Ouça agora

África constrói “muralha verde” de 8 mil quilômetros para frear avanço do deserto e recuperar terras


Por Matheus Chaves

16/09/2026 às 02h52

África constrói “muralha verde” de 8 mil quilômetros para frear avanço do deserto e recuperar terras
Imagem: Wirestock/Magnific

Uma das maiores iniciativas ambientais em andamento na África pretende recuperar áreas degradadas ao longo de aproximadamente 8 mil quilômetros, atravessando a região do Sahel entre o oeste e o leste do continente. Conhecido como Grande Muralha Verde, o projeto nasceu com a ideia de criar uma faixa contínua de vegetação para combater a desertificação, mas acabou se transformando em uma proposta muito mais ampla de recuperação de paisagens.

O objetivo não é simplesmente plantar uma enorme quantidade de árvores para formar uma barreira física contra o deserto. Atualmente, a iniciativa trabalha com diferentes formas de restauração ambiental, incluindo regeneração da vegetação, recuperação do solo, conservação da água e desenvolvimento de atividades produtivas. Dessa maneira, a proposta busca melhorar simultaneamente as condições ambientais e econômicas das comunidades que vivem na região.

A iniciativa foi lançada em 2007 sob coordenação de países africanos e, atualmente, envolve 11 países diretamente ligados à área central do projeto: Burkina Faso, Chade, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal e Sudão.

Por que o Sahel precisa ser recuperado?

O Sahel é uma extensa faixa de transição localizada entre o deserto do Saara, ao norte, e regiões mais úmidas do continente, ao sul. A população que vive nesse território depende em grande medida da agricultura, da pecuária e de outros recursos naturais para obter alimento e renda.

O problema é que a degradação do solo, períodos de seca, mudanças climáticas, uso inadequado da terra e outros fatores reduzem a capacidade dessas áreas de sustentar a produção. Quando a vegetação desaparece, o solo fica mais exposto à erosão e perde parte de sua capacidade de reter água, criando um ciclo que dificulta ainda mais a recuperação.

A própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) explica que a Grande Muralha Verde deixou de ser encarada como uma simples fileira de árvores. A proposta atual é formar um mosaico de paisagens produtivas e sustentáveis, adaptadas às condições de cada região.

A “muralha” não será uma floresta contínua

Apesar do nome, o projeto não pretende construir uma parede vegetal ininterrupta atravessando o continente. Essa foi a concepção inicial da iniciativa, mas o planejamento mudou conforme os responsáveis perceberam que a recuperação das terras exigia soluções diferentes para cada ambiente.

Em uma determinada área, por exemplo, pode ser mais importante estimular a regeneração de espécies nativas. Em outra, a prioridade pode estar na recuperação da fertilidade do solo ou na implantação de sistemas agrícolas mais resistentes à seca.

Por isso, a Grande Muralha Verde passou a ser entendida como um corredor de restauração de aproximadamente 8 mil quilômetros. A FAO estima que a área de atuação alcance cerca de 780 milhões de hectares e que aproximadamente 232 milhões de pessoas estejam na região abrangida pela iniciativa.

Na prática, isso significa que o projeto tenta recuperar o funcionamento dos ecossistemas, e não apenas aumentar a quantidade de árvores existentes.

Recuperação também pode gerar alimento e renda

Outro ponto importante é que a iniciativa não foi concebida exclusivamente como um programa ambiental. A recuperação das terras está diretamente relacionada às condições de vida das populações que dependem delas.

Quando o solo volta a apresentar melhores condições para retenção de água e produção, aumenta também a possibilidade de cultivo de alimentos e criação de atividades econômicas. A restauração pode ainda favorecer produtos florestais não madeireiros, sistemas agroflorestais e outras formas de geração de renda.

A meta estabelecida para 2030 inclui a recuperação de 100 milhões de hectares de terras degradadas, a criação de 10 milhões de empregos verdes e o sequestro de 250 milhões de toneladas de carbono. Esses números mostram que a iniciativa pretende combinar restauração ambiental com desenvolvimento econômico.

Assim, a vegetação funciona como parte de um sistema maior. Ela ajuda a proteger o solo e conservar recursos naturais, enquanto atividades produtivas planejadas podem fornecer alimentos e renda para as comunidades.