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“Precisamos recorrer mais ao ‘Era uma vez’, à fantasia, também para falar de coisas sérias”, afirma Monica Stahel

Por Marisa Loures

22/06/2021 às 08h00 - Atualizada 21/06/2021 às 19h46

A escritora e tradutora paulista Monica Stahel coloca em perspectiva a ação humana sobre o equilíbrio com o ambiente no recém-lançado “Romãozinho, tuiuiú e outros bichos” – Foto Divulgação

Se o ser humano continuar interferindo indiscriminadamente nos ciclos naturais, como consequência, teremos um desequilíbrio ambiental, eliminando algumas espécies, e isso fica claro em “Romãozinho, tuiuiú e outros bichos” (Saíra, 56 páginas). A obra infantil, recém-lançada pela paulista Mônica Stahel, com ilustrações de Luciana Romão, chega para o leitor mirim trazendo uma reflexão a partir de uma conhecida lenda do folclore do Centro-Oeste do Brasil.

Quem já ouviu falar de Romãozinho sabe que se trata de uma criança travessa que nunca cresce. Ele é malvado de nascença e gosta de se divertir maltratando os animais e as plantas. Na história criada por Monica, essa figura folclória está, como sempre, aprontando suas crueldades por onde passa, deixando o rio, o tuiuú, o jacaré, os peixes, as cobras e os sapos em apuros.

“Quando resolvo escrever um livro, antes de mais nada, é porque tenho uma história para contar. É claro que nessa história vai aparecer inevitavelmente minha visão de mundo, minhas posições diante da vida. Com ‘Romãozinho, tuiuiú e outros bichos’ não foi diferente. A meu ver, o que fica mais evidente nesse conto é que na natureza nada é bom nem mau. Se tuiuiú limpa os dentes do jacaré, não é porque ele é bonzinho e quer ajudar o outro, mas é para se alimentar. Se o jacaré come as piranhas do rio, não é porque ele é mau, mas porque está com fome. E desse modo a natureza vai se equilibrando. Eu diria que essa é a ‘tese’ do livro, mas de fato não foi deliberada. Os fatos fazem parