População contabiliza prejuízos causados pela chuva em JF
Defesa Civil registrou cinco ocorrências, todas na Zona Norte; moradores se dizem surpreendidos pela intensidade do temporal
As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora na noite de segunda-feira (16), com granizo e ventos de até 62 km/h, causaram prejuízos à população, sobretudo em bairros da Zona Norte. Na manhã desta terça-feira (17), moradores contabilizaram estragos causados pelo temporal, que surpreendeu a cidade por sua intensidade após mais de 50 dias de estiagem. Segundo a Defesa Civil, foram registradas cinco ocorrências, todas na região Norte do município. Telhas foram arremessadas pela ventania, um muro de contenção foi destruído e casas foram invadidas pela água.
O Bairro Jardim Natal foi um dos mais castigados. Segundo a Defesa Civil, houve escorregamento de talude, desabamento de muro e alagamento na Rua Constança Vidal. A principal ocorrência foi registrada na Rua Geraldo Vilela, onde telhas de residências se desprenderam e atingiram a rede elétrica, deixando o bairro sem luz. Sueli da Silva, de 71 anos, teve sua casa destelhada. Ela mora há quase 40 na Rua Geraldo Vilela, e disse que foi surpreendida pelo temporal. “Eu saio correndo quando chove, corro para as casas dos vizinhos. Já aconteceu outras vezes, mas não costuma ser nessa época do ano”, lamenta. Quando a Tribuna visitou o local, na manhã desta terça, as telhas ainda estavam no meio da rua.

Segundo outra moradora do bairro, Andressa Cristina Portugal, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) esteve no local para desligar a rede elétrica ainda durante a noite de segunda, mas, até então, não havia retornado para resolver o problema de abastecimento, e os moradores continuavam sem luz. Com a falta de energia elétrica, o padeiro Cláudio José Moreira teve prejuízos. “Se a luz voltar ainda durante a manhã, eu ainda consigo fazer uma fornada hoje”, disse à Tribuna. Nos fundos da padaria, no entanto, a ventania deixou rastros: uma janela foi derrubada e outros itens ficaram espalhados pelo chão.
Em contato com a reportagem, a Cemig informou que 28 equipes da Companhia estavam atuando, nesta terça, para resolver os problemas relacionados às chuvas. A empresa garantiu que o restabelecimento da energia será realizado ao longo do dia. “A companhia destaca que, para atendimento às ocorrências no sistema elétrico, prioriza sempre casos de urgência e os que podem representar risco à população, como cabos partidos e árvores, galhos ou objetos sobre a rede”, afirmou, em nota.
Alagamento e desabamento de mureta
Em trechos do Bairro Francisco Bernardino, na Zona Norte, moradores também contabilizavam os prejuízos. Na Rua Professor Meton de Alencar, a água chegou a invadir as casas e, durante a manhã, ainda havia lama nas ruas, além de pessoas tirando móveis encharcados de dentro das residências. Moradora do local, Anna Maria Fernandes, de 67 anos, disse que a enxurrada foi repentina. “Assustou a gente porque, quando veio, foi rápido e não deu tempo para as pessoas tomarem as providências. A gente foi pondo as coisas para cima”, recordou.

Já o dono de um estabelecimento de conserto de equipamentos eletrônicos, Jorge Fernando, de 55 anos, não teve prejuízos porque estava prevenido. Costumeiramente, ele deixa os itens mais frágeis nas partes altas da loja. “Na primeira vez o prejuízo foi grande, mas a gente vai se acostumando”, disse ele, que trabalha no local há 12 anos. Na chuva desta segunda, a água chegou a alcançar até cerca de 50 centímetros de altura.
No Bairro Industrial, local com histórico de alagamentos e outras ocorrências em períodos chuvosos, a Defesa Civil registrou um desabamento de muro de contenção. No local, um morador ainda flagrou o desabamento de cerca de 20 metros de uma mureta que cerca o Córrego Humaitá. “(A chuva) com essa intensidade foi uma surpresa. Temos setembro e janeiro como meses de inundações. Esse histórico das chuvas de janeiro é mais conhecido”, relatou Erick Vagner, morador do bairro, à Tribuna.
A moradora Jerusa Ramos, que reside próximo ao córrego há 17 anos, se disse preocupada com a proximidade dos períodos tradicionais de chuvas intensas, entre o final do ano e o início do seguinte. “Preocupa muito. No ano passado, ficou um certo tempo sem chuvas, mas deu uma enchente feia em janeiro. A nossa casa é a primeira que entra água, a gente sempre fica preocupado quando começa a chover”, conta.
Já no Bairro Jóquei Clube, ocorreu um desabamento de muro de contenção, conforme a Defesa Civil. Nas redes sociais, também foram registrados diversos pontos de inundação no bairro, sobretudo na Avenida JK.
19 meses sem solução
Na Rua José Orozimbo de Oliveira, no Bairro Santa Luzia, região Sul, o motivo de preocupação dos moradores é antigo: uma encosta que cedeu, levando mais da metade do asfalto em dois trechos da via pública, em janeiro de 2020. Na ocasião, o problema gerou a interdição de três residências do entorno, além do fechamento de parte da rua. Nesta terça, moradores manifestaram preocupação com a aproximação de mais um período de chuvas e a possibilidade de deterioração do asfaltamento.
Passados 19 meses, a rua continua da mesma maneira. De acordo com os moradores, rotineiramente, integrantes da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) visitam o local para verificar a situação da via, mas sem realizar intervenção definitiva. O problema, além de colocar os moradores em risco por conta dos dois barrancos que foram formados e permanecem sem qualquer proteção, também gera uma série de intercorrências pela impossibilidade de veículos transitarem no local, de modo que ambulâncias não conseguem acessar partes da rua, tampouco motoristas de aplicativo. Um dos moradores não consegue tirar o carro da garagem desde a queda da rua.

A moradora Jeniffer Cristine chegou a ficar três meses hospedada em outra residência quando ocorreu o deslizamento da encosta. Entretanto, o aluguel pesou nas contas mensais e ela voltou, junto com os quatro filhos, para o local, bem em frente a um dos pontos mais prejudicados da via. “Quando chove, a gente não dorme. Fica olhando aqui (na encosta) para ver se não vai cair mais”, disse. A sensação dos moradores, segundo ela, é de que foram esquecidos pelo Poder Público. “Eles vieram há algumas semanas para ver a situação, mas não chegaram a fazer nada. A gente está pensando em fazer uma manifestação para chamar a atenção”, afirma Jeniffer, enquanto duas das crianças brincavam próximo ao barranco.
Em contato com a reportagem, a Defesa Civil assegurou que monitora a situação da rua e realiza vistorias preventivas mensalmente. “Foram tomadas medidas para mitigação do risco, como a instalação de lona vinílica e de leira para desviar as águas pluviais da encosta. Não há novas movimentações de solo no local”, garante.
Ainda segundo a Defesa, foi contratada a empresa que será responsável pela execução da recuperação do local e “já foram realizados os levantamentos preliminares de sondagem e de topografia da área. A vistoria preventiva de agosto será realizada pela Defesa Civil nesta quarta-feira (18)”.








