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Abrindo o baú de memórias


Por Daniela Arbex

24/12/2016 às 07h00

Um desejo: "Quero andar neste carro! Cadê o motorista? Se quiser carona, a gente aperta", brinca Flor de Maio ao ser flagrada pela equipe da Tribuna com enfeite de Natal (Foto: Fernando Priamo)
Um desejo: “Quero andar neste carro! Cadê o motorista? Se quiser carona, a gente aperta”, brinca Flor de Maio ao ser flagrada pela equipe da Tribuna com enfeite de Natal (Foto: Fernando Priamo)

“Quero andar neste carro! Cadê o motorista? Se quiser carona, a gente aperta.” Foi assim, bem humorada, que Flor de Maio Lopes Reis reagiu ao ser fotografada segurando uma bola de Natal feita de vidro que guarda a réplica perfeita de um fusca vermelho e um pinheiro cheio de neve transportado no teto do veículo em miniatura. O enfeite que simbolizou 88 dezembros de uma existência tinha ido parar nas mãos certas. Com a mesma transparência do adorno, a idosa também se deixou ver por dentro. Ao abrir o seu baú de memórias, Flor de Maio e outras moradoras da Fundação João de Freitas revelaram os sentimentos que estão por trás dos desejos de Natal de quem não vive mais na própria casa e sim em um lar coletivo.

A ideia de buscar o lado avesso do outro nasceu após a campanha do projeto social Dia de Magia, organização não governamental que conta com a ajuda de voluntários para desenvolver atividades junto a hospitais, creches, orfanatos e instituições que precisam de apoio. Em novembro, o grupo postou nas redes sociais fotos de idosos com seus respectivos pedidos de Natal. Uma senhora sonhava conhecer um aviador, outra queria apenas biscoitos amanteigados. Houve quem pedisse uma sombrinha, uma TV de tela plana e quem não desejasse nada além de saúde ou rever os filhos que se ausentaram da velhice dos pais.

"Aceito a idade que tenho e procuro fazer as coisas de acordo com ela. Não fico pensando na velhice". Flor de Maio Lope Reis, 88 anos (Foto: Fernando Priamo)
“Aceito a idade que tenho e procuro fazer as coisas de acordo com ela. Não fico pensando na velhice”. Flor de Maio Lope Reis, 88 anos (Foto: Fernando Priamo)

O projeto conseguiu tocar milhares de internautas do país que doaram mais de 1.300 presentes entregues pela organização em três entidades de assistência da cidade. Entre os objetos distribuídos estavam uma camisa do Flamengo autografada que foi enviada pela diretoria do clube a um torcedor fanático e o primeiro celular de uma pessoa em seus mais de 80 anos de vida. Os desejos dos idosos também despertou o nosso de conhecer a história deles. Foi assim que a Tribuna chegou a Flor de Maio e a suas amigas.

Flor de Maio queria de presente apenas um chinelo confortável para fazer caminhadas na instituição. O modelo teria que ser 37, um número acima do seu, já que problemas no pé dificultam o uso de calçado em tamanho normal. “Do pescoço para baixo estou com uns defeitinhos, mas daqui para cima a minha cabeça está ótima”, afirmou, rindo das próprias limitações. É com leveza que a moradora da Fundação João de Freitas procura lidar com a passagem do tempo, embora nada tenha sido fácil na vida dela. Até hoje, confecciona os próprios enfeites de Natal, herança de quem aprendeu desde cedo a valorizar as mãos e utilizá-las para cuidar de si mesma. Órfã de mãe aos 11 anos e de pai aos 14 anos, a menina de 1,54m precisou se agigantar para criar um irmão mais novo em um lugar que carecia de tudo, inclusive de água.

 

Leveza para lidar com tempos duros

Nascida em julho de 1928, Flor de Maio ganhou da avó materna o nome de planta. Mas a igreja não aceitou fazer o batismo oficial. Na hora da celebração, o padre cismou que Flor de Maio não era nome de gente. Decidiu, então, batizar a menina de Maria Luiza, e Flor só descobriu que tinha outro nome quando precisou do atestado de batismo para casar. Casamento feito, Flor não foi feliz ao lado do homem que escolheu. Ela sonhava usar o dinheiro do trabalho para ter a segurança de uma casa, mas o marido desejava o status de um automóvel. No fim das contas, não compraram nem carro, nem casa. A união se desfez tempos depois, em uma época marcada pelo preconceito em relação às mulheres divorciadas. Flor foi trabalhar na casa de uma família alemã que já estava no Brasil há muito tempo e, depois de cinco anos, conseguiu emprego na Itália como cozinheira. Retornou ao país em fevereiro de 1979 para comprar a primeira casa em São Paulo.

