Casas ‘gêmeas’ tombadas no Granbery são arrematadas em leilão judicial por R$ 1,8 mi

Empresa, que também adquiriu o campo de futebol da Rede Metodista, deve manter acervo da história granberyense por, no mínimo, um ano


Por Sandra Zanella

03/07/2025 às 18h18- Atualizada 03/07/2025 às 18h28

casas gêmeas Granbery
Casas “gêmeas” do Granbery foram arrematadas em leilão judicial por quase R$ 2 milhões (Foto: Felipe Couri)

Duas casas aparentemente gêmeas e tombadas como patrimônio histórico e cultural de Juiz de Fora foram vendidas nesta semana por R$ 1,86 milhão em novo leilão da Rede Metodista de Educação, dentro do processo de recuperação judicial que corre no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS). Os casarões antigos ficam na Rua Batista de Oliveira, 1.152, em frente ao prédio principal do antigo Colégio Granbery. Os imóveis abrigam a sede da Associação dos Granberyenses e o Museu do Granbery, com acervo da centenária instituição de ensino. As casas foram arrematadas pelo valor do lance inicial por um grupo que inclui a Soip Negócios Imobiliários Ltda. Em abril deste ano, a mesma empresa comprou uma área de 13 mil metros quadrados do Centro de Educação Física e Esporte (Cefe) por R$ 18 milhões, após o tombamento do espaço, ocorrido em meio a embates entre a especulação imobiliária e a preservação do patrimônio, que contou com abaixo-assinado.

De acordo com informações da assessoria do TJRS, a arrematação das casas gêmeas aconteceu na última segunda-feira (30) em leilão na modalidade stalking horse – quando a empresa em insolvência escolhe quem fará a primeira oferta, para que os demais possíveis compradores não possam ofertar valores abaixo. O pagamento do montante de quase R$ 2 milhões deverá ser feito em três vezes, com correção monetária. “A venda foi dos direitos a serem concretizados, porque a propriedade está em fase de retorno para o grupo Metodista”, esclareceu o Tribunal. “O arrematante manterá no seu interior o acervo da história granberyense, pelo período mínimo garantido de um ano, sem prejuízo de prorrogar por mais tempo”, acrescentou.

De acordo com a presidência da Associação dos Granberyenses, oficialmente, não há informação homologada sobre esse assunto. “A Associação dos Granberyenses foi fundada em 14 de novembro de 1922 pelo então reitor Walter H. Moore e sua sede se encontra nesse endereço desde 2004.” A entidade reúne ex-alunos, atletas, colaboradores e amigos do Instituto Metodista Granbery.

Tombamento e projeto de revitalização do Granbery

A Funalfa confirmou à Tribuna que os dois imóveis arrematados em leilão são tombados. O decreto 7.472, de 25 de julho de 2002, leva em conta o valor histórico e cultural que envolve o bem; o pertencimento ao importante conjunto do Granbery; e que a edificação, de tendência eclética, guarda as características do estilo nos elementos construtivos e na ornamentação. Os objetos de preservação abrangem a volumetria construtiva e as fachadas dos imóveis. “Ficam sujeitos ao prévio exame e aprovação da Comissão Permanente Técnico Cultural todos os projetos relacionados com a área tombada.”

A Tribuna procurou a Soip Negócios Imobiliários Ltda. para comentar sobre as pretensões para o Centro Esportivo, adquirido anteriormente, e para as duas casas também tombadas. Em nota enviada pelo setor jurídico, a empresa apresentou um “projeto de revitalização do histórico Bairro Granbery”: “Nossa atuação vai muito além do desenvolvimento imobiliário – somos agentes de transformação social e preservação histórica”, afirma.

A Soip citou o processo de recuperação judicial da Rede Metodista – que corre no TJRS por conta de dívida da ordem de R$ 1,2 bilhão, a maioria de natureza trabalhista. A incorporadora também lembrou a negociação de R$ 61,5 milhões pela área de 17 mil metros de parte do complexo do centenário Colégio Granbery e do Cefe, adquiridos em maio do ano passado pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) para abrigar a Escola Sesi Granbery.

“Quando a instituição metodista enfrentou dificuldades financeiras e entrou em recuperação judicial, nossa relação se estreitou, e a Soip não apenas se prontificou a auxiliar no processo, mas desempenhou papel fundamental na continuidade educacional de Juiz de Fora. Promovemos o contato da metodista com o Sesi/Fiemg, apresentando o colégio, de modo a garantir a continuidade das atividades educacionais. Com isso, as vagas dos estudantes já matriculados e o programa de bolsas de estudos, característica essencial do legado Granbery, foram mantidos, evitando a descontinuidade de um patrimônio educacional centenário da cidade.”

Sobre o projeto de revitalização, a empresa afirma ter sido construído em conjunto com a comunidade, “conciliando o desenvolvimento urbano sustentável com preservação histórica e benefícios sociais concretos”. Afirma, ainda, ter compromisso com o meio ambiente, por meio da preservação do bosque, a construção de piscinas de contenção e sistema de drenagem moderno em resposta aos alagamentos recorrentes na esquina das ruas Sampaio e Batista de Oliveira, além de ampla praça pública com equipamento de uso coletivo, aberta à comunidade. “O meio ambiente histórico será preservado por meio da restauração do edifício Charles Long e sua transformação em peça central do novo espaço público, criando um marco da memória do colégio. Nosso projeto contempla integração social completa, haja vista que a área total adquirida é de 13 mil metros quadrados, e a área destinada ao empreendimento imobiliário é de apenas três mil metros quadrados, o que equivale a apenas 23% do total, restando 10 mil metros quadrados ou 77% para a comunidade.”

Espaço do campo de futebol terá quadras

Ainda conforme a Soip, o campo de futebol “receberá uma grande reforma, com a criação de novas quadras e instalações esportivas modernas, além da criação de espaços públicos dedicados ao esporte e lazer”.

Sobre o processo de aquisição das casas gêmeas, a empresa disse que foi transferido o acervo de forma integral para a Associação dos Granberyenses e sua permanência pelos próximos 12 meses. “A memória do Granbery foi totalmente protegida, já que garantimos a preservação do acervo histórico (…)  Estamos também em tratativas com a associação para a transferência desta casa para abrigar sua sede definitiva e o museu do Granbery. Nosso projeto de revitalização contempla também a restauração da segunda casa histórica, para abrigar um futuro restaurante, cafeteria ou outro comércio que valorize a região. Esta casa hoje está abandonada e em ruínas, colocando em risco todo o bairro.”

Como se tratam de bens tombados pelo patrimônio histórico, o projeto de construção proposto pela Soip na área entre as ruas Sampaio e Batista de Oliveira precisa de aprovação do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac). O mesmo entrou na pauta da reunião do dia 19 de maio, mas houve pedido de vistas. O assunto iria retornar à pauta em reunião extraordinária no dia 26 do mesmo mês, mas o encontro foi cancelado. Segundo a assessoria da Funalfa, o tema não foi tratado na reunião ordinária do dia 2 de junho e também não está previsto para ser discutido na próxima, agendada para segunda-feira. A Tribuna já questionou o Ministério Público sobre o assunto, mas não obteve retorno.

Confira na íntegra a nota da Soip

“Resposta Oficial da Soip sobre o Projeto de Revitalização do Bairro Granbery

A Missão no Granbery

A Soip, empresa consolidada na estruturação de negócios em âmbito nacional, tem orgulho de apresentar o nosso projeto de revitalização do histórico Bairro Granbery, em Juiz de Fora. Nossa atuação vai muito além do desenvolvimento imobiliário – somos agentes de transformação social e preservação histórica.

Histórico de Compromisso Social

Quando a instituição metodista enfrentou dificuldades financeiras e entrou em recuperação judicial, nossa relação se estreitou e a SOIP não apenas se prontificou a auxiliar no processo, mas desempenhou papel fundamental na continuidade educacional de Juiz de Fora. Promovemos o contato da metodista com o Sesi/Fiemg, apresentando o colégio, de modo a garantir a continuidade das atividades educacionais. Com isso, as vagas dos estudantes já matriculados e o programa de bolsas de estudos, característica essencial do legado Granbery foram mantidos, evitando a descontinuidade de um patrimônio educacional centenário da cidade.

Projeto de Revitalização: Inovação com Preservação

Nosso projeto de desenvolvimento foi construído em conjunto com a comunidade e é abrangente, conciliando o desenvolvimento urbano sustentável com preservação histórica e benefícios sociais concretos.

Infraestrutura e Meio Ambiente

Nós temos compromisso com o meio ambiente, se faz por meio da preservação do bosque para a comunidade, a construção de piscinas de contenção e sistema de drenagem moderno em resposta aos alagamentos recorrentes na esquina das ruas Sampaio e Batista de Oliveira, somando à criação de uma ampla praça pública com equipamento de uso coletivo, aberta à comunidade.

O meio ambiento histórico será preservado por meio da restauração do edifício Charles Long e sua transformação em peça central do novo espaço público, criando um marco da memória do colégio.

Compromisso com Espaços Públicos

Nosso projeto contempla integração social completa, haja vista que a área total adquirida é de 13.000 metros quadrados; e a área destinada ao empreendimento imobiliário é de apenas 3.000 metros quadrados, o que equivale a apenas 23% do total, restando 10.000 metros quadrados ou 77% para a comunidade.

Projeto Social Esportivo

O campo existente receberá uma grande reforma, com a criação de novas quadras e instalações esportivas modernas, além da criação de espaços públicos dedicados ao esporte e lazer, que por meio da parceria com a Associação G de Ouro será implementado um projeto social esportivo, democratizando o acesso ao esporte para crianças e jovens da região.

Preservação da Memória Granberyense

A memória do Granbery foi totalmente protegida, já que garantimos a preservação do acervo histórico do Colégio Granbery que está na casa da Associação dos Granberyenses, que antes estava destinado a leilão. No processo de aquisição das casas, transferimos o acervo de forma integral para a Associação dos Granberyenses, além de garantir sua permanência lá pelos próximos 12 meses. Estamos também em tratativas com a Associação para a transferência desta casa adquirida para abrigar sua sede definitiva e o museu do Granbery. Nosso projeto de revitalização contempla também a restauração da segunda casa histórica, para abrigar um futuro restaurante, cafeteria ou outro comércio que valorize a região. Esta casa hoje está abandonada e em ruínas, colocando em risco todo o bairro.

Impacto Social Positivo]

• Geração de empregos durante a construção e operação do empreendimento
• Valorização imobiliária da região beneficiando todos os moradores, haja vista a ampla
revitalização da área e impedimento de abandono.
• 77% da área total destinada exclusivamente ao uso público (10.000m² de
13.000m²)
• Criação de múltiplos espaços de convivência: praça, bosque e complexo esportivo
• Revitalização de áreas tombadas, evitando seu abandono e deterioração
• Fomento ao esporte e inclusão social através do projeto da Associação G de Ouro

Nosso Compromisso com a Comunidade

O que nos diferencia é o fato de termos granberyenses em nossa equipe, pessoas que viveram e amam este lugar. Isso nos motiva a ir além do desenvolvimento imobiliário convencional, criando um projeto que honra a história enquanto constrói um futuro próspero para a cidade.

Estamos em constante diálogo com a Associação dos Granberyenses, a Associação G de Ouro e demais stakeholders da comunidade, sempre priorizando a transparência e o benefício coletivo. A parceria com a G de Ouro para administração do projeto social esportivo demonstra nosso comprometimento em envolver as lideranças locais na gestão dos espaços comunitários.

Visão de Futuro

Nosso objetivo é demonstrar que é possível conciliar desenvolvimento econômico com responsabilidade social e preservação histórica. O projeto Granbery será um modelo de como espaços tombados podem ser revitalizados de forma sustentável, mantendo sua relevância na vida das pessoas e evitando o abandono que frequentemente acomete patrimônios históricos.

Estamos comprometidos em criar um legado positivo que beneficie não apenas os futuros moradores do empreendimento, mas toda a comunidade de Juiz de Fora, especialmente aqueles que têm vínculos afetivos com a rica história do Granbery.

A Soip mantém-se à disposição para esclarecimentos adicionais e convida a imprensa e a comunidade a acompanhar o desenvolvimento deste projeto transformador para Juiz de Fora.”

SOIP NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS LTDA