‘Você não dorme à noite’: moradores da Zona Leste convivem com impactos das chuvas em Juiz de Fora

Moradores do Bairro Alto Grajaú enfrentam falta de energia elétrica e de abastecimento de água, enquanto convivem com o risco de novos deslizamentos 


Por Nayara Zanetti e Pâmela Costa

11/03/2026 às 06h00

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(Foto: Leonardo Costa)

“Você não dorme à noite. Ontem mesmo choveu e todo mundo ficou tenso”, relata Cristina Oliveira, 60 anos, moradora há quatro décadas do Bairro Alto Grajaú. “Parece que descartaram a gente do mapa”, acrescenta. Sem água, energia elétrica e internet, e cercados por encostas já marcadas por deslizamentos de terra, moradores da região Leste de Juiz de Fora relatam à Tribuna o sentimento de desamparo diante da situação atual e o medo de um futuro ainda incerto. 

Quando os primeiros barrancos do bairro caíram, na noite do dia 23 de fevereiro, Cristina estava em casa. “A gente viu a casa desmoronando lá de cima e caindo aqui embaixo, onde tinha mais uma casa”, relembra ao contar que testemunhou vizinhos, que conhecia de uma vida inteira, perderem tudo. Na sequência de estragos, dois postes caíram dentro da casa de outra vizinha. 

A proprietária da residência ficou desesperada, ela conta. “Não sabia se lavava a garagem ou se gritava por socorro. Ela ficou sem ação”. Embora a casa de Cristina não tenha sido uma das interditadas pela Defesa Civil, ela desabafa que isso não garante que seja possível dormir à noite.“A única assistência que tivemos foi da Defesa Civil, que falou que a casa não tem perigo. Mas se você olhar lá para baixo, fica apavorada. Quem guarda a gente é Deus”, diz a moradora, acrescentando que o sentimento de fragilidade  se assemelha a “voltar a ser criança”. O clima descrito como de “terror” pela moradora toma conta da região, principalmente à noite, quando a população que está sem energia fica totalmente no escuro. 

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(Foto: Leonardo Costa)

De acordo com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), somente no bairro vizinho, Grajaú, 11 imóveis permanecem sem fornecimento de energia em uma situação que já perdura há 16 dias. A empresa justifica que a situação é causada devido ao acúmulo de terra, possibilidade de novos deslizamentos e a interdição de acessos. Em nota, a pasta também informou que mantém contato com a Defesa Civil, a fim de atuar no local após a liberação dos acessos. A Cemig não informou sobre a situação no Bairro Alto Grajaú. 

A falta de serviços essenciais enfrentada pelos moradores da Rua Alvina de Araújo Alves vai desde a interrupção do fornecimento de energia elétrica ao abastecimento de água, como aponta Cristina sobre a situação de vários vizinhos. No caso dela, não há energia, mas ainda resta um pouco de água e isso se deve somente ao tamanho do reservatório da sua caixa d’água, que está sendo racionada. 

“Se a gente lava roupa, depois não toma banho, não faz comida, porque não tem água suficiente”, explica a moradora. No local, outras casas que não podem contar com uma reserva de água como a dela, já enfrentam a escassez. Questionada sobre a interrupção do abastecimento no Bairro, a Defesa Civil informou que, no local, ainda há vias obstruídas por conta de deslizamentos de terra e, no momento, esses barrancos ainda não estão secos o que torna inviável adentrar em todas essas regiões para fazer levantamentos consolidados sobre a atual situação do bairro e de suas encostas.

Quanto ao fornecimento de água, a situação é semelhante à acenada pela Cemig, como reitera a Prefeitura de Juiz de Fora em nota. “Também por isso, a Cesama aguarda um parecer técnico de segurança para moradores e servidores no local, para que seja possível realizar o reabastecimento da região”. 

Moradores enfrentam desafios também para locomoção

A reportagem também conversou com Daniele Sanchez, 46 anos, que constrói uma casa no Alto Grajaú. Com a situação das ruas e das encostas após os deslizamentos, ela relata dificuldades até para receber materiais de construção no local. O serviço de  transporte público foi impactado.

Embora Daniele relate preocupação com a situação, ela ressalta que o maior desafio é para quem já reside no bairro, como Raquel Tamires, 38 anos, com quem a Tribuna também conversou. Moradora da Rua Munir Simão Sfeir, ela conta sobre a mobilidade urbana reduzida que agora a faz caminhar trajetos maiores até conseguir chegar a um ponto de ônibus. Isto porque após os deslizamentos de terra, a circulação de ônibus foi limitada aos trechos onde ainda há condições de passagem.

Não são apenas as longas distâncias que Raquel enfrenta. Nos fundos de sua residência havia uma casa onde moravam sua prima e sua tia. Com as chuvas, um barranco cedeu e atingiu o local, obrigando as duas a deixarem o imóvel. Apesar da casa de Raquel, localizada mais à frente não ter sido interditada pela Defesa Civil, que informou que, mesmo em caso de novo deslizamento, o imóvel não seria atingido, o medo permanece quando chove. No local, Raquel mora com o filho, de 17 anos.

“No dia em que eu trabalho à noite, ele não fica em casa, por causa da preocupação”, conta a mãe. A casa dela ainda está sem internet. Antes, também ficou sem luz e água, mas ela explica, com alívio, que após dois dias os dois serviços foram restabelecidos. O relato dela, assim como o de outros moradores que vivem em áreas de risco ou próximas a barrancos, é de medo constante.

Raquel diz que há vizinhos que decidiram ir embora, mas os que permanecem já não conseguem mais dormir quando chove.  Além dos transtornos com serviços básicos e mobilidade, os impactos também atingiram a rotina de estudantes da região. A Escola Municipal Murilo Mendes permanece interditada após os deslizamentos registrados no bairro, e as atividades presenciais foram suspensas por questões de segurança. 

 

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