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Temporada de lives levanta questão sobre arte mediada por telas

Proliferação de eventos on-line durante a pandemia leva a pensar: tudo fica igual na tela, mesmo sendo diferente?


Por Júlio Black

02/05/2021 às 07h00

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Maior parte das experiências culturais durante a pandemia tem sido mediada por telas (Foto: Fernando Priamo)

A pandemia de Covid-19 trouxe uma nova realidade para os artistas quando o assunto é shows musicais, espetáculos teatrais, de dança, exposições, concertos, pois tudo que era presencial deixou de acontecer com o fechamento das casas de shows, teatros, galerias, museus e outros espaços culturais. Para quem não queria ou não podia ficar parado, a opção passou a ser o audiovisual, em especial pela internet, seja por redes sociais como o Instagram ou plataformas como o YouTube. Desde então tivemos uma avalanche de lives com apresentações artísticas e entrevistas, entre outras opções, além de espetáculos gravados.
Porém, esse novo panorama tem uma característica inédita: o público que estaria na frente do palco, nas galerias, museus, agora está do outro lado da tela do celular, computador ou televisão, que passaram a ser os mediadores dessa nova forma de relacionamento, que pode se dar tanto pelas cinco polegadas da tela de um celular dos mais antigos até as 75 polegadas da smart TV com resolução de 4k, som Dolby e outros recursos.
Independentemente de polegadas e resoluções, porém, fica a questão: a tela deixa tudo igual, “achatado” pelos pixels, mesmo que as propostas dos artistas sejam diferentes? Como repensar um formato que não pode ser simplesmente transportado do palco para um tablet? Esse formato vai se esgotar um dia? E o quanto o presencial será afetado quando (ou se) a pandemia tiver fim?
A fim de refletir sobre essas questões, a Tribuna conversou esta semana com o diretor e dramaturgo Hussan Fadel, do grupo teatral Corpo Coletivo; o músico João Paulo Lima, da banda Calango do Engenho; e com a pesquisadora Amanda Vic. Como pode se ver, as questões são muitas, assim como as respostas e possibilidades para um assunto que não se esgotará tão rápido.

Novas relações de afetividade

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Para a pesquisadora Amanda Vic, as telas uniram as pessoas e atualizaram nossa perspectiva de consumo através do formato (Foto: Divulgação)

Apesar de ser um debate recente, a questão já ganhou espaço no mundo acadêmico. Atualmente mestranda em ciências da comunicação na Unisinos, no Rio Grande do Sul, Amanda Vic integra os grupos de pesquisa Cultpop, Processocom e Rede de pesquisa internacional AMLAT, e tem entre suas áreas de pesquisa e interesse o estudo de fãs, performances musicais e indústria fonográfica. Sobre a questão da massificação de conteúdos em apenas um formato, com a tela tornando-se o único mediador entre público e artista, ela acredita que para toda a forma de arte existe um consumidor do conteúdo em potencial.
“O formato pelo qual o entretenimento está sendo reproduzido pode ser o mesmo, mas a relação de afetividade e encantamento do público que o assiste difere, não tornando o conteúdo em si maçante e gerando expectativa para um novo formato”, argumenta, usando as lives realizadas no Brasil como exemplo. “Em 2020, logo após o decreto de fechamento de eventos e locais de aglomeração, além da necessidade da indústria cultural se reinventar por questões financeiras de sustentação, a população cobrou e forçou a adaptação da indústria de forma rápida, pois o ser humano, para resgate da saúde mental, necessita da arte para se expressar e se identificar como indivíduo. Essa necessidade proporcionou uma série de lives brasileiras que viraram referência mundial em visualizações de streaming no YouTube. Primeiro a testar a modalidade, o cantor Gusttavo Lima atingiu 2,77 milhões de visualizações simultâneas em uma transmissão com mais de sete horas de duração.”

