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Tiroteio perto de escola no Santa Efigênia causa pânico

Pelo menos 19 disparos foram realizados durante confronto entre rivais no fim da tarde; PM reforçou a segurança na área e colégio alterou rotina, liberando alunos do turno da tarde mais cedo nos dois últimos dias

Por Sandra Zanella

08/11/2018 às 07h00

Santa-Efigênia-Tiroteio
Disparos foram ouvidos durante dois minutos na última segunda-feira (5) na Rua Heitor Inácio (Foto: Olavo Prazeres)

Dezenove tiros. Todos disparados em uma mesma rua no fim da tarde do primeiro dia útil do horário de verão. Aqueles 120 segundos de “guerra” entre desafetos foram intermináveis para moradores e comerciantes do Bairro Santa Efigênia, na Zona Sul de Juiz de Fora. Por volta das 18h da última segunda-feira (7), a população foi surpreendida por um confronto armado, supostamente ligado a disputas entre gangues por pontos de drogas, próximo à padaria da Rua Heitor Inácio, uma das principais vias do bairro. Acuadas, crianças que saíam da Escola Municipal Doutor Antonino Lessa precisaram correr para tentar se proteger das balas. Estas não eram nada doces e poderiam ter causado uma tragédia. Felizmente não houve feridos, mas o medo de uma nova troca de tiros tomou conta da rotina de quem mora ou trabalha por ali. Desde a data, a Polícia Militar reforçou o policiamento naquela área, principalmente nos horários de entrada e saída do colégio. A violência alterou a rotina na escola, que precisou liberar os alunos do turno da tarde mais cedo na terça e na quarta-feira diante da insegurança na área.

Todas as pessoas ouvidas pela Tribuna tiveram receio de se identificar por temer represálias, mas detalharam como tem sido viver em meio à violência iminente. “Foram quase dois minutos de tiro e fiquei apavorada porque, naquele exato momento, minha sobrinha tinha saído para buscar a filha dela no colégio. Nesse horário, a maioria das pessoas está na rua, o comércio está funcionando e sai o pãozinho fresco da padaria. Cheguei a vê-los passando com as armas nas mãos, sem qualquer preocupação. Foi bala para tudo quanto é lado. Não queriam nem saber se tinha idoso ou criança passando”, desabafou uma moradora de 47 anos. De acordo com a PM, um dos disparos atingiu o veículo do proprietário da padaria, 49.

Para um jovem morador de 23 anos, a situação foi “absurda”. “Já há alguns meses estamos tendo situações muito difíceis de troca de tiros entre bandidos da região. Segunda-feira foram dois minutos de intenso tiroteio em frente ao ponto principal de comércio do bairro, próximo à escola. As crianças que estavam saindo do colégio correram desesperadas pelo meio da rua.”

Uma comerciante, 38, foi surpreendida pelo fogo cruzado quando encerrava o funcionamento de sua loja. “Bem na hora em que eu estava fechando, eles começaram a atirar. Fizeram vários disparos, e os vi de costas, atirando sem parar. Não sei como não pegou em ninguém e em nenhuma criança, porque várias estavam na porta da escola e precisaram sair correndo.” Segundo ela, esta não foi a primeira vez em que tiros foram disparados em via pública, assustando a população. “Já teve outras épocas de descerem com arma na mão por volta das 13h próximo à escola. Se veem alguém que está ‘devendo’ a eles ou que é de outro bairro, mandam bala mesmo. Não estão nem aí se tem parentes deles por perto, idoso ou criança. Sacam a arma e atiram. São extremamente violentos. Quando a polícia passa, se escondem em matagal ou em construções vazias.”

De acordo com ela, os envolvidos nas trocas de tiros “são sempre os mesmos”. “A violência aqui está muito grande. Quando vemos eles passando muito na rua já sabemos que algo de ruim vai acontecer. Dizem que agora estão brigando entre eles. Graças a Deus até agora não morreu ninguém inocente, mas se continuar assim, não vai demorar muito. O bairro está muito perigoso, inclusive para as crianças que estudam na Antonino Lessa.”

Já o jovem acredita que, apesar do policiamento preventivo e repressivo realizado pela PM, falta trabalho de investigação por parte da Polícia Civil, com cumprimentos de mandados de busca e apreensão e de prisão. “É muito tiro, de verdade. Você não consegue acreditar que esses meninos têm esse poder de fogo nas mãos e ninguém faz nada.”

“Não sei como não pegou em ninguém e em nenhuma criança, porque várias estavam na porta da escola e precisaram sair correndo”

Comerciante, 38 anos, surpreendida pelo fogo cruzado na segunda-feira (5)

‘A gente não sabe para onde vai correr’

Moradores do Santa Efigênia afirmam que o tiroteio de segunda-feira (5) não foi o primeiro caso de disparos em via pública. Uma aposentada de 57 anos disse que, desta vez, por pouco, não estava na rua no momento da troca de tiros, já que, naquele horário, costuma ir à padaria. “Nós não temos segurança. Já houve outros (tiroteios), inclusive com vítimas. Um dia eu chegava com minha filha por volta de meio-dia, e houve tiros em plena luz do dia. A gente não sabe para onde vai correr e, de repente, pode levar um tiro sem ter nada a ver com isso. Confesso que tenho medo de sair na rua e, quando saio, olho para um lado e para o outro. Está difícil conviver com essa violência ao nosso redor.”

