‘Material que não tem preço’: atas históricas da Câmara preservam 52 anos de memória de Juiz de Fora

Acervo digitalizado reúne 21.843 páginas produzidas entre 1950 e 2002, com registros sobre a formação política e social do município


Por Câmara Municipal de Juiz de Fora

31/05/2026 às 06h30

A preservação de documentos de cidades é fundamental não apenas para manter viva a memória de momentos relevantes da história. Os registros do passado também auxiliam no entendimento de como e em que circunstâncias o município foi construído e se desenvolveu ao longo do tempo. Nesse sentido, desde abril do ano passado, a Câmara Municipal de Juiz de Fora disponibiliza atas manuscritas digitalizadas que registram 52 anos da história política e social da cidade. O acervo reúne documentos produzidos entre janeiro de 1950 e dezembro de 2002 e soma 21.843 páginas escaneadas em alta resolução.

O material contempla 45 livros de atas de reuniões ordinárias e extraordinárias da Câmara Municipal. Dentre os registros documentados, podem ser encontrados debates sobre abertura de ruas, instalação de empresas, definição de tarifas de ônibus, homenagens prestadas pelo Legislativo e posicionamentos de vereadores em momentos da história local e nacional.

De acordo com o Legislativo, com a digitalização, o acesso às atas deve se tornar mais ágil e amplo, permitindo que pesquisadores, estudantes e cidadãos consultem os documentos sem a necessidade de manusear os originais. A medida também contribui para a preservação física do acervo, reduzindo desgastes naturais causados pelo uso contínuo.

O trabalho foi realizado por historiadores da Câmara Municipal de Juiz de Fora em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), por meio do Centro de Conservação da Memória. A iniciativa busca reforçar a preservação da memória coletiva e ampliar o acesso a documentos considerados relevantes para a compreensão da formação histórica do município.

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(Foto: Leonardo Costa)

Maior acessibilidade à história da cidade

Ações como essa de preservação tornam o acervo mais acessível para toda a população. A superintendente de Preservação Institucional e Memória, Nilma Ferreira de Sá, acrescenta também que a digitalização aproxima as pessoas da Câmara Municipal e do seu conteúdo. “Nesses livros, podem ser encontradas informações sobre a história e o desenvolvimento da cidade, bem como as mudanças que aconteceram durante o período até chegar onde Juiz de Fora está hoje.”

Nas atas, os vereadores discutem questões relacionadas à cidade. “Por exemplo: trazendo para a temática do período pós-chuva que vivemos, já foi abordada a legislação ambiental como um todo – não só em relação às encostas e aos rios. Tudo isso é retratado nos documentos, assim como tudo o que acontece dentro do plenário”, destaca Nilma.

“É muito importante para as pessoas conhecerem a fundo a história da cidade. Isso acaba gerando um sentimento de pertencimento muito grande e ajuda na questão da responsabilidade, na participação da sociedade nas questões políticas e no desenvolvimento do município como um todo. Então, é um material que não tem preço. Conta a história de tudo o que se passa aqui. A ata é a fonte principal de pesquisa para quem quer conhecer.”

A ação de digitalização por parte da Câmara promove uma maior preservação para o material. Como o material físico é mais antigo, está mais sujeito a sofrer as consequências do tempo e do manuseio. As quase 22 mil páginas digitalizadas estão disponíveis na aba “Memória”, no site da Câmara Municipal. Elas estão dispostas ano a ano; e dentro de cada ano, o mês. O acesso é facilitado pela pesquisa. “Qualquer pessoa pode pesquisar em qualquer lugar que estiver. Basta um celular na mão”, reforça Nilma.

A digitalização foi realizada com scanner a laser de última geração, com o objetivo de garantir a integridade dos documentos originais. Segundo a Câmara, o acervo foi digitalizado em 1200 dpi, qualidade superior à prevista pelo Decreto nº 10.278/2020, que estabelece parâmetros para a digitalização de documentos públicos.

O presidente da Câmara Municipal de Juiz de Fora, Zé Márcio Garotinho, destaa que além de preservar a memória, a guarda das atas é a forma de entendermos como a cidade chegou até aqui. “Neste momento de reconstrução, conseguimos perceber o quanto a cidade evoluiu e entendendo entendendo história a gente consegue projetar melhor o futuro. Estas atas mostram pras novas gerações como é a nossa Juiz de Fora.”

Atas registram bastidores da política local

Entre os episódios preservados nas atas está uma das disputas políticas que marcaram Juiz de Fora no início da década de 1980. Em 4 de julho de 1982, Wilson Coury Jabour subiu à tribuna da Câmara Municipal e falou sobre sua intenção de disputar a Prefeitura de Juiz de Fora.

“Venho há mais de um ano perseguindo a candidatura à Prefeitura de Juiz de Fora, quando, inclusive, meu nome foi indicado pelo companheiro, José Geraldo de Oliveira”.

O discurso ocorreu após as 20h, diante de uma plateia pequena e com 13 dos 19 vereadores presentes no Plenário. A fala, inicialmente prevista para cinco minutos e prorrogada por mais cinco, evidenciava uma disputa interna no partido ao qual Jabour pertencia.

Wilson Coury Jabour vinha da Arena e atuava para consolidar o antigo PMDB no município. Reconhecido pelo compromisso político-partidário, ele afirmou aos colegas que havia trabalhado para manter o partido na “crista dos acontecimentos”. Na ocasião, disse estar decepcionado após ouvir que o médico João Carlos Arantes teria o consenso do grupo para ser candidato à Prefeitura de Juiz de Fora naquele ano.

A discussão ultrapassou a fala de Jabour na tribuna. Outros vereadores também se manifestaram sobre o tema. Ivan de Castro reafirmou as conversas em torno do nome do colega e disse que o apoiava. Também afirmou ter ouvido de Tarcísio Delgado que ele não seria candidato.

Na eleição de 15 de novembro de 1982, os juiz-foranos foram às urnas para escolher governador, senador, deputados federal e estadual, prefeito e vereador. A disputa municipal terminou com a vitória de Tarcísio Delgado para prefeito e João Carlos Arantes como vice-prefeito. Wilson Jabour foi reeleito para mais um mandato de vereador.