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No dia de Santo Antônio, Tribuna relembra a ligação de Juiz de Fora com seu padroeiro

Município comemorou seus 171 anos de fundação em 31 de maio, Santo Antônio está presente nessas margens do Paraibuna por quase 280 anos, e tudo graças à devoção de um fazendeiro


Por Júlio Black

13/06/2021 às 07h00

Neste domingo, a diocese de Juiz de Fora comemora o dia de Santo Antônio, padroeiro da cidade, santo de devoção de muitos fiéis católicos e personagem a quem muitos recorrem na tentativa de encontrar a pessoa amada, visto que ele é conhecido como o santo casamenteiro. Como o tempo e as pessoas passam, é normal pensarmos nos dias de hoje apenas na condição de padroeiro ou de casamenteiro de Santo Antônio, mas sua ligação com a cidade vai muito além. E põe “muito além” nisso: se Juiz de Fora comemorou seus 171 anos de fundação em 31 de maio, Santo Antônio está presente nessas margens do Paraibuna por quase 280 anos, e tudo graças à devoção de um fazendeiro.

Mas ainda tem mais, caro leitor. O Santo Antônio de Juiz de Fora faz parte da lista da lenda de “santos fujões” que nasceu na Europa e que por aqui também chegou, tendo como outros exemplos as imagens do Senhor Bom Jesus em Costa Rica (MS) e outro Santo Antônio, desta vez na cidade sergipana de Itabaiana. Antes de partimos para a lenda, porém, é preciso ir mais fundo no passado, até a chegada de Santo Antônio à região, e quem nos ajudará na viagem é o professor, historiador e pesquisador Antônio Carlos Lemos Ferreira, que em 2006 defendeu a tese de mestrado “A introdução da devoção a Santo Antônio em Juiz De Fora: do Morro da Boiada à Vila do Paraibuna (1741-1850)”, que em 2008 foi publicada como livro sob o título “A devoção a Santo Antônio em Juiz de Fora – O Santo Fujão” – mesmo ano em que publicou o livro infantil “A lenda do Morro da Boiada”, que vai ser relançado assim que a pandemia der uma trégua.

Para Antônio Carlos, a história do Santo Antônio Fujão é mais que uma lenda: ela mostra que, já naquela época, o abismo social resultava numa luta desigual entre as classes mais e menos favorecidas, situação que perdura até hoje, mas antes da lenda vamos à História.

Imagem de Santo Antônio está na Catedral Municipal desde 1850 Foto: Fernando Priamo

Antigamente, era tudo mato

A relação de Santo Antônio com a cidade começa mais de um século antes da criação da Vila de Santo Antônio do Paraibuna e de a cidade ganhar o nome de Juiz de Fora. Em sua pesquisa, Antônio Carlos lembra que o historiador Jair Lessa relatou que o fazendeiro Antônio Vidal – pai do inconfidente Domingos Vidal, solicitou em outubro de 1741 a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio em sua fazenda, localizada à margem esquerda do rio Paraibuna e nas proximidades do Caminho Novo da Estrada Real, que ligava Minas Gerais até o Rio de Janeiro. A propriedade ficava entre o Rancho do Marmelo, no atual Bairro Retiro, e a Fazenda do Juiz de Fora, na região ocupada séculos depois pela famosa boate Sayonara.

Entre os motivos para a demanda, estava o fato de sua propriedade ficar muito longe das igrejas mais próximas, Nossa Senhora do Engenho do Mato, em Chapéu D’uvas, e Nossa Senhora da Glória, em Simão Pereira, o que dificultava a presença de sua família nas missas, principalmente quando chovia. A autorização do bispado do Rio de Janeiro foi obtida dois meses depois, mas a construção ficou pronta apenas em 1744.

Entre o material encontrado por pesquisadores e historiadores está a carta de Antônio Vidal solicitando a construção da capela

Apesar de frequentar as freguesias dedicadas à mãe de Jesus Cristo, Antônio Vidal preferiu dedicar sua capela ao “xará”, nascido em Portugal em 1195 e o mais popular santo em terras lusitanas – e um dos mais populares no Brasil e na religião católica como um todo.

“Antônio Vidal puxa para a religiosidade portuguesa dele, a respeito de Santo Antônio, que já estava presente na região desde a abertura do Caminho Novo, pois o bandeirante Garcia Rodrigues Pais, que saiu de Werneck (que integra o atual município de Paraíba do Sul), tinha Santo Antônio como padroeiro de sua bandeira”, explica.