Mas foi em Juiz de Fora que ela refez sua história. Aqui ela conheceu um funcionário civil do Exército que a pediu em casamento 29 dias depois de ter perdido a esposa. “Falei com ele: vamos com calma, o negócio não é assim”, relembra. Ficaram 12 anos casados. Com a morte do marido, Flor passou a cuidar das irmãs no Bairro São Pedro. Depois que elas faleceram, foi morar na casa de parentes até que decidiu encontrar um lugar seu. Há três anos, mudou-se para a Fundação João de Freitas e diz sentir-se feliz diante da única coisa de valor que tem na vida: consciência tranquila. “As rugas do meu rosto são minhas marcas e não me pesam, pois na vida o que vale é o bem que se faz”, ensina a mulher feita de aprendizado. Rica em sua simplicidade, o par de chinelos desejado por Maria Flor diz muito sobre ela. Bonecas para resgatar a infância

“Eu gostaria de ganhar uma boneca preta.” O pedido de Elza Afonso da Costa, 61 anos, está entre os que chamaram atenção na campanha de Natal. Não só pela singeleza, mas pela curiosidade do desejo. “Acho que nunca tive uma boneca quando era pequena e, depois que vim para cá, comecei a ganhar e fui adorando”, diz a moradora da Fundação João de Freitas que guarda consigo 16 bonecas. No armário do quarto onde dorme, ela divide o espaço de suas roupas com os pequenos vestidos que enfeitam as suas preferidas. Divorciada e mãe de um rapaz de 32 anos, Elza não teve tempo para suas vontades. Passou 20 anos trabalhando na casa de Vicente Paulo Gatti, embaixador do Brasil que exerceu importantes cargos diplomáticos em vários países como Bélgica, Irlanda, Finlândia, entre outros. Gatti e a mulher deram a Elza o primeiro emprego, e ela se manteve fiel aos patrões por duas décadas.

"Acho que nunca tive uma boneca quando era pequena e, depois que vim para cá, comecei a ganhar a fui adorando". Elza fonso da Costa, 61 anos (Foto: Fernando Priamo)
“Acho que nunca tive uma boneca quando era pequena e, depois que vim para cá, comecei a ganhar a fui adorando”. Elza fonso da Costa, 61 anos (Foto: Fernando Priamo)

De gestos refinados, Elza conta que depois da morte do embaixador e de sua esposa ficou morando com uma sobrinha no Rio até que veio para Juiz de Fora, onde foi acolhida pela João de Freitas, embora não se lembre quanto tempo faz. Na entidade, passou a colecionar os brinquedos da infância que não teve. Em meio à sua coleção já existe uma boneca preta. “Pedi mais uma para fazer companhia para outra”, explica a mulher, enquanto ajeita outra raridade: uma bailarina de pano que toca música e se movimenta. Faz questão de girar a corda para que as visitas escutem o som delicado da boneca que se mexe. Enquanto ela exibe seu tesouro, sorri orgulhosa. “Pena que parou. Acho que dei pouca corda.”

 

Quando o presente não é material

"As pessoas estão correndo por aí esquecidas de tanta coisa boa, como a responsabilidade com o próximo. Não sabem que viver é motivo de felicidade". Maria Onília Fortes de Oliveira, 88 anos (Foto: Fernando Priamo)
“As pessoas estão correndo por aí esquecidas de tanta coisa boa, como a responsabilidade com o próximo. Não sabem que viver é motivo de felicidade”. Maria Onília Fortes de Oliveira, 88 anos (Foto: Fernando Priamo)

A ex-bancária Maria Onília Fortes de Oliveira, 88 anos, não pediu nada de Natal. “O importante é a presença, não é o presente. O toque, o olhar, o abraço, o sorriso, isso fala mais que qualquer embrulhinho que se vá desembrulhar. O aconchego fala mais”, ensina a mulher que conhece a Fundação João de Freitas desde que ela tinha 7 anos. A tia dela, Isabel Fortes Ribeiro, foi uma das administradoras da entidade fundada em 1934 por Ali Halfeld, com o apoio de Orvile Derby Dutra e Epaminondas Braga.

Ainda criança, Maria Onília se lembra de vê-los trabalhando para amparar a velhice e, naquela época, jamais poderia imaginar que, no futuro, também seria beneficiada por aquele espaço. “O seu Ali sempre falava: eu não fiz, nós fizemos. Cada um deu sua contribuição para a construção dessa bela casa, um lar simples, sem grife, mas com o principal: amor”, lembra.

O tempo passou e Maria Onília cresceu com a responsabilidade de assistir aos pais e à irmã. Por opção, não se casou e, quando todos que ela cuidou se foram, percebeu que precisava de um lugar onde não ficasse sozinha. Assim, em 2011, fez o caminho de volta para a instituição onde, criança, corria pelos corredores, acompanhada de parentes. Para ela, viver na fundação não é sinônimo de tristeza, nem de estagnação.”Todo dia agradeço a Deus por poder andar, por estar com minha cabeça boa, podendo cuidar de mim. Sou muito grata a Deus por estar nesta casa, gosto muito daqui”, conta ela.