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‘O desafio é comigo mesmo’, diz piloto radicado em JF sobre a expectativa para a Stock Car

Carlos Gomes estreia na maior competição de automobilismo do país no próximo dia 24, em Mogi Guaçu


Por Davi Sampaio

16/07/2026 às 06h24

A estreia na Stock Car marca o maior passo da carreira de Carlos Gomes no automobilismo. Radicado em Juiz de Fora, o piloto será uma das novidades do grid no próximo dia 24, em Mogi Guaçu, e admite que o principal desafio será se adaptar rapidamente ao carro, à pista e ao nível técnico da categoria. Em entrevista ao programa “Dá Jogo“, transmitido no YouTube da Tribuna de Minas, ele também falou sobre a trajetória iniciada ainda na infância, a rotina dividida entre o esporte e a vida empresarial e os custos para disputar a temporada.
Confira a entrevista:

Tribuna de Minas: Carlos, antes de falarmos da sua participação na Stock Car, conta pra gente um pouco da sua trajetória no automobilismo. Quem ainda não te conhece, precisa saber como tudo começou.
Carlos: Comecei muito cedo, com 5 anos, aqui em Juiz de Fora mesmo. A gente tinha um kartódromo na cidade. A partir dos 7 anos já andava como profissional — que é quando a gente pode participar de campeonato — e fui até os 13, 14 anos. Depois precisei dar uma pausa, por causa dos estudos e também por questão de logística: o kartódromo daqui foi encerrado. Mas o automobilismo nunca saiu de mim. Continuei fazendo algumas etapas, de forma não profissional, até que em 2019 eu retornei de vez com o kart. E aí, olha só, chegamos em 2026 e eu estou na Stock Car.
Tribuna: Rápido, né? 2019 no kart, 2026 na Stock. Como foi esse processo de adquirir maturidade pra chegar nas grandes pistas?
Carlos: Sabe quando falam que andar de bicicleta a gente nunca esquece? É mais ou menos assim. A essência continua. Se a gente somar meu tempo de formação com esse período final, fecha uma bagagem boa. O difícil mesmo foi voltar em 2019. Tinha dúvida se era o lugar certo, se eu realmente gostava daquilo tudo. Mas ali bateu a sinergia, tive certeza que precisava voltar de forma profissional. E fui acelerando — literalmente — as etapas até chegar na Stock.
Tribuna: Teve um momento específico que te fisgou de vez?
Carlos: Pular dentro de um kart de novo. O motor dois tempos, a emoção, o cheiro de gasolina… Quando senti aquilo tudo de novo, falei: “Cara, estou no lugar certo. É isso que eu preciso.”
Tribuna: Explica pra gente como é a Stock Car. Quem não conhece, o que precisa saber?
Carlos: A Stock é a principal categoria da América do Sul, existe desde os anos 70. Já passaram pilotos famosíssimos por ali. Hoje no grid você tem Rubinho Barrichello, Felipe Massa, Sette Câmara — que foi piloto de teste na Fórmula 1. É um grid muito seleto, de altíssimo nível. Os carros são muito similares entre si, o que a gente chama de “bolhas”. A diferença de um pro outro é basicamente a casca — Toyota, Mitsubishi, Chevrolet — mas por dentro são parecidos. Isso torna a capacidade do piloto ainda mais decisiva.
Tribuna: E qual a diferença prática entre a Stock e a Fórmula 1, por exemplo?
Carlos: Na F1 os motores e câmbios têm diferenças grandes entre as equipes. Na Stock, são similares pra todo mundo. O que muda é o acerto. Você mexe no câmbio, na rotação de cada marcha, no diferencial. Depois vem acerto de pneu, cambagem… A gente mexe no carro como um todo. Tem balança, você deixa o carro mais pesado pra um lado ou pro outro. É um desafio enorme acertar o carro, ainda mais eu chegando no meio da temporada. A maioria já conhece os carros e as pistas. Eu vou andar em Mogi agora e nunca pisei lá. Vou ter que conhecer o carro, fazer setup, com a equipe ajudando, mas meu estilo de guiada é diferente. É lidar com pista nova, carro novo e ainda extrair o máximo.

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(Foto: Yan Ferreira/Dycom Sports)

Tribuna: Essa primeira temporada na Stock, você encara como experiência? Como está planejando?
Carlos: O nível é altíssimo, são só pilotos profissionais. Meu maior desafio é comigo mesmo: chegar lá, ser competitivo, errar o mínimo possível, controlar a ansiedade. Em outras categorias você anda mais rápido e ganha. Aqui você tem que chegar mais tranquilo, saber que às vezes está longe de uma vitória. É como entrar no ônibus e já querer pilotar — não, calma, você está lá atrás, nem pagou a passagem ainda. É um aprendizado. E pra 2027 tem mudanças no carro, novas regras da Vicar. Vou me adaptar esse ano e ano que vem de novo. É aprendizado constante.
Tribuna: E a estrutura por trás de um piloto? Quantas pessoas compõem uma equipe como a sua?
Carlos: Só no meu carro são uns 3 mecânicos. Na equipe como um todo, umas 12 pessoas, e às vezes um circula entre pilotos. Tem chefe de equipe, chefe de mecânica, engenheiro por piloto, telemetrista, líder de equipe… No total, umas 25 a 30 pessoas pra fazer a equipe andar. Depois tem quem faz layout e plotagem do carro, equipe de hospitalidade, café no box, recepção dos convidados, equipe de filmagem, foto, agenciamento… No fim, uma equipe de Stock gera quase 50 pessoas pra atender de 2 a 3 pilotos.
Tribuna: Você tem exclusividade sobre o carro? Qual a vantagem disso?
Carlos: A Stock é desenhada pra isso: a gente ser exclusivo, entender melhor o carro, desenvolver ao máximo. Mas em setembro, na etapa de Londrina, vai ter uma endurance de 2h30 a 3h. Aí vou dividir o carro com outro piloto. É complicado porque você sai, o outro entra, tem que ajustar tudo. Mas gera uma sinergia legal. É um caso esporádico, uma ideia da categoria pra dar um diferencial.
Tribuna: E a expectativa pra estreia? Ansiedade batendo?
Carlos: Minha esposa fala que eu estou mais bravo, mas acho que estou tranquilo ainda. Tento não pensar nisso porque me atrapalha no dia a dia. Tenho minha empresa também, coisas pra resolver. Estou tentando separar o piloto da pessoa. A empresa me ajuda a não ficar ansioso o tempo inteiro pensando em automobilismo.
Tribuna: Fala sobre essa rotina de empresário e atleta. Como você administra?
Carlos: Hoje tenho a Controap, no Parque Sul, em Matias Barbosa. Cerca de 70 funcionários, exportação pra mais de 15 países na América do Sul e Central. Sou o único proprietário, o CEO. Isso facilita negociação e o dia a dia. Costumo dizer que 80% do meu tempo é empresário e 20% piloto. Mas quando aproxima corrida, inverte totalmente. Na semana da prova, quarta-feira já começo a ficar 50/50. Quinta, sexta, sábado e domingo é 100% automobilismo. Não desfoco um minuto.
Tribuna: E a preparação física? Tem acompanhamento?
Carlos: Acordo 5h da manhã, tenho personal, malho todo dia com exercícios específicos. Fim de semana faço mais cardio, gosto de correr na Federal. Dentro do carro faz quase 70 graus, a gente fica ali meia hora, é extremamente desgastante. Fora a adrenalina — quando você vai largar, o coração não cai de 120. Precisa de um cardio muito bom pra isso não atrapalhar o raciocínio na pista.
Tribuna: E sobre patrocínio? Muitos atletas falam da dificuldade em Juiz de Fora. Como você vê isso?
Carlos: Vejo uma dificuldade grande. Juiz de Fora é uma cidade fechada, até pro crescimento como um todo. Tenho um patrocinador daqui, a Índica Contabilidade, que está comigo desde o kart — me conheciam, acreditavam no projeto, viram que dava pra levar cliente e abraçaram. Mas o restante é tudo de fora: São Paulo, Muriaé… Já tentei buscar aqui, mas as pessoas não enxergam o esporte de forma diferente. Stock Car parece muito distante pra algumas empresas daqui, elas não sabem o que pode gerar. Sempre estou aberto a empresas que queiram ser disruptivas, mas hoje a maioria dos meus patrocinadores é de alcance nacional.

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Piloto Carlos Gomes irá estrear na Stock Car (Foto: Yan Ferreira/Dycom Sports)

Tribuna: E qual o valor pra disputar uma temporada?
Carlos: Cerca de R$ 2,5 milhões.
Tribuna: Você é empresário e atleta ao mesmo tempo, então conhece os dois lados. O que falta pra aproximar as empresas do esporte?
Carlos: Falta mindset. Não é só colocar a logomarca. É pensar que você pode entregar algo a mais pra sociedade. Tem empresário que gasta R$ 3 mil numa mesa de bar mas não quer dar R$ 1 mil pra ajudar um projeto social ou esportivo. E tem a lei de incentivo — ICMS, Imposto de Renda — onde a empresa não gasta nada extra, só redireciona o imposto devido. É seguro, transparente, tem portal da transparência. Não tem desculpa.
Tribuna: Quais são as etapas da sua temporada?
Carlos: A gente participa de quatro etapas. Vamos agora pra Mogi Guaçu, no Velotitar. Depois Londrina, Brasília (26 e 27 de setembro) e fechamos em Interlagos, dia 13 de dezembro.
Tribuna: Tem alguma pista que você considera mais desafiadora?
Carlos: Interlagos é o mais desafiador porque a maioria já andou muito lá. O gap de diferença é grande. Mas eu gosto de pista nova — você equaliza todo mundo, é um desafio diferente, você não sabe o que vai acontecer. Londrina vai ser a primeira vez, nunca teve corrida lá. Brasília também é fantástica, a maior pista em extensão do Brasil.
Tribuna: Qual sua meta pra essa temporada? São 19 pilotos na Light.
Carlos: Se eu ficar entre os 10 nas corridas, já é um excelente resultado. O sonho é permanecer, construir uma trajetória vitoriosa. Não adianta só chegar, tem que ficar. Minha ideia é estar esse ano, 2027, 2028, criando uma história que leve a um título.
Tribuna: E muitos pilotos têm dedicação exclusiva. Você sonha em um dia viver só do automobilismo?
Carlos: Dá pra conciliar. As férias do automobilismo são longas — paramos em dezembro e voltamos em abril. E eu gosto de ser empresário também. Mas é fato: 80% a 90% dos pilotos têm dedicação exclusiva, vivem 100% disso. Eu sou meio fora da curva, faço outras coisas além de pilotar. Mas tem outros exemplos assim também.
Tribuna: Pra encerrar, quais suas redes sociais pra quem quiser te acompanhar ou apoiar?
Carlos: Instagram: @cgsjunior. Site: cgsjunior.com.br. E um recado pros empresários: se a Stock parece distante, apoiem outros atletas da região, categorias de base, projetos olímpicos. Qualquer ajuda já faz diferença. Não é só colocar a marca, é entregar algo para a sociedade.