Gabinete de crise fala de reconstrução de Juiz de Fora após tragédia das chuvas
Em entrevista coletiva, foram apresentadas informações do trabalho conjunto realizado até o momento; moradia segue como principal gargalo
“Hoje, ao circular pela cidade, em muitos pontos, se não souber o que aconteceu, não parece que enfrentamos um desastre. Isso é resultado de um trabalho muito intenso, com a participação de diferentes instituições”, afirmou a secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular (Sedupp), Cidinha Louzada, durante coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira (27).
A declaração foi feita ao lado de representantes de órgãos que integram o gabinete de crise, como Ministério Público de Minas Gerais, Defesa Civil Nacional e Estadual, Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria Estadual de Educação, Exército e Corpo de Bombeiros.
O gabinete de crise foi criado após a tragédia provocada pelas chuvas em Juiz de Fora, que completou um mês nesta semana e deixou 65 mortos. Na coletiva, as entidades citaram o trabalho conjunto para reparação e resposta diante dos desastres que atingiram, principalmente, Juiz de Fora e Ubá.
Cidinha destacou a importância da articulação entre os órgãos públicos. “Juiz de Fora saiu do CTI”, analisou, acrescentando que é preciso voltar à normalidade para que a saúde mental seja restabelecida e que o pânico seja diminuído. “O que trago agora, passado esse período, é que todo o esforço feito pelo município, pelo estado e pela União nos coloca em um caminho: não de reconstruir a Juiz de Fora que existia antes, mas de construir uma cidade melhor. Hoje, conhecemos problemas que antes não eram visíveis.”
Mais de 1,7 mil moradias aguardam vistorias
Nesta semana R$ 3 milhões da Defesa Civil Nacional foram enviados para Juiz de Fora. O planejamento, conforme a representante do Executivo na coletiva, será usado para a limpeza da cidade. Segundo ela, a Defesa Civil realizou 5.268 vistorias técnicas no município, mas ainda restam 1.746 inspeções pendentes. Também foram registrados 1.368 atendimentos sociais. Atualmente, 1.368 pessoas seguem em hotéis custeados com recursos federais.
Também há trabalho conjunto com a Caixa para viabilizar compras assistidas de imóveis para as famílias atingidas. “O grande problema é a habitação. O que mais aflige é a questão das pessoas desalojadas. Vai ser o grande desafio.” Ao ser questionada sobre quantas famílias ainda permanecem em áreas classificadas como de alto risco, Cidinha Louzada afirmou que “não têm mais pessoas na área de risco; se existe pessoa na área de risco é porque voltou sem autorização”. Ao todo, 142 áreas de risco foram classificadas no município. De acordo com a secretária, todos os locais estão mapeados, mas ela reconhece problemas em pontos como o Morro do Imperador (Morro do Cristo) e a Estrada Engenheiro Gentil Forn.
O representante do Ministério Público, promotor de Justiça de Meio Ambiente, Alex Fernandes Santiago, destacou a necessidade de diferenciar os tipos de áreas de risco em Juiz de Fora. Segundo ele, há, de um lado, o mapeamento geral realizado pelo Serviço Geológico do Brasil, que aponta que o município ocupa o nono lugar em concentração de áreas de risco no país e o terceiro em Minas Gerais, de outro, as áreas já existentes que foram diretamente atingidas pelo recente evento climático extremo.
“O Serviço Geológico do Brasil tem esse mapeamento. E é esse mapeamento que indica que Juiz de Fora é o nono município que mais possui áreas de risco do Brasil e o terceiro de Minas Gerais. Outra coisa são as áreas de risco pré-existentes que foram diretamente impactadas pelo desastre, por essa chuva descomunal. Aí sim a gente entra nas 142”, afirmou. Ele também ressaltou que essas áreas refletem fatores históricos, como a ocupação irregular e dificuldades habitacionais acumuladas ao longo de décadas, e alertou para a necessidade de considerar tanto o diagnóstico estrutural quanto os impactos imediatos, sobretudo diante da intensificação de eventos climáticos extremos.
‘Não queremos que uma tragédia como essa se repita’
O promotor destacou as ações realizadas, mas ressaltou que a cidade ainda precisa de apoio do Estado e da União. “De forma imediata, são necessários geotécnicos, especialistas para realização de levantamentos, além de mais equipamentos e reforço das equipes.”
