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Católicos e evangélicos redesenham o centro da fé em Juiz de Fora

Dados do Censo 2022, divulgados em junho, revelam retração do catolicismo e consolidação evangélica em um contexto de mudanças sociais e disputas por significado e pertencimento


Por Mariana Souza

13/07/2025 às 06h00- Atualizada 14/07/2025 às 08h29

Igreja da Gloria Felipe Couri
Juiz de Fora segue tendência nacional de mudança no perfil de crença, com queda do catolicismo e avanço de outras religiões, segundo o Censo 2022 do IBGE (Foto: Felipe Couri)

O Brasil apresenta uma nova reconfiguração no perfil religioso da população: enquanto o Catolicismo e o Espiritismo perderam fiéis, a religião Evangélica, a Umbanda e o Candomblé registraram alta nos últimos anos. Em Juiz de Fora, o cenário se repete, como mostram as informações do Censo 2022 divulgadas, em junho, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados do estudo deram origem à nova série de reportagens da Tribuna de Minas, “As rotas da crença: novo mapa religioso de Juiz de Fora”, publicada a partir deste domingo (13).

No Brasil, o Catolicismo, que em 2010 representava 65,1% da população com 10 anos ou mais, caiu para 56,7% em 2022 –  uma redução de 8,4 pontos percentuais. Por outro lado, a proporção de evangélicos aumentou de 21,6% para 26,9% no mesmo período, um avanço de 5,2 pontos percentuais.

Para o professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF, Emerson José Sena da Silveira, os dados locais revelam que “Juiz de Fora acompanha as tendências, com um freio no crescimento evangélico, uma desaceleração na queda do número de católicos e um aumento das religiões afro-brasileiras, como o Candomblé. Também há um crescimento dos sem religião.”

No entanto, Silveira ressalta limitações metodológicas do levantamento. Nesta edição do Censo, algumas categorias e subdivisões presentes em 2010 foram agrupadas, o que dificulta uma leitura mais detalhada. “Os especialistas têm se debruçado sobre essa questão. O IBGE simplificou as categorias por conta das exigências do método quantitativo por amostragem. Embora o Censo geral seja feito casa a casa, a amostragem é sempre mais complexa. Isso limita alguns recortes, mas preserva as principais tendências”, analisa.

Mesmo em queda, Religião Católica predomina

Igreja Catolica Felipe Couri
Mesmo com a perda de fiéis, Igreja Católica permanece como a maior expressão religiosa em Juiz de Fora. (Foto: Felipe Couri)

Apesar de se manter como a principal expressão religiosa em Juiz de Fora, a Igreja Católica tem perdido fiéis. Dados do Censo 2022 indicam que 58,8% da população se declara católica – queda de 5,7 pontos percentuais em relação ao levantamento de 2010. 

Para Silveira, a perda está ligada a transformações sociais mais amplas. “O Catolicismo perde espaço por conta das dinâmicas modernas que valorizam o indivíduo, a autonomia e a escolha pessoal. É uma religião tradicional que tenta se adaptar com novas estratégias, passando a operar com um ‘catolicismo internalizado’, mais voltado à vivência individual da fé.”

O declínio, porém, não é recente, nem exclusivo do Brasil. O professor lembra que a religião, por muito tempo, ocupou uma posição monopólica, associada ao Estado. Com a Proclamação da República e a instituição do Estado laico, o cenário religioso brasileiro se diversificou.

Declínio global e histórico

Dados globais confirmam essa tendência. Segundo o World Christian Database, citado pela revista The Economist, nas últimas cinco décadas, o número de católicos só cresceu acima da taxa populacional na África e na Ásia. Na Europa, historicamente o principal centro do Catolicismo, a proporção de fiéis caiu de 37%, em 1975, para 32%, em 2025.

No Brasil, o percentual de católicos é o menor desde 1872, quando 99,7% da população se declarava adepta da religião. Em Juiz de Fora, apesar da predominância, a fé católica apresenta sinais de desgaste, especialmente entre os mais jovens. O perfil atual dos fiéis revela uma maioria branca (61,9%), com concentração nas faixas etárias de 70 a 79 anos (15,44%) e acima dos 80 (16,9%).

Diante desse cenário, a Igreja Católica tem buscado estratégias para se reaproximar da sociedade, com foco na juventude. “Há padres cantores, influencers, e leigos que adotam uma linguagem mais atualizada. São formas de ressignificar a experiência religiosa, sem romper com a tradição institucional”, afirma Silveira.

Integrantes da “Igreja em Marcha – grupo de leigos católicos” ouvidos pela reportagem apontam que a dificuldade da Igreja em se adaptar a temas contemporâneos, somada ao avanço da secularização e à concorrência de religiões mais dinâmicas, contribui para o cenário de retração. Para eles, o catolicismo precisa lidar com o desafio de se manter relevante sem abrir mão de sua identidade, já que a perda de fiéis mostra que o modelo tradicional enfrenta limites.

Ainda assim, Silveira vê sinais de estabilidade. “A perda foi significativa, mas hoje é menor. Segundo Paul Freston (sociólogo especialista em religião), há uma tendência de acomodação no campo religioso. O que vemos é a diversificação da oferta de bens de salvação: diferentes religiões, formas de crença, combinações de espiritualidade.”

