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Setentões da canção


Por Bruno Calixto

02/06/2012 às 07h00

Milton, Caetano e Gil estão entre os renomados músicos brasileiros que completam 70 anos em 2012

Milton, Caetano e Gil estão entre os renomados músicos brasileiros que completam 70 anos em 2012

Se vai acabar ou não, o mundo vive, em 2012, um ano de glória, principalmente para a cultura brasileira. Além das homenagens ao centenário dos saudosos Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Luiz Gonzaga, o país reverencia os músicos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nei Lopes, Paulinho da Viola e Milton Nascimento. O motivo? Todos eles completam 70 anos em 2012, cheios de vida e novos projetos.

Caetano, por exemplo, vai ser presenteado com tributo e relançamento do disco clássico "Transa". Nei Lopes ganhou uma edição especial do programa "Musicograma", da TV Brasil, e lançou três livros de uma só vez. Gil promete tirar do forno um álbum só de sambas, enquanto o sambista Paulinho está finalizando um disco de inéditas. Iniciando turnê comemorativa (50 anos de carreira e 70 de vida), Milton está envolvido numa série de projetos, como um livro reunindo todas as suas letras, uma biografia musical escrita pelo compositor Chico Amaral e um espetáculo da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.

Referências para gerações, eles construíram as bases da música genuinamente nacional. "Lembro-me de começar a curtir Caetano no LP ‘Qualquer coisa’, ouvia sem parar. Já o conhecia de antes, mas foi ali que prestei atenção. Não tinha muita ideia do que representava o tropicalismo, apenas gostava do som. Gil me conquistou com o LP ‘O luar’, e Milton, com ‘Sentinela’. Curiosamente o Paulinho da Viola só entrou na minha vida depois que me tornei adulto", comenta Regis Faria, 43 anos, diretor musical da recente turnê de Milton Nascimento.

 

Ode ao ‘mineiro’

Chama-se "Milton Nascimento – 50 anos de carreira" a série de shows que começou por aqui no dia 21 de abril e se encerrará em outubro no Rio, com gravação de DVD. A previsão, segundo Regis Faria, é ter convidados no palco durante o mês de gravação, já que Bituca é do dia 26 de outubro.

No livro que está preparando, provisoriamente chamado "A música de Milton Nascimento", o mineiro Chico Amaral quer detalhar as influências do cantor e mostrar como Milton fere a tal linha evolutiva da música brasileira – ao menos se vista como linha reta, de formação até a bossa nova e de modernização a partir dela, sendo o tropicalismo seu passo mais ousado. "Há muitas inovações importantes que ficam praticamente fora dessa história, como o samba-jazz. E o primeiro disco de Milton (de 1967) foi com o Tamba Trio. Ele ainda incorporou manifestações rurais sem isolá-las das urbanas. Juntou Villa-Lobos, Beatles, Baden Powell, Nordeste. Sempre deu um passo além", resume Amaral, por e-mail.

As novas criações de Bituca serão incluídas no livro que o jornalista Danilo Nuha está preparando com as cerca de 60 letras já escritas por Milton, entre elas "Pai grande" e "Canção do sal". O lançamento está previsto para outubro, pela Casa da Palavra.

Antes, em 5 de agosto, estreia no Teatro Net Rio, o musical "Milton Nascimento – Nada será como antes", preparado há cinco anos. Segundo Charles Möeller e Claudio Botelho, em seu portal de notícias, serão 50 músicas, 12 atores, seis músicos e um roteiro que trata as canções como pequenas peças de teatro, ou blocos de canções como cenas. "Não é uma biografia, mas uma visão teatral da obra dele desde ‘Travessia’", conta, por e-mail, o mineiro Claudio Botelho.