Ele avalia que há uma deficiência estrutural, o que tem dificultado a resposta diante da dimensão da tragédia. “Também é preciso ampliar o número de assistentes sociais e de profissionais técnicos para lidar com as demandas acumuladas.” Ele apontou o gargalo que Juiz de Fora enfrenta com moradias que ainda precisam de vistoria da Defesa Civil e enfatizou que o órgão, junto do Corpo de Bombeiros, vem atuando de forma ininterrupta, mas ainda assim enfrentam limitações diante da magnitude do cenário.
Alex fez um apelo para que o apoio das instituições continue, ressaltando que a presença e a atuação de todos são fundamentais. Para ele, embora haja mobilização intensa das equipes, a gravidade da tragédia que atingiu Juiz de Fora exige ainda mais suporte. Em meio às perdas e ao luto, o objetivo é evitar que situações semelhantes se repitam, especialmente em áreas que seguem sujeitas a deslizamentos.
Situação das escolas
Representando o MPMG, a promotora de Justiça de Patrimônio Público, Danielle Vignoli, e a promotora de Justiça da área de Educação, Samyra Ribeiro Namen, destacaram crianças, adolescentes e a educação como prioridades.
“Dentro do Gabinete de Crise, tenho trabalhado principalmente na questão das escolas, para garantir o retorno às aulas nas redes municipal e estadual”, afirmou Samyra ao destacar a necessidade de que todas as unidades retomem as atividades de forma segura e com o acolhimento necessário aos alunos.
Segundo ela, a Defesa Civil tem realizado vistorias em todas as instituições, e um problema de maior gravidade foi identificado na Escola Estadual Maria das Dores, no Bairro Santa Helena. Por conta da situação, as atividades devem ser retomadas em 6 de abril, em uma unidade provisória, na sede da Escola Municipal Marília Chaves de Moraes, no Bairro Teixeiras.
O secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, também falou dos esforços para o retorno dos mais de 26 mil alunos às atividades. “Do ponto de vista da infraestrutura, as escolas tiveram algumas intercorrências. São 23 intervenções identificadas em unidades da rede estadual, distribuídas em oito escolas. A maior parte já está em processo de solução, com recursos disponíveis nas caixas escolares para aplicação imediata em determinados tipos de intervenção.”
Trabalho de resgate e apoio às vítimas
Durante a coletiva também foram apresentadas as informações sobre o trabalho de resgate e apoio às vítimas. O Corpo de Bombeiros informou que 642 militares atuaram em 11 cidades da Zona da Mata atingidas pelas chuvas. Segundo a corporação, a atuação técnica das equipes permitiu o resgate de 304 pessoas com vida. Em Juiz de Fora, os trabalhos se estenderam por 120 horas. Em Ubá, as operações seguiram por 22 dias, até o encontro da última vítima.
A Polícia Militar informou que mobilizou 800 militares nas cidades afetadas, além de duas aeronaves empregadas no apoio às operações. Segundo a corporação, a presença do efetivo teve como objetivo garantir sensação de segurança à população. A PM destacou, ainda, a redução de 30% nos registros de furtos e saques durante o período de enfrentamento da crise.
O Exército atuou nas cidades de Juiz de Fora, Ubá, Visconde do Rio Branco, Matias Barbosa e Ewbank da Câmara. De acordo com Coronel, André Ricardo Valente, as forças armadas trabalharam na desobstrução de vias, transporte de equipes da Defesa Civil, utilização de caminhões-pipa, além do transporte e recolhimento de donativos. As ações também incluem o envio de máquinas de engenharia vindas do Rio de Janeiro.
O diretor do Departamento de Restabelecimento e Recuperação do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Paulo Roberto Farias Falcão, destacou a importância das estratégias adotadas e da destinação de recursos para ações de assistência humanitária. Em Juiz de Fora, foram aprovados R$ 10,5 milhões. Já em Ubá, os repasses chegam a cerca de R$ 50 milhões aprovados voltados a medidas emergenciais e à recuperação da infraestrutura urbana. Segundo ele, as próximas etapas incluem a aprovação de novos planos da Defesa Civil, a execução de obras, a ampliação da assistência social e o apoio à reconstrução de moradias e equipamentos públicos.
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