Em torno do movimento de revitalização
O passado, o presente e o futuro do personagem Antônio, dono de uma geringonça capaz de fazê-lo viajar no tempo, são reflexos da praça. A mesma. Sempre ali, a espiar a cidade. No romance "A máquina", de Adriana Falcão, adaptado para o cinema por João Falcão, o protagonista apregoa seu amor no espaço público. Quantas declarações, entretanto, aquele lugar feito de bancos e árvores não terá conhecido? Há algumas semanas, Juiz de Fora vem discutindo a revitalização da Praça da Estação, cujo projeto foi aprovado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de Minas Gerais (Iphan-MG). Como descrever todas as facetas do solo que, ao longo da história, reverencia a torre e o relógio? Enquanto as obras – que devem marcar uma nova fase – não são iniciadas, alguns responsáveis por imóveis tombados no entorno se mostram dispostos a participar do movimento.
Assim que a arquiteta Lina Malta Stephan defendeu seu trabalho de final de curso na UFJF, em 2010, foi procurada pelos proprietários do Príncipe Hotel para colocar em prática a proposta de restauro desenvolvida sob a orientação do professor Jorge Arbach e apresentada durante a I Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes, em 2011. Para isso, a jovem, de 25 anos, firmou parceria com a Oscip Programa de Estudos e Revitalização da Memória Arquitetônica e Artística (Permear). Após oito meses e alguns ajustes, o projeto foi finalizado formalmente e recebeu parecer favorável do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac). "Agora, estamos aguardando algumas liberações da Prefeitura", observa Gabriel Ferreira Santos, um dos donos do prédio eclético, construído em 1915 pela Companhia Pantaleone Arcuri e tombado pelo muinicípio em 1999.
De acordo com Gabriel, o espaço restaurado será ocupado por salas comerciais, no segundo pavimento, e lojas de rua. "Para o começo das obras, ainda sem data prevista, necessitamos que os inquilinos atuais se retirem da edificação", explica o proprietário, salientando que as negociações estão avançadas. Responsável pelo bem histórico há quase 10 anos, Gabriel afirma, sem divulgar valores, que vinha fazendo uma reserva para viabilizar a recuperação. Durante esse período, não houve isenção de IPTU, uma vez que o imóvel não estava em boas condições de conservação. Como enfatiza Lina, apesar do grande número de pombas instalado no andar superior, a construção não se posiciona entre os piores exemplos locais. "Eu diria que a situação é mediana", avalia a arquiteta. Seu estudo contou com levantamento planialtimétrico (quando são verificadas todas as medidas), mapeamento de danos, levantamento histórico e fotográfico e proposta de restauração da fachada. "Nós mantivemos algumas mudanças realizadas ao longo do tempo e resgatamos as características originais mais importantes." Um prédio anexo também deve ser erguido.
Conforme Jorge Arbach, é essencial que a academia se volte para os apelos da cidade, fugindo de uma postura encastelada. Novo exemplo de aproximação com a comunidade é o edifício onde funciona a Padaria Glória, também na Estação. Orientado por Arbach, outro estudante do curso de arquitetura vai defender até o fim do ano um trabalho de conclusão com sugestão de restauro. Segundo o professor, o proprietário do edifício se interessou pela iniciativa e vem negociando uma possibilidade de permuta, na qual cederia parte do espaço para o núcleo local do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-JF) e para a Permear. Em contrapartida, ganharia o projeto e a ajuda das entidades na captação dos recursos necessários. "A intenção é criar ali a Casa do Arquiteto. O lugar é fácil de ser recuperado e ocupado", adianta Arbach.
Quando Lina Stephan, que hoje atua no Museu Mariano Procópio através da Permear, escolheu o Príncipe Hotel, já imaginava que a ideia pudesse ser retirada do papel. Mesmo sugerindo, a princípio, a continuidade da atividade hoteleira, "pela carência do setor no município", ela garantiu adaptações rápidas a fim de atender aos interesses dos donos. A proposta passará ainda por uma avaliação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), uma vez que o conjunto ferroviário da praça é tombado pelo órgão. Como observa a arquiteta, sua função não inclui o acompanhamento das obras, embora seu compromisso com elas vá até o fim do processo.
Desde 2009, quando foi demolida uma parede com pintura decorativa atribuída a Angelo Bigi, a Associação Comercial protagoniza embates com o Comppac. Segundo o atual presidente da instituição, Cláudio Horta, a intenção é resgatar a sintonia com o conselho e com a Divisão de Patrimônio Cultural da Funalfa, além de contribuir para a revitalização da Praça da Estação. "A recuperação de nossa fachada e de nossa parte histórica será incluída na verba captada pela Prefeitura para o projeto geral", assegura Horta, garantindo que a tal parede – hoje reconstruída, mas em branco – será refeita de acordo com as orientações. Para a revisão dos demais ambientes da sede, a Associação pretende ajustar, em parceria com o Comppac e a Funalfa, a proposta já existente e buscar aprovação na Lei Rouanet. Também sem delimitar custos, o presidente garante não ter dificuldades para encontrar empresas interessadas em oferecer apoio. "Importante é que a sociedade se envolva e cobre a revitalização da praça."
Ainda conforme Horta, no segundo semestre do ano passado, a Associação finalizou as obras no telhado da sede, aprovadas pelo Comppac em caráter emergencial, para evitar que as infiltrações avançassem. Mesmo assim, as criações de Bigi espalhadas pelo salão do setor histórico foram afetadas, apresentando manchas e rachaduras. De 2010 para cá, a instituição perdeu a isenção de IPTU, devido à falta de conservação. Quanto ao processo aberto pelo Ministério Público contra a Associação, Horta diz que a solução está em andamento. "Queremos modificar essa situação. Só as parcerias trazem soluções. O trabalho independente não existe", assevera o presidente.