Os limites da tela

Ainda que pareça contraditório, Amanda Vic tem a opinião de que as telas uniram as pessoas e atingiram melhores expectativas, com aplicativos e plataformas digitais atualizando nossa perspectiva de consumo através da tela, tornando-se uma alternativa agradável e de reações rápidas globais. Todavia, é perceptível que há limites para esse tipo de interação devido à nossa própria natureza. “Como humanos, necessitamos da experiência sensorial completa para a sensação real de consumo produtivo e realização”, pondera.
Outro ponto analisado pela pesquisadora é o fato de que essa relação entre artista e público por meio da tela enfrenta as inúmeras possibilidades de distração por parte do “lado de cá”. Se num cinema ou show, por exemplo, a pessoa já pode se “desligar” para atender a uma ligação, ler uma mensagem, em casa essas possibilidades se ampliam com os afazeres domésticos, entre outros.
“O evento de apresentação artística não é mais único com a competitividade de outros eventos e afazeres, além do fato de que podemos pausar e continuar a assistir em outro momento, não gerando a necessidade de urgência. A indústria cultural, compreendendo este aspecto, gerou possibilidades de mais atenção em locais diferentes. Atualmente, enquanto artistas realizam o streaming, eles também possuem canais diretos como o Telegram para conversar com o seu público, quase que o convencendo a permanecer ao vivo”, analisa.

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Relação entre artista e público mediada por telas

Ninguém sabe ao certo o quanto esse longo período sem eventos presenciais vai afetar a relação entre público e artista, seja por uma possível adequação dos espaços (com menor público) ou se as pessoas preferirão sair menos e consumir os produtos culturais de casa. Amanda Vic acredita que a resposta só virá com o tempo. “Especulo que os eventos presenciais não são só importantes para o aspecto do fã, mas para as relações sociais humanas. Sou uma pessoa que gosta de ir a eventos e shows com certa frequência; esses dias assisti a um concerto transmitido pela TV aberta, e, apesar de ser incrível, senti que faltava algo, pensei alguns minutos sobre o que era… Percebi que o que faltava era o presencial, era estar perto o suficiente dos músicos para ver as gotas de suor formando-se em seus rostos enquanto o instrumento é tocado com paixão, sentir o cheiro dos instrumentos e acompanhar a afinação deles antes do espetáculo”, exemplifica a pesquisadora, que também é proprietária da Escola de Música e Produção Artística Musicalidades. “Não acredito que o on-line substituirá o presencial, mas agregará de forma construtiva um novo normal, mostrando que o ser humano é capaz de se adaptar e se reinventar mesmo nos tempos mais difíceis.”
Hussan Fadel, do grupo teatral Corpo Coletivo, é um dos nomes que tem agido em Juiz de Fora para que essa nova mediação entre artistas e público não caia na banalidade. Para o dramaturgo e diretor, a tecnologia surgiu como alternativa de realização num momento em que não é possível fazer uma das coisas que o artista mais gosta, que é estar no palco sentindo a presença do público.
“Buscamos um trabalho de teatro na linguagem audiovisual, mas repleta de teatralidade, que seja mais calorosa que um filme”, diz Hussan, para quem a nova realidade tem pontos positivos e negativos. “As relações ficam canalizadas pela internet, independente da tela, mas tenho pensado se isso seria um ‘achatamento’, pois temos nos aproximado de pessoas no exterior, com quem não teríamos contato normalmente, assistindo a espetáculos que não assistiríamos pela distância, participamos de festivais no exterior sem sair de casa. Chegamos a novos públicos.”
Entre os pontos positivos, ele ainda acrescenta o alcance que o Corpo Coletivo obteve graças à tecnologia. “Nossos festivais tiveram uma amplitude muito grande, e foi uma experiência muito interessante poder assistir a nossos espetáculos numa smart TV com qualidade de vídeo em HD (alta definição). O atual momento proporciona essa capacidade de aproximação, mesmos sendo uma experiência canalizada. Seria muito bom compartilhar essas experiências pessoalmente, mas essa situação proporciona possibilidades muito interessantes num contexto cataclísmico, e ainda bem que temos a tecnologia, as redes sociais, que são a única forma de estarmos em contato com nosso público, ao invés de pregar uma reabertura inconsequente só pensando na economia. Estamos ilhados, mas não isolados.”

