‘Descaso’: moradores de rua evacuada no São Pedro cobram assistência após deslizamento

Após orientação de evacuação, comunidade cobra medidas e aponta problemas como poste com fiação e ameaça de novo deslizamento


Por Bernardo Marchiori

03/03/2026 às 19h38

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Foto: Bernardo Marchiori

Pouco antes do meio-dia do último sábado (28), Emerson Alves Pereira, de 50 anos, recebeu a informação de que a rua onde vive com a esposa e quatro filhos deveria ser evacuada. “A partir do aviso, eu mesmo fui repassando a documentação que comprova vistoria da Defesa Civil às demais famílias da comunidade”, conta. A Avenida Pedro Henrique Krambeck, no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, em Juiz de Fora, foi totalmente interditada entre os números 225 e 677 devido a um deslizamento de terra ocorrido cinco dias após a primeira ocorrência, registrada na segunda-feira (23).

Nascido e criado no Bairro São Pedro, Emerson é mecânico e trabalha em uma oficina na avenida há 22 anos. Ele relata que, no momento em que recebeu a orientação, “tudo se desestruturou”. “Foi a primeira vez que aconteceu, mesmo com várias chuvas bem fortes na região em todo o tempo em que estou aqui. Desestrutura o serviço e a mente.” O deslizamento atingiu a casa do irmão, que mora mais acima. Ninguém se feriu, mas dois quartos e um banheiro foram atingidos.

“Ainda parece que vai descer mais terra”, alerta. Após o deslizamento, muitas árvores e terra invadiram um trecho da Rua José Lourenço – paralela e acima da Avenida Pedro Henrique Krambeck. Os moradores permanecem receosos com a possibilidade de um novo deslizamento, que poderia atingir as casa que ficam abaixo da rua.

Emerson alega que a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) já tinha conhecimento do risco na região, após reclamações feitas por ele e outros moradores. “O barranco já estava caindo e não deram prioridade. O Poder Público nem veio aqui quando ocorreu o deslizamento: a própria comunidade precisou ficar em cima para enviarem um engenheiro”, complementa. Segundo ele, a Administração municipal esteve no local apenas uma vez, quando retirou o irmão do mecânico de casa por causa do perigo. “Auxiliaram ele na construção de um muro, que foi derrubado no deslizamento na semana passada.”

Uma moradora da Avenida Pedro Henrique Krambeck, que preferiu não se identificar, destacou a necessidade de remoção de um poste com fiação elétrica que caiu logo acima de sua residência. “Se ele cair por completo, vai direto na minha laje. O mesmo vale para as árvores. A Cemig não vem para arrumar.”

A Tribuna entrou em contato com a companhia, que informou que o caso está entre as ocorrências nas quais a Cemig ainda não foi liberada pela Defesa Civil para realizar a manutenção. “Importante ressaltar que o trecho encontra-se desligado e isolado, portanto, sem risco elétrico. Assim que houver a liberação, por questões de segurança, a Cemig irá atuar na manutenção.”

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Foto: Bernardo Marchiori

‘Meu sustento é minha oficina, não tenho como sair’

Na rua interditada, o silêncio predomina, apesar de moradores não terem saído de suas casas, mesmo com a orientação de evacuação pela Defesa Civil. Além do aviso, a Prefeitura acrescentou que quem precisasse deveria se dirigir ao abrigo mais próximo: a Escola Municipal Doutor Adhemar Rezende de Andrade. Contudo, no mesmo momento, Emerson dirigiu-se com a família para a casa da sogra.

“Minha esposa e meus filhos estão dormindo lá.” Ele afirma que não conseguiu deixar o local completamente por causa do trabalho e dos bens dentro de casa, com receio de furtos. “Se eu sair daqui, vou ter que parar de trabalhar. Meu sustento é minha oficina, não tenho como sair. Não tenho outra fonte de renda. Mesmo nesta situação, continuo pagando contas. Além disso, o volume de serviço na oficina caiu muito em 2026. Preciso trabalhar pela minha família. Não faço isso para ficar rico: faço para conseguirmos comer. Não tenho ajuda nenhuma. Quem sofre neste momento são os pobres.”

Emerson, ainda diz que tentou alugar um imóvel para a família no Bairro Santos Dumont, mas cobraram R$ 1,5 mil de aluguel e três cauções. “O sentimento foi de que não existe ajuda humanitária, mas, sim, exploração humanitária.” Sobre o Poder Público, ele diz que “é um descaso”. “Está previsto para cair há anos. Desde a primeira vez que caiu, ninguém se preocupou. Os moradores da comunidade já reclamaram com a Prefeitura, mas nem deveria precisar, por ser uma área de risco. Nenhum representante do Poder Público veio até aqui, apenas a Defesa Civil para evacuar.”

Prefeitura se posiciona

Questionada sobre a situação, a Prefeitura de Juiz de Fora informou, por nota, que o fato de uma área constar como “área de risco” no mapeamento não significa, automaticamente, que ela deva ser evacuada ou que seja inabitável. “O mapeamento é um instrumento técnico de identificação e acompanhamento, e as decisões sobre interdição, evacuação e retorno dependem de vistoria e avaliação técnica no local, considerando as condições específicas de cada imóvel e do entorno.”

No cenário atual, a orientação da Administração é para que, em caso de insegurança, as pessoas deixem suas casas, ainda que não haja orientação formal para evacuação. No São Pedro, a Prefeitura afirma que mantém ações preventivas rotineiras, como limpeza e desobstrução, além de investimentos em drenagem urbana e pequenas contenções, e segue desenvolvendo o Plano Municipal de Drenagem, com diagnóstico da macrodrenagem e proposição de intervenções para pontos críticos. Há ainda previsão, no âmbito do PAC, de obras de macrodrenagem que contemplam a bacia com abrangência do São Pedro.

“A Prefeitura reforça, por fim, que o mapeamento permite que essas áreas sejam monitoradas continuamente, com estrutura permanente de acompanhamento e resposta.”

Sobre a remoção do poste com fiação elétrica e das árvores apontadas pelos moradores, a falta de prioridade para intervenções no local, a demora na interdição da avenida após a primeira ocorrência e quais medidas emergenciais e prazos estão previstos para reduzir o risco de novos deslizamentos e orientar o retorno ou a realocação das famílias, não houve resposta.