Para ela, falta mais policiamento, tanto com a presença da PM, quanto da Polícia Civil. “As nossas autoridades não fazem nada no meu ponto de vista. Eu sou uma cidadã que pago meus impostos. Tenho uma vida digna e fico à mercê dessa situação.”

A moradora de 47 anos que temeu pela vida de sua sobrinha na última ocorrência também relatou outros casos: “Não foi a primeira, já presenciei várias vezes. Em uma delas invadiram a escola atirando, com crianças na quadra, e mandaram elas saírem. Correram apavoradas. Quando passava carro de outro bairro também atiravam, sem medo de serem identificados. Andam com as armas nas mãos e não estão nem aí. Encaram sem receio, e a gente é que tem que se prevenir.”

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“Você não consegue acreditar que esses meninos têm esse poder de fogo nas mãos e ninguém faz nada”

Jovem, 28 anos, morador do bairro

Ela mesma costuma acionar a polícia quando vê os suspeitos armados. “As viaturas vêm, mas, quando chegam, eles (criminosos) já conseguiram fugir do local. Estão dando assistência do jeito que podem, no entanto, não estamos nos sentindo seguros. Eles mesmos não estão presos, quem está preso é a gente, porque ficamos dentro de casa com medo de sair na rua.”

Moradora do Jardim Gaúcho e comerciante do Santa Efigênia há 20 anos, uma mulher, 50, não presenciou o tiroteio de segunda, mas diz estar “incomodada” com a situação. “Acredito que Deus está protegendo a gente, mas fiquei bem mais tranquila de ver as viaturas rodando aqui. Tenho filhos, e, andar na rua depois das 20h, nem pensar. Quando saímos da igreja mais tarde também não vamos embora sozinhas, porque uma amiga nossa foi assaltada com arma na cabeça e ficou traumatizada.”

Quatro jovens são identificados como suspeitos

Quatro jovens, com idades entre 18 e 22 anos, foram identificados pela Polícia Militar como suspeitos de envolvimento no tiroteio que levou pânico à população do Santa Efigênia na última segunda-feira (5). Por enquanto, nenhum deles foi preso. Segundo informações do boletim de ocorrência, um dos supostos atiradores é morador do próprio bairro e os outros três são residentes do vizinho Jardim Gaúcho. A motivação do confronto não foi totalmente esclarecida, mas a PM registrou o fato como “disputas entre gangues por pontos de venda de drogas” e acrescentou que os envolvidos são “amplamente conhecidos no meio policial por retaliações referentes à disputa pelo tráfico de drogas naquela região, bem como por confrontos entre gangues”.

Um dos policiais responsáveis pelo policiamento e prevenção da criminalidade naquela área, tenente Gilmar da Silva, ponderou que os envolvidos “têm rivalidade pessoal” e que “a droga com certeza é o pivô disso tudo”. Ele reforçou que os suspeitos “são marginais conhecidos na região, que praticam crimes continuamente”, incluindo homicídios, roubos e tráfico de drogas. “Estamos trabalhando as informações que têm chegado por meio dos moradores, e o serviço de inteligência está averiguando. Estamos fazendo de tudo para colocar essas pessoas na cadeia, contando com a comunidade de bem, que é a maioria.”

O tenente Gilmar destacou que a população pode continuar contribuindo com denúncias anônimas, principalmente por meio do número 181, do Disque-Denúncia Unificado (DDU). “Já estamos com algumas informações bem condensadas para solicitarmos mandados de busca e apreensão e de prisão para essas pessoas”, revelou o militar. Segundo ele, apesar do clamor da população, os casos de tiroteio em via pública não seriam frequentes naquela região. “Pelo menos a informação não chegou à PM. Precisamos registrar os fatos”, alertou.

“A PM vai continuar no local para manter a paz social e dar uma resposta à sociedade”

Tenente Gilmar da Silva, um dos responsáveis pelo policiamento e prevenção da criminalidade na região

O militar disse que a corporação está fazendo o que é de sua competência e está atenta para fazer o intercâmbio com outros órgãos, a fim de manter a tranquilidade no bairro. “A PM está trabalhando na prevenção, com operações presença, e na repressão, com batidas policiais. Também estamos intensificando o patrulhamento escolar para dar suporte melhor ao local e para manter a normalidade das aulas. Ainda vamos fazer contato com a direção da escola, mas, com certeza, a PM vai continuar no local para manter a paz social e dar uma resposta à sociedade”, concluiu o tenente.

Já o delegado de Homicídios responsável pelos crimes da Zona Sul, Armando Avolio Neto, informou que criminosos atuantes nos bairros Jardim Gaúcho, Santa Efigênia, Sagrado Coração e Vale Verde estão sendo investigados. “Estamos fazendo um levantamento dos últimos homicídios nessa região e levantando todos os membros dos grupos de cada bairro. Vamos representar pela prisão cautelar deles para retirá-los de circulação, como fazemos nos locais mais problemáticos. Essa tem sido nossa prioridade no momento.”

Aulas afetadas
De acordo com a assessoria da Secretaria de Educação, a direção da Escola Municipal Doutor Antonino Lessa comunicou ao órgão sobre o tiroteio na última segunda-feira. Diante da insegurança, a pasta fez contato com a Polícia Militar, e os alunos foram liberados 45 minutos mais cedo na terça e na quarta-feira. As aulas encerram-se normalmente às 18h15, e os estudantes saíram às 17h30. Segundo a assessoria, haverá reposição deste período perdido. Nos próximos dias, a direção do colégio estará atenta às movimentações do entorno para definir que providências serão tomadas.

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