Moradores dos bairros Esplanada e Cerâmica lidam com incertezas e insegurança após chuvas
Ruas Nicolau Capelle e Mamed Camilo se transformaram em cenários de destruição após chuvas da última semana; risco de deslizamento já era sabido
Na divisa entre os bairros Cerâmica, Esplanada e Jardim São João, na Zona Norte de Juiz de Fora, há – mais um – cenário de destruição após as chuvas que atingiram a cidade na última semana. Na Rua Nicolau Capelle, uma água limpa jorra por entre os destroços de uma casa. Segundo os moradores é um registro estourado, o menor dos problemas percebidos entre frutas, sacos de arroz, molho de tomate e brinquedos de pelúcia espalhados entre tijolos e tomados pela poeira da lama ressecada. No local, seis pessoas teriam morrido após um desabamento.
Na rua mora Fernando Fonseca, há 12, de seus 62 anos de idade. Está fora de casa desde a última terça-feira (24) e relata que nunca ouviu falar de nada parecido. “A gente fica com muito medo, não pode ficar dentro de casa. Eu vim aqui hoje para ver como está a situação, e já falaram que passaram indivíduos por aqui com pé de cabra para tentar abrir as casas. Então, a insegurança é total, da casa, dos bens que a gente tem guardado lá.”
Além da falta de fiscalização, ele reclama da ausência de respostas sobre qual é sua real situação: “A gente fica inseguro, porque são tantas informações trocadas que chegam. Aí, a gente procura saber da veracidade, junto aos meios públicos, ninguém sabe dizer nada. Por exemplo, mandaram eu sair da minha casa, mas eu procurei saber qual é o risco iminente, se vou poder voltar para minha casa algum dia, quando vou poder voltar, se minha casa vai ser destruída, como eles falam…”
Fernando afirma que a sensação de ver a rua em que mora há tantos anos deserta, após ser evacuada, é “de impotência, de estar entregue a um futuro incerto”, como define. “Passei aqui anteontem, estava ventando, aí você só vê a poeira subindo, numa rua de asfalto. É muito triste, é um abandono. A gente sabe que tem muita gente sofrendo, precisando de ajuda, e que tem pessoas que estão até piores do que a gente, mas a gente também fica querendo uma atenção.”
‘Chore com vontade’
Já na rua de cima, Mamed Camilo, o que muda são os pertences espalhados nos escombros de mais uma casa que veio abaixo. Um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro tem as páginas rasgadas, mesclando times rivais. Um pôster dos Vingadores faz lembrar o cenário dos filmes após as lutas entre heróis e vilões. E uma almofada traz uma mensagem que, em outras épocas, já teve um significado bem diferente: “Chore com vontade”.
Ao lado, morava, há um ano, Luana Aparecida, 26 anos. Um dos homens que faziam sua mudança mora no Parque Burnier. Enquanto passa com eletrodomésticos pesados por cima de uma vacilante montanha de entulho, descarrega: “Todo lugar que você vai é essa cena.”
Luana tinha acabado de chegar do serviço quando as casas vizinhas desabaram, estava presa na enchente que atingiu o Bairro Mariano Procópio naquele dia. Saiu do serviço às 18h e chegou em casa às 21h. Tomou um banho, deitou-se e colocou a carne para descongelar. Às 21h40, a luz piscou, e o prédio tremeu. “Eu olhei da janela e os fios estavam pegando fogo”, relembra. “O pessoal descia na rua descalço, no meio daquela enxurrada barulhenta, e tudo escuro, não dava para saber o que estava acontecendo.”
Cerca de dez minutos depois, enquanto procurava, “desesperada”, por roupas e documentos para sair de casa, o prédio tremeu de novo e o barranco levou as duas casas ao lado. “Hoje faz uma semana que o entulho está na rua, a gente não consegue passar, quer tirar móvel, quem tem casa ainda não consegue. A gente vai ter que passar em cima de entulho. Eu estou grávida, vou ter que passar, correndo risco.”
Ela ainda não sabe onde vai morar. “Esse auxílio social para aluguel ainda não é uma certeza. É um absurdo a gente ter que tirar o FGTS do nosso bolso para reconstruir uma coisa que não foi a gente que causou. (…) Ainda tem o abuso que as imobiliárias estão fazendo pra quem está procurando agora. Lugar que pedia dois cauções está pedindo três, quatro. Lugar que era R$ 600, agora é R$ 800”, relata.

Risco de deslizamento nas ruas já era sabido
As ruas Nicolau Capelle e Mamed Camilo estão presentes no levantamento publicado pela Tribuna, no último sábado (28), que mostra que 47% das ruas evacuadas, até então, em Juiz de Fora, eram citadas em pedidos por segurança desde 2005.
Há oito requerimentos protocolados na Câmara Municipal de Juiz de Fora, em 2022 e 2023, solicitando a conclusão da construção do muro de contenção rip rap entre as duas ruas, “cujo pedido da comunidade para tal já foi encaminhado à Prefeitura desde setembro de 2020, sob risco iminente de desabamento de barranco sobre as casas, no que coloca em risco a vida, a segurança e o bem estar dos moradores”.
“O próprio Relatório de Vistoria emitido pela Defesa Civil é contundente em ressaltar a importância de se realizar a estabilização da encosta por meio de um muro de contenção, cuja medida deve ser imediata como forma de se evitar ainda mais tragédias na comunidade”, informam os documentos.
Uma das respostas da Prefeitura, em fevereiro de 2023, dizia: “se trata de obra de contenção de grande porte, que não é possível execução com a mão de obra da Secretaria de Obras. A Secretaria de Obras não possui, no momento, profissional habilitado para elaboração de projetos de contenção, bem como não possui disponibilidade orçamentária – financeira para execução de referida obra”, afirma. “Sugerimos que, caso haja risco para as famílias residentes na referida área, as próprias famílias deverão entrar em contato diretamente com a Defesa Civil, através do telefone 199, para que seja realizada vistoria no local”, conclui.
A Rua Mamed Camilo é citada outras três vezes, de 2021 a 2025, “com risco iminente de deslizamento de terra e grandes probabilidades de causar soterramento em residências situadas abaixo”.
O mais recente, de setembro de 2025, requer a avaliação de risco e retirada de barranco no local, de maneira urgente, antes do período de chuvas, pois a rua havia cedido há algum tempo e os moradores informaram que sempre há deslizamentos nessa época.
A resposta da Prefeitura, para este requerimento, foi de que, “com base nas observações realizadas, não foram encontradas evidências que colocassem em risco iminente a infraestrutura no local vistoriado”.
A Tribuna entrou em contato com a Prefeitura na manhã desta terça-feira (3) e o espaço está aberto para novo posicionamento. A matéria será atualizada logo que houver um retorno.
Tópicos: cerâmica / chuvas / esplanada / Jardim São João / Rua Mamed Camilo / Rua Nicolau Capelle




