da classificação por faixa etária. A gente tem sempre essa espada pendendo sobre nossas cabeças. Naquela época, não. Não pode isso, não pode aquilo, e está fechada a questão. Hoje, a censura se comporta de uma maneira muito vaga porque diz que isso é impróprio para menores de tantos anos, então só pode ser exibido no horário tal. Eles juram que isso não é censura, mas é, sim, uma censura muito subjetiva. Depende muito do que o censor acha que pode e não pode.
– Parece haver um preconceito contra o repórter de polícia. Esse preconceito sempre existiu?
– Sempre existiu porque o repórter de polícia geralmente cuidava dos assuntos tidos como sórdidos, que eram os crimes, os golpes, os estelionatos. E ele tinha certos jargões que aprendia com os policiais. O repórter de polícia era visto como uma pessoa menos credenciada na redação. Acho que isso acabou justamente nessa época em que me tornei repórter de polícia, não por minha causa, mas porque nós tínhamos um editor de jornalismo no Globo, o Evandro Carlos de Andrade, que percebeu o quanto a reportagem policial era importante e resolveu dar nobreza à cobertura. Ele passou a dar destaque para a polícia, dar chamada na primeira página, o que não era muito comum. Com isso, a reportagem policial passou a ser um gênero dentro do jornal.