Só essa parte já rende uma das discussões entre o que é fato ou lenda na cidade. Por muito tempo, houve quem defendesse que o Morro da Boiada, onde se localizava a capela pioneira, ficava atrás de onde foi construída a Catedral Metropolitana de Juiz de Fora, ainda que não faltassem testemunhas orais de que o morro ficava onde foi criado muito tempo depois o Bairro Santo Antônio. “Um dos mistérios era saber onde ficava o Morro da Boiada. Minha pesquisa tinha entre seus objetivos desmentir a afirmação feita por Paulino de Oliveira quando foi escolhido para registrar a história da cidade, em que colocava o morro como um local lendário. Juntamos documentos com a oralidade, demonstrando que o morro existiu, sim, que ficava no atual Bairro Santo Antônio, e que era um típico arraial mineiro (no caso, o Arraial de Santo Antônio), que era caracterizado por ter uma capela e um cemitério ao lado”, argumenta, destacando ainda que ela ficava localizada numa área abaixo de onde foi construída outra capela, na década de 1960.

Uma nova capela

Sete décadas depois da iniciativa de Antônio Vidal, o novo dono da fazenda, Antônio Dias Tostes (pai), fez o requerimento para construção de uma nova capela dedicada a Santo Antônio, em 11 de dezembro de 1815. A autorização foi dada pelo príncipe regente D. João e pelo bispo de Mariana quase seis anos depois, em 13 de novembro de 1821. A partir do trabalho de Jair Lessa, Antônio Carlos Lemos Ferreira apontou em sua pesquisa registros que indicam que, em 1824, “o cônego Manuel Rodrigues da Costa, visitando a paróquia a mando do Bispo de Mariana, relatou que a capela das ‘Boiadas’ estava em bom estado, embora ainda não acabada”, e que “de fins de 1822 a começos de 1824, procedeu na capela, ofícios religiosos, o padre Lourenço Gonçalves Lage”.

Também são citados alguns dos habitantes mais ilustres da sociedade local da época que frequentaram a capela dos Dias Tostes entre 1822 a 1839. Além da família Dias Tostes, são citados Francisco Vidal, Francisco Viera de Toledo, o alferes José Bastos Pinto, Antônio Fialho, Geraldo Gonçalves Lage, capitão Pedro Teixeira de Carvalho e Mariano Dutra, entre outros. Antônio Carlos ressalta ainda outros fatos que corroboram a importância das capelas que existiram no Morro da Boiada. “O Antônio Vidal e o primeiro Antônio Dias Tostes foram enterrados lá, e a filha de Dias Tostes foi batizada e se casou na capela construída por ele. Era um território poderosíssimo, e essa capela não pode ser jogada no ocultamento de jeito nenhum.”

Santo em fuga da “Cidade dos Ricos”

Poucos anos depois da construção da capela nova, ainda no lado esquerdo do Paraibuna, a futura Juiz de Fora passou por uma mudança fundamental para o crescimento da localidade na margem esquerda do rio: a instalação daquela que se tornaria a catedral da cidade e o surgimento da lenda do Santo Fujão – tudo temperado pela questão do abismo social.

Em 1836, o engenheiro alemão Henrique Halfeld projetou a Estrada do Paraibuna, via alternativa ao Caminho para facilitar a ligação entre Villa Rica (atual Ouro Preto) e o Rio de Janeiro, deslocando o eixo principal do povoado da margem esquerda do rio (a região em torno da Fazenda do Juiz de Fora) para o atual centro da cidade. A futura Avenida Barão do Rio Branco foi aberta, a princípio conhecida como Rua Principal, depois Rua Direita, e outras vias foram traçadas em seu entorno. Como resultado, a elite intelectual e econômica se mudou em peso para a região do Alto dos Passos, em terras de Antônio Dias Tostes.

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Um dos efeitos dessa mudança foi fundamental para a religião e o surgimento da lenda do Santo Fujão. Em 28 de março de 1844, o presidente da Província de Minas Gerais concedeu aos “moradores do Juiz de Fora” a licença para a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio, cuja autorização foi assinada por Dom Antônio, bispo de Mariana, a 12 de dezembro do mesmo ano. A primeira Igreja Matriz de Juiz de Fora foi construída logo atrás de onde posteriormente foi erguida a segunda Matriz – décadas depois elevada à categoria de Catedral, quando Juiz de Fora passou a ser diocese – uma vez que a edificação original não comportava o expressivo número de fiéis. O local também recebeu um cemitério, que posteriormente foi fechado por causa do surto de cólera que atingiu o Rio de Janeiro anos mais tarde, o que levou a população a temer que a doença pudesse ser transmitida pelos mortos aos vivos. O novo cemitério foi construído no Poço Rico, e é o principal de Juiz de Fora até hoje.

Localizada atrás da atual Catedral, primeira Matriz de Juiz de Fora teria recebido inicialmente a imagem do “Santo Fujão”

E chegou, enfim, a hora da lenda. Segundo Antônio Carlos, o núcleo habitacional surgido no lado direito do Paraibuna era “secularizado”, não tendo surgido ao redor de uma igreja, então eles tinham a capela, mas não tinham o santo. Foi decidido, então, que o Santo Antônio da Boiada seria levado da capela onde estava para a novíssima Matriz em 1848, provavelmente com direito a procissão. Porém, no dia seguinte, lá estava Santo Antônio em sua capela “original”, levado talvez pelos moradores insatisfeitos com a perda de seu padroeiro. Foi um “leva e traz” até os responsáveis pela Matriz tomarem a decisão de “prender” Santo Antônio para que ele parasse com essa história de querer “fugir” para seu antigo “lar”, além de ajudar a forçar parte da população a aceitar a fundação da cidade em um novo local.