O padre Elílio de Faria Matos Júnior, incardinado na Arquidiocese de Juiz de Fora, compartilha da análise, embora ressalte que fala em caráter pessoal. Ele destaca o impacto de mudanças culturais e sociais sobre a vivência da fé. “Essa tendência tem sido observada há alguns anos e reflete uma série de transformações culturais profundas: a secularização crescente, o individualismo, a mudança nos vínculos familiares e comunitários e até a rapidez das mudanças tecnológicas. Noto que, muitas vezes, a Igreja tem dificuldades de fazer-se presente em todas as situações da vida e em todos os lugares. Nossa palavra de padres, por vezes, não é tão direta e persuasiva como seria desejável. No entanto, continua havendo um esforço constante das paróquias para manter a vitalidade da fé, acolhendo, escutando e caminhando com o povo.”

Mesmo com os desafios, o padre observa sinais de interesse renovado. “Hoje, também noto que há um movimento de busca pela Igreja Católica, por sua doutrina e sua beleza litúrgica. A evangelização nas mídias sociais e por figuras de grande carisma tem despertado um novo interesse.”

Tradição e renovação

Sobre as estratégias de evangelização, padre Elílio afirma: “A Igreja existe para anunciar o Evangelho. Ela não existe para fazer proselitismo. Mas, sem dúvida, a estratégia entra como um instrumento a serviço do anúncio do Evangelho. Podemos dizer que a Igreja tem procurado fortalecer a sua presença junto aos mais vulneráveis, intensificando ações sociais, pastorais de escuta, visitas e projetos que unem fé e solidariedade. Com os jovens, o caminho é sempre o do encontro e do testemunho: mais do que discursos, eles precisam ver cristãos autênticos, coerentes, que amam e servem.”

Segundo ele, o engajamento de fiéis continua acontecendo, especialmente onde há testemunho concreto. “Há sinais muito bonitos de engajamento, sobretudo entre aqueles que compreendem que a fé se vive no serviço e na caridade. A fé, quando é vivida de forma encarnada, gera frutos concretos. Ainda há muito a crescer, mas é esperançoso ver que, onde há testemunho e acolhida, há também resposta generosa dos fiéis.”

Ele destaca o papel da Igreja no mundo atual: “Em uma sociedade plural, a Igreja não impõe, mas propõe com liberdade e respeito”, avalia. 

Consolidada, religião Evangélica tem ritmo de crescimento menor

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O número de evangélicos em Juiz de Fora corresponde a 25,3% da população, o que consolida a religião como a segunda maior força religiosa local. (Foto: Felipe Couri)

A religião Evangélica segue consolidando sua presença em Juiz de Fora — ainda que, pela primeira vez em décadas, em ritmo menos acelerado, realidade observada no Brasil e em Juiz de Fora.

No país a proporção de evangélicos cresceu 5,2 pontos percentuais entre 2010 a 2022, conforme o Censo do IBGE. O levantamento anterior mostrou que a alta no período de 2000 a 2010 foi de 6,5 pontos percentuais.  Esta é a primeira desaceleração desde a década de 1960.

No município, o censo 2022 mostrou um crescimento abaixo do observado no país: 3,6 pontos percentuais. Hoje, o número de evangélicos na cidade corresponde a 25,3% da população, o que consolida a religião como a segunda maior força religiosa local.

O perfil etário aponta predominância nas faixas de 30 a 39 anos (18,45%) e 40 a 49 anos (16,96%), com presença significativa entre pessoas pretas – que representam 37,24% do total. Para Silveira, essa distribuição revela uma mudança geracional importante: “Enquanto o Catolicismo concentra fiéis mais velhos, o público evangélico é mais jovem. Isso tem relação direta com os processos de transformação social e com a forma como diferentes gerações se conectam às linguagens religiosas.”

Dilemas da modernização religiosa

Para o pastor Bill Hudson, líder da denominação evangélica A Igreja do Brasil, a visibilidade evangélica aumentou na última década impulsionada pela presença digital e pelo fortalecimento de espaços culturais. “A igreja sempre teve influência em diversas áreas — política, ciência, educação, economia — mas com a internet, esse protagonismo se tornou mais visível. A música cristã brasileira, por exemplo, é hoje referência mundial. As redes sociais tiraram o cristão do anonimato e aproximaram a fé da sociedade.”

Silveira, no entanto, pondera que a renovação das formas de expressão da fé traz, também, dilemas. “A tentativa de atualizar a linguagem religiosa é compreensível, mas encontra limites. O uso de elementos da cultura de massa – como o sertanejo gospel, o marketing digital ou a lógica dos likes – aproxima a igreja da sociedade, mas também pode gerar esgotamento. Toda inovação carrega um risco: a de virar moda, e toda moda envelhece rápido.”

Ambos concordam que a modernização da experiência religiosa não pode comprometer a experiência. “A essência da fé não mudou. O que mudaram foram os meios. A igreja precisa manter sua identidade bíblica, mesmo diante dos desafios culturais”, afirma o pastor.

Entre a estatística e a espiritualidade

Apesar dos números em alta, o pastor alerta para a diferença entre estatística e comprometimento. “É importante distinguir cristãos nominais de discípulos comprometidos. Os dados do IBGE não revelam maturidade espiritual. O crescimento precisa vir acompanhado de profundidade, transformação de vida e fidelidade ao evangelho.”

Silveira também relativiza a leitura meramente quantitativa. “O crescimento desacelerado já era previsto por estudiosos como Paul Freston, que avalia que os evangélicos dificilmente ultrapassarão 35% da população. Há sinais de consolidação: uma estabilização que decorre, inclusive, do surgimento de novas identidades – como o evangélico não praticante ou desagregado.”

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli