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Miss Brasil Gay: representatividade e resistência

PUBLIEDITORIAL

Por Sheila Veríssimo, Miss Brasil Gay 2013

07/07/2019 às 07h00- Atualizada 08/07/2019 às 17h00

Coluna de Respeito

Por Sheila Veríssimo, Miss Brasil Gay 2013

Tempos sombrios estes que vivemos hoje em dia, uma onda de ódio e intolerância permeia o coletivo e sonda a memória daqueles que, em algum momento, têm na história a lembrança e a percepção de outros tempos. A repressão e a ditadura não são novidades na sociedade. Houve um momento, numa época não muito distante, que nossa existência, enquanto LGBT’s, era criminosa, marginalizada, profanada. Bem como agora .

Fato é que no bradar da ignorância, surgem os heróis que à ela se impõem. Artistas, pensadores, educadores… vozes que não se calam diante dos dedos ditatoriais que nos apontam as ordens. Em 1976, Chiquinho Motta foi uma dessas vozes, que fez do glamour, da elegância, das suas referências no universo miss, um manifesto despretensioso, se utilizando apenas do direito de existir. Entendeu logo cedo que, para nós, LGBT’s, o fato de existir já era um ato de resistência, pois as convenções nunca nos convenceram, e expressarmo-nos na plenitude da nossa essência era além de uma necessidade nossa, uma afronta aos outros.

Nasce, então, o movimento Miss Brasil Gay e, com ele, a nossa militância. A princípio, uma grande “brincadeira”, eu diria, até inocente. Homens vestidos de mulher. Não temos esse direito? Desde os tempos do teatro antigo, na Grécia, isso não deveria surpreender mais ninguém. Pois na Ditadura Militar isso não podia, veja só, arte, transformismo, uma linda homenagem às mulheres, ao feminino … aqui? Não pode! Foi então que existir tornou-se resistir.

Essa história de luta e resistência com base num discurso da beleza, da arte e da cultura gay sempre me encantaram, e foi essa a razão do meu sonho de ser uma Miss Brasil Gay. Concursos de beleza em geral são tidos como superficiais, se atêm na questão estética e nas referências de moda. Eu acho maravilhoso, tendo em vista que essas manifestações são em geral maneiras de expressarmos nossa individualidade. Contudo, acredito ser importante unir uma causa à nosssa expressão. Esse é o sentido de ser militante, não apenas fazer valer nossa existência , mas também resistir para permitir que outros existam, assim como nós.

Vivi isso muito bem, quando eleita Miss Brasil Gay em 2013. Nos três anos seguintes – 2014, 2015, 2016 – não houve concurso. Reflexo de uma cultura social retrógrada e falta de apoio e incentivo. Tudo isso exigiu de mim a voz da luta e a postura da resistência, pois permanecer de pé, com o peso da coroa na cabeça, mesmo com o concurso ausente, não foi tarefa fácil! Além de coragem, o momento me pedia responsabilidade. Minha conduta determinaria, permitiria que outras viessem depois de mim, ou não. Para que outras pudessem vir e dar continuidade à essa causa, à essa história e à tradição era preciso ter esperança, confiança , era preciso resistir, me manter firme nas memórias do concurso, na luta dos que vieram antes de mim .. era o meu papel.

Somos todas guardiãs de um legado, e passar o título é dar continuidade, é prosseguir no caminho da esperança. Esperança de um mundo melhor, fraterno, igualitário em oportunidades e direitos. Os tempos difíceis hão de passar, resista! Nossa luta se traveste em purpurinas, brilhos e cristais, pois nossa pertinente alegria faz reluzir no palco a felicidade de sermos livres. Há algo mais digno do que a luta por liberdade? Se houver, desconheço.

Tenho esse direito, sou livre para passear entre os gêneros, brincar de ser menino e menina ao mesmo tempo, direito de me entender na sexualidade que a mim for mais confortável, de vestir rosa ou azul e não ser julgado por isso. A luta do Miss Brasil Gay vai muito além das passarelas, da festa, do luxo e do brilho. Nossa luta ecoa pelas ruas, deu origem aos movimentos organizados, acende no coração da comunidade LGBTQ+ a chama da arte transformista como plataforma ideológica, de respeito, tolerância … Amor!!

Ser uma Miss Brasil – sim, porque o título é eterno, não existe ex-miss – foi para mim uma das mais lindas experiências de vida, me trouxe consciência da minha função social, entendimento sobre a diversidade e, principalmente, o real sentido da expressão “orgulho gay”. É um orgulho ser parte desta história que há 40 anos resiste, se solidifica e se faz necessária, mesmo com o passar das décadas. Hoje, certamente, obtivemos grandes conquistas. A homofobia já é crime no Brasil, um sonho, mais um direito conquistado. Mas enquanto formos o país que mais mata homossexuais, e cada vez que um irmão nosso sofrer a dor do preconceito, será preciso mais uma vez travestir a dor, erguer a coroa e resistir. Fazer valer a voz de Chiquinho Motta que não se calou à ditadura e protestar. Pois, usando de uma frase de Martin Luther King, “quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele “.

 

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