Combate ao Aedes exige ações individuais e públicas


Por KELLY DINIZ

10/12/2015 às 07h00- Atualizada 10/12/2015 às 08h13

5668b39df26b2
5668b39e2fe4c

Uma tripla epidemia bate à nossa porta. Bate não, entra sem pedir licença. O inimigo está bem perto, dentro das nossas casas. Nos nossos vasos de flores, nos objetos esquecidos no quintal, expostos à chuva, na vasilha do cachorro que deixamos para lavar depois, no latão que não tampamos e na piscina que não tratamos. Ele é silencioso e, na maioria das vezes, nem notamos sua presença. Tão distraídos que estamos com nossas preocupações diárias que deixamos de fazer a nossa parte e, aos poucos, vamos perdendo a luta. O resultado é a exposição das pessoas a doenças graves, que, muitas vezes, levam à morte.

Os dados revelam que é preciso uma força-tarefa por parte da população e das autoridades para combater o Aedes aegypti em Juiz de Fora. Somente neste ano, foram 4.344 pessoas infectadas com a dengue, o que representa 789 casos por cem mil habitantes. O Ministério da Saúde considera que municípios com incidência superior a 300 casos por cem mil habitantes estejam em situação de alta transmissão da doença. O número de casos é quatro vezes maior que no ano passado, quando houve 824 confirmações da doença.

O mosquito continua atacando, só que agora a ameaça é maior, pois ele também é o transmissor da febre chikungunya e do zika vírus. “São três doenças sérias, que podem gerar complicações e são consideradas emergenciais em saúde pública”, alerta o infectologista Rodrigo Daniel de Souza. O vetor transmite ainda a febre amarela.

Conforme o promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros, a cidade não está preparada para combater o mosquito, que se prolifera com maior rapidez no verão. “Precisamos de 360 profissionais e só temos 160, isso acarreta um percentual de imóveis vistoriados reduzido. Estamos muito preocupados com a situação. Agora, temos não somente a dengue, mas também a febre chikungunya e o zika vírus. Estamos vendo os efeitos assustadores ocasionados pelo zika vírus no Nordeste, principalmente com as gestantes. Há uma necessidade de medidas sérias para combater o mosquito vetor, e isso depende do reforço na quantidade de agentes.” Conforme o promotor, possivelmente será ajuizada uma ação civil pública contra o Município. “A Administração já disse que não tem como contratar mais agentes, mas temos que cobrar que ela cumpra com a obrigação de vistoriar 100% dos imóveis, o que não está acontecendo.”

Mobilização

A Superintendência Regional de Saúde lança hoje a campanha “10 minutos contra a dengue”, focada na mobilização social para controle do vetor. “A dengue só vai ser combatida se houver a ação individual. As pessoas precisam combater o foco dentro de casa”, enfatizou o superintendente Regional de Saúde, Oleg Abramov. Segundo ele, Juiz de Fora será um dos municípios que terá uma unidade sentinela, que irá obter os dados e monitorar os casos de microcefalia na região. “Estamos avaliando os estabelecimentos de saúde para selecionar um e pactuar com a unidade.”

A chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria de Saúde da Prefeitura, Michele Freitas, afirma que os trabalhos dos agentes em campo são realizados durante todo o ano. “Os agentes estão realizando as visitas domiciliares e eliminando os focos encontrados. Quando é identificado um caso da doença, é realizado o bloqueio de transmissão. Também estamos atendendo as denúncias e realizando o tratamento nos pontos estratégicos, como borracharias e cemitérios. Em Juiz de Fora, são 223 pontos estratégicos vistoriados a cada 15 dias. Em locais onde os agentes identificam grande quantidade de lixo, são realizados mutirões. Temos ainda o trabalho da equipe de educação que atende escolas e empresas, conscientizando por meio de palestras e teatro.”

No dia 12 de dezembro, será realizado o Dia D de Combate à Dengue. Segundo Michele, a ação será realizada na praça CEU, em Benfica, Zona Norte. Algumas equipes também estarão em praças de outras regiões da cidade para ampliar a conscientização da população. A Prefeitura também está criando um comitê intersetorial de combate ao vetor, que está em fase de formação.

Repelente para grávidas

Brasília (ABr) – O ministro da Saúde, Marcelo Castro, disse que está em negociação com o Exército a produção de repelente para distribuição às grávidas. “Nós estamos em contato com o laboratório do Exército, que fabrica normalmente esses repelentes para suas tropas..” O ministro reforçou a necessidade de estas mulheres, além de usarem repelente, priorizem roupas que deixam o corpo encoberto. Castro informou que os repelentes serão distribuídos para grávidas de todo o país, com exceção do Rio Grande do Sul, onde o vírus zika ainda não circula.

‘População suscetível ao zika vírus’

Onze casos de microcefalia já foram notificados em Minas Gerais, desde o dia 11 de novembro, quando o Ministério da Saúde tornou obrigatória a comunicação da doença, após confirmar a relação entre o zika vírus e o surto de microcefalia no país. Os casos em investigação foram notificados nas seguintes cidades: um em Uberlândia, dois em Contagem, um em Congonhas, três em Belo Horizonte, dois em Montes Claros, um em Ponte Nova e um em Curvelo. No caso da febre chikungunya, foram cinco confirmações no estado – sendo um em Viçosa, além de outros seis estão em investigação. Em Juiz de Fora, ainda não houve identificação desses vírus, mas, conforme o infectologista Rodrigo Daniel de Souza, ele pode chegar rapidamente devido ao fluxo de pessoas entre as regiões. “Se o mosquito não for controlado e o vírus chegar, será um caos. A população é altamente suscetível a esses vírus, já que ninguém teve o contato com ele para desenvolver resistência.”

A maior preocupação das autoridades quanto ao zika vírus é em relação às gestantes. O infectologista explica que há outras causas para a microcefalia, que, se identificada durante a gestação, é possível tratar para que o bebê não nasça com a doença. No entanto, quando a má formação é causada pelo zika vírus, não há tratamento. “Depois que a grávida pega o vírus, não tem mais o que fazer para evitar complicações.”

Os pesquisadores também estão estudando uma possível ligação entre o zika vírus e a síndrome de Guillain-Barré. “Essa doença pode causar paralisia ascendente, de baixo para cima. Começa na ponta do pé e sobe, podendo chegar aos pulmões, provocando paralisia respiratória e a morte do indivíduo”, explica o médico. Assim como nos casos de microcefalia, houve um aumento – em proporções menores – no número de pessoas com a síndrome.

Sintomas

O especialista explica que é muito difícil o próprio doente diferenciar a dengue, a febre chikungunya e o zika vírus, pois os sintomas são muito semelhantes (ver quadro). Ele ressalta a importância de o paciente procurar uma unidade de saúde ao ter uma febre aguda repentina. “O médico precisa verificar se há sinais de alarme ou de gravidade, como tontura, vômitos persistentes e dor abdominal. Se houver, o paciente precisa ficar, pelo menos, 48 horas em observação. Por exemplo, a forma hemorrágica da dengue nem sempre vem acompanhada de extravasamento de sangue. O exame clínico que irá identificar.” O infectologista destaca ainda a importância do combate ao vetor. “O que acontece é que as pessoas delegam o combate ao mosquito ao serviço público. O que é um grande erro. O serviço público não tem condições de controlar o mosquito. É preciso que cada pessoa faça a sua parte. Se a pessoa gastar dez minutos por semana para limpar os reservatórios, já quebra o ciclo de vida do mosquito (ver quadro).”