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Corpo Coletivo tem experimentado as possibilidades do audiovisual, ao vivo ou gravado, em espetáculos como “Vida” (FOTO: Daniela Souza/Divulgação)

‘Afeta enquanto teatro, não enquanto arte’

Hussan conta ainda que o Corpo Coletivo começou a se adaptar ao contexto da pandemia poucos dias depois de todos os espaços culturais serem fechados, no início com a leitura de cenas de dramaturgos contemporâneos para o recurso “Stories” do perfil do grupo no Instagram. Desde então, o grupo criou uma série de projetos para a internet, como a apresentação de peças, realização de festivais e oficinas, transmitindo e utilizando quase todas as plataformas e ferramentas possíveis, entre elas Zoom, Google Meet, Streaming Yard, OBS, YouTube, Facebook, Instagram, Spotify (para os podcasts) e até o bom e velho e-mail para criar um mailing. Também entram na conta os programas e aplicativos para gravação e edição de vídeo e áudio.
“Procuramos a ferramenta ideal para cada necessidade. Fizemos um trabalho de preparação baseado na experiência teatral, que é mais expansiva, para chegar na sutileza do audiovisual. Não trabalhamos com o olhar do público, mas há a experiência de trabalhar com o olhar da câmara. Pode afetar enquanto teatro, mas não afeta como arte”, afirma Hussan, lembrando que eles têm chamado suas produções durante a pandemia de peça-metragem. “Pensamos em como provocar quem assiste a estar junto com a gente, pensando nesse novo formato.”
Além de produzir para as telas, Hussan tem acompanhado outros espetáculos e analisa como é ter essa experiência em que a tela é a principal mediadora entre artista e público. “Percebemos que precisa ter a voz do elenco ou a trilha sonora mais presentes. Vimos que a masterização funciona de forma a amplificar a beleza do espetáculo e que é muito importante, uma das ferramentas para não banalizar o trabalho. Pensamos no uso desses recursos até para quando a pessoa estiver lavando a louça, que tenha um brilho para continuar a prestar atenção.”

O artista vai aonde o povo está: na internet

Quem também teve a preocupação de oferecer algo mais foi o quinteto Calango do Engenho. Segundo o tecladista João Paulo Lima, o grupo realizou apenas uma live musical ano passado, preferindo iniciar ainda em abril o projeto “Boteco do Calango”, em que entrevistam personalidades de dentro ou fora do universo musical. Após uma parada no final do ano, o projeto retornou em fevereiro, reformulado, com a inclusão de games e jogo de perguntas e respostas. O “Boteco” pode ser assistido ao vivo toda sexta-feira, às 20h, no canal da banda no YouTube.

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Calango do Engenho preferiu apostar nas entrevistas, e agora o ‘Boteco do Calango’ conta até com games para os convidados (Foto: Reprodução)

“A gente chamava pessoas que nem sempre eram músicos, mas com entrevistas ligadas à música. Mas vimos na época que havia muitas pessoas fazendo a mesma coisa ao vivo, tocando ou entrevistando, e que havia uma dificuldade de manter o espectador, ainda mais que não somos profissionais (de jornalismo). É uma forma da gente se divertir, se ‘encontrar’, ainda mais que mudei para Manaus no final do ano passado, mas precisava ser mais dinâmico até para ter a interação do público”, conta. “Pensamos então nesse formato de game show.”
Para João, essa sensação de que tudo fica “parecido” quando o presencial é mediado pela tela é uma dificuldade que os artistas têm enfrentado. “Sempre existe o risco de ficar semelhante. No caso da música, é complicado se destacar. No início da pandemia surgiram iniciativas muito parecidas, e aos poucos alguns artistas deixaram de fazer. Decidimos continuar porque é o que podemos ter, e temos que estar onde o povo está, e no momento o povo está na internet”, afirma, lembrando que havia no primeiro semestre de 2020 a sensação de que a Covid seria algo a ser solucionado em poucos meses. “No início eu assisti a lives de gente de Juiz de Fora, fossem de entrevistas ou música, e também dos artistas nacionais. Mas depois fui parando porque era live de todo mundo, fui procurando algumas outras coisas (risos).”
Quanto a um esperado (mas ainda não garantido) futuro pós-pandemia, João Paulo diz que o Calango do Engenho vai manter os pés fincados na internet, intercalando ou mesclando o presencial com o virtual. “Já pensamos em algumas possibilidades, entre elas manter o ‘Boteco’ em outro dia da semana, porém sem a obrigação de ser semanal. Conversamos com o pessoal do Uthopia sobre fazer o ‘Boteco’ no bar, transmitir um show no YouTube, ou ter o ‘Boteco’ com entrevista e um show na sequência. “Queremos com certeza manter essa presença na internet, pois vimos que pode ampliar nossos horizontes.”

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