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Lugar de mulher é no ringue


Por Bruno Kaehler

08/04/2017 às 07h00

Carla Almeida e Fernanda Caetano vão disputar o cinturão nas categorias até 75kg e até 61kg, respectivamente (Foto: Olavo Prazeres)
Carla Almeida e Fernanda Caetano vão disputar o cinturão nas categorias até 75kg e até 61kg, respectivamente (Foto: Olavo Prazeres)

Lugar de mulher é no ringue, no octógono, onde quiser. A frente é a tônica de evento de muay thai hoje, em Três Rios, com participação de lutadoras locais. Trata-se do TR Fight Girls, torneio exclusivamente feminino, em sua segunda edição, realizado no Independência Clube, no município fluminense, com início às 19h. Ao todo, 17 lutas integram o card oficial, com três disputas de cinturão, além da participação de mais de dez juiz-foranas, com algumas protagonizando, inclusive, as principais disputas do evento.

Organizadora do TR Fight Girls, Nicole Janoto explica que ela é responsável pelo TR Fight misto há 9 anos. “Ano passado, planejei o evento de lutas só femininas, pois as mulheres precisam desse espaço e serem valorizadas, até porque cresceu muito o número de mulheres praticando artes marciais e lutando. As mulheres formam um grande mercado consumidor em todos os setores, então temos que organizar eventos só femininos para as mulheres participarem e, principalmente, assistirem também. Infelizmente, ainda há muito preconceito, mas estamos quebrando barreiras. Em meu evento as mulheres são as estrelas, e não coadjuvantes.”

Exemplos de protagonismo na noite de hoje são as lutadoras locais Carla Almeida (Low Kick JF Gym), 32 anos, e Laís Fiona (Chakuriki), 19, que se enfrentam no embate principal, disputando o cinturão da categoria até 75kg, além de Fernanda Caetano (Jason Team/BCT), 29, que tem a carioca Aimée Mariano como adversária pelo cinturão da faixa de até 61kg. As três conversaram com a Tribuna e relataram sua paixão pela luta e dificuldades em função de preconceitos na prática do muay thai.

Carla é a mais experiente do trio. Há quase 15 anos na modalidade, ela vivenciou o crescimento do espaço da mulher nas academias. “Sempre gostei de luta, e depois que comecei a fazer muay thai, a paixão aumentou ainda mais. Antigamente quase não tinha mulher nas lutas. Agora, a mulherada tá dentro e lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive praticando o muay thai”, relembra, emendando com elogios ao evento exclusivo para as atletas. “Aqui em Juiz de Fora ainda não tem um evento como este. Ano passado também participei dele, ganhei minha luta e fui novamente convidada. Agora pretendo vencer mais uma vez. Venho treinando para isso. Que venham mais eventos”, afirma.

‘O bicho vai pegar’

A paixão de Fernanda pelo que faz não é diferente. Praticante do muay thai há cinco anos, a instrutora de autoescola iniciou no esporte para perder peso. “Estava gordinha e queria emagrecer. Mas fui levando jeito para o muay thai, meu professor foi gostando, até fazer minha primeira luta, quando já tinha perdido muito peso. Sempre gostei de esporte e me adaptei muito bem à luta”, explica a lutadora.

“É um evento feminino que juntou muitas mulheres corajosas e me ofereceram a disputa de cinturão, que aceitei. O bicho vai pegar, minha adversária é boa, rápida, mas estou treinando bastante e vai dar tudo certo”, projeta o encontro com Aimée. O brilho nos olhos, contudo, não esconde as dificuldades vivenciadas diariamente. “Tem que gostar, porque quase ninguém valoriza as atletas. O dinheiro que recebemos não costuma pagar nem nossa alimentação. Ninguém patrocina. Por isso, trabalho o dia todo, e treino no horário de almoço e após o trabalho. Faço de dois a três treinamentos por dia, fora as corridas”, expõe.

Batalha incansável contra o preconceito

 Guerreira dentro e fora dos ringues, Fiona é secretária e ainda corta cana nos finais de semana para ajudar no orçamento familiar (Foto: Olavo Prazeres)
Guerreira dentro e fora dos ringues, Fiona é secretária e ainda corta cana nos finais de semana para ajudar no orçamento familiar (Foto: Olavo Prazeres)

Secretária, Laís Fiona trabalha, treina e até corta cana em Piau, auxiliando familiares. Há três anos no muay thai, disputando competições há apenas um, ela já superou desafios dramáticos em busca de um sonho. “Trabalho na roça desde criança, corto cana. Eu pesava 105kg e não gostava de malhar ou correr na esteira. Comecei a treinar para emagrecer, o tempo foi passando e eu me apaixonando. Tentei de tudo e nada, tive até que desidratar na minha primeira luta, nesse evento mesmo. Fiquei muito fraca. E depois disso consegui meu primeiro patrocínio com uma nutricionista. Quando ela entrou na minha vida, perdi 30kg no total, junto do trabalho na Chakuriki, que tem uma visão diferenciada. Esse esporte para mim não é um hobby, mas meu sonho. Quero isso para minha vida, com a Chakuriki, que envolve karatê, muay thai, kickboxing. Sou completamente apaixonada pelo que faço e qualquer pessoa que parar na minha frente vou lutar até o final para tirar ela do meu caminho.”

Em comum, o trio sofre, até hoje, o preconceito pelo seu espaço nas lutas. Entre as situações já passadas, Fiona descreve uma comum. “Até em seminários, quando você vai fazer par, um homem procura outra pessoa só por você ser mulher. Mas aqui na academia é diferente, todos me conhecem e sabem o quanto sou dedicada. Faço de tudo para acabar com esse preconceito.”