Vale lembrar, a título de curiosidade, que a decisão de “prender o santo” é parecida com a que tomou a população de Costa Rica, que cortou os pés da imagem do Senhor Bom Jesus. E deu resultado, pois até hoje o Santo Antônio da Boiada segue “preso”, agora na Catedral Metropolitana.

Luta de classes

Antônio Carlos vê na história/lenda um exemplo de como os mais poderosos impunham sua vontade sobre os mais fracos já naquela época.

“Santo Antônio virou propriedade do lado lado lá (margem direita). Quando é criada a ‘Cidade dos Ricos’, que não tinha padroeiro, eles levaram o santo. A religiosidade estava do lado de cá do rio, e foi levada à força. Os fazendeiros do Morro da Boiada, os Dias Tostes, passam a se transferir para lá quando o Halfeld abre a Rua Direita”, explica.

“Eles levam a riqueza, mas não tinham a manifestação do sagrado e decidiram levar o santo para o lado de lá, mas o pessoal que estava do lado de cá desde 1741 e que permaneceu não queria ceder seu santo. Isso é luta de classes. Essa luta foi tão forte que veio o acobertamento da história do Morro da Boiada por parte dos ricos. Essa história não pode ficar no campo do lendário. É uma saga poderosa de fundação, que conta que Juiz de Fora tinha um arraial mineiro ainda no século XVIII”, acrescenta.

Lendas à parte, o certo é que a imagem continua em seu nicho, e até onde se sabe nunca mais deu um rolê solitário – ou com a ajuda de desconhecidos – pelas agora movimentadas ruas juiz-foranas.

Outro documento histórico do mesmo período apresenta os registros dos enterros ocorridos no cemitério do Morro da Boiada

Mas será o original?

A saga de Santo Antônio em Juiz de Fora ainda tem mais uma história ou polêmica a ser contada. Até onde se sabe da história, a imagem que se encontra na Catedral Metropolitana seria a mesma adquirida por Antônio Vidal, diretamente de Portugal, para sua capela lá no século XVIII. Porém, há suspeitas de que a imagem celebrada pelos fiéis há mais de 150 anos poderia ser outra.

“O santo na capela não seria o ‘Santo Fujão’ original. Uma das pistas é que a imagem não tem características das peças setecentistas, e há pelo menos um relato, de uma senhora que faleceu aos 112 anos, de que o Santo Antônio original teria sido levado para a capela dedicada a ele em Simão Pereira, que foi destruída por um incêndio. Mas é preciso fazer uma pesquisa aprofundada, pois é muito difícil encontrar documentos da época para confirmar essa hipótese”, diz Antônio Carlos, que suscita a dúvida em sua dissertação de mestrado.

Ainda sobre a imagem “custodiada e vigiada” na Catedral Metropolitana, a pesquisa destaca que “é uma imagem de madeira, com aproximadamente um metro de altura, esculpida como se vestisse o tradicional hábito marrom da ordem franciscana (…) É uma linda peça do artesanato santoral que até o presente momento, de forma documentada, não é possível dizer nada sobre sua procedência. O que podemos adiantar é que as evidências apontam no sentido de que ela não seja a imagem que pertenceu ao antigo comerciante e fazendeiro Antônio Vidal (…) mais provável que ela tenha mais relação com outro fazendeiro, o tenente Dias Tostes, entretanto, para dar corpo a esta afirmação serão necessárias mais algumas pesquisas.”

Importância do santo

Para Antônio Carlos Lemos Ferreira, a figura de Santo Antônio certamente vem perpassando a história de Juiz de Fora, e isso desde a passagem dos bandeirantes por aqui. “Um Antônio vai perpassando o outro e perpetuando o santo até termos o que temos hoje”, defende. “Ele é fundamental para a trajetória da cidade. É em torno dele que a elite citadina daquele momento se junta pra fundar Juiz de Fora, que era secularizada mas não tinha um santo, a ponto de fundar uma igreja e não ter um santo, que eles tomam do outro lado da cidade. E em todos os outros lugares os ‘santos fujões’ ficaram onde estão porque quiseram. Aqui em Juiz de Fora o santo não ficou onde ele ‘quis’. A cidade é secularizada a esse ponto, alterou uma tradição santoral por força da elite juiz-forana.”

Ao lembrar dessa luta entre o povo e uma elite de quase dois séculos atrás, o professor vê nessa discussão uma janela de possibilidades. “Essa Juiz de Fora que está nascendo agora, depois do declínio de todos os coronéis da cidade, tem a possibilidade de incluir mais pessoas e diminuir a distância entre pobres e ricos, pretos e brancos. Juiz de Fora tem que usar esse pioneirismo para iniciar uma política nova de inclusão”, defende.

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