 

A força dos baianos

Caetano terá de guardar fôlego para a bateria de projetos planejados para seus 70 anos, comemorados em 7 de agosto. Como não poderia ficar de fora, a gravadora Universal, da qual Caetano é fiel há 45 anos, anunciou um tributo internacional (ainda sem nome), além de um relançamento especial: o álbum "Transa", produzido em Londres na década de 1970 com Jards Macalé, que, segundo a gravadora, sai remasterizado, em formato de vinil e com a arte original de Aldo Luiz. O tributo mundial, lançado em CD, vai ficar para o segundo semestre, reunindo 14 artistas de diferentes estilos, gerações e nacionalidades, como Marcelo Camelo, The Magic Numbers, David Byrne, Céu e Luisa Maita. A Universal também prepara o relançamento do DVD de shows (gravados em VHS) como "Circuladô" e "Fina estampa".

Gilberto Gil, que completa 70 anos em 26 de junho, anuncia um disco só de sambas, com produção de Moreno Veloso, filho de Caetano, e de seu próprio filho, Bem Gil.

Aposta também nos cinemas, Caetano e Gil ganharão o documentário "Tropicália", que fala sobre a participação de mentores como eles e Tom Zé, sem contar o catálogo da exposição "Tropicália – Uma revolução na cultura brasileira", com ensaios e textos de época, editado pela Cosac Naify (376 páginas, R$ 120).

A editora Ibis Libris, no Rio, anuncia a publicação de uma dissertação de mestrado sobre o filho de Dona Canô, patrocinada pela Funarte. "O livro tem que estar pronto em agosto", dispara a editora responsável, Thereza Motta. "Trata da análise sobre a obra de Caetano, sob seu aspecto mais transgressor, já tem até foto de capa, de uma fotógrafa do Rio que cedeu os direitos para publicação", completa a editora, trazendo à luz "Outras palavras" do – então – "Menino do Rio", autor da célebre e apropriada máxima que diz: "quem não morre fica velho, e quem fica velho amadurece, passa a ter mais escopo, mais visão, mais clareza, quietude."

 

Samba nas mãos

Paulinho da Viola faz 70 anos em 12 de novembro e continua a ser o cara elegante do samba. E sem pressa para nada. Nei Lopes nasceu em 9 de maio. "Construíram para mim uma ‘persona’ que não é verdadeira. Sou bem-humorado, meu estado de espírito normal é a sátira, a brincadeira, a crônica. Mas tem hora de falar sério também. Quando se consegue falar de coisa séria parecendo que é sacanagem, melhor", diverte-se Nei Lopes, atribuindo ao samba o denominador comum para os três livros (editora Pallas) que lançou no Parque das Ruínas, dentro da Festa Literária de Santa Teresa, no Rio, quatro dias antes de completar aniversário.

O romance "A lua triste descamba" tem como universo os primórdios do samba, sobretudo em Madureira, entre os anos 1920 e 1940. É a segunda etapa de uma trilogia iniciada com "Mandingas da mulata velha na Cidade Nova" (2009), que se passava na década de 1910. O "Dicionário da hinterlândia carioca" traça um painel do subúrbio, sistematizando as informações que o divertido "Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos" (2001) transmitiu em forma de crônica.

A edição ampliada do "Novo dicionário banto do Brasil" é o mais recente capítulo das pesquisas etimológicas de Nei, sempre voltadas para as línguas africanas. "Lima Barreto disse que um dia escreveria a história do negro no Brasil, e, de certa forma, eu já fiz isso; Machado de Assis, no ‘Memorial de Aires’, disse que estava para se escrever a história do subúrbio carioca, e eu já fiz também. Não que tivesse tomado essas coisas como missão. Foram a curtição e a vivência desses ambientes que me levaram a isso", afirma Nei, autor de cerca de 700 composições, entre elas as pérolas "Senhora liberdade", "Goiabada cascão", "Coisa da antiga", "Gostoso veneno" e "Gotas de veneno".

A gravadora Fina Flor segue preparando o lançamento, até julho, do disco "Samba de fundamento", seleção feita por Nei Lopes de faixas de seus dois últimos CDs, "Partido ao cubo" e "Chutando o balde". "Se o projeto tiver os recursos necessários", ele garante, "gravarei um disco com a orquestra paulistana Heartbreakers, de Guga Stroeter, cantando sucessos do chamado ‘pagode de fundo de quintal’ de nomes como Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila etc, tudo em roupagem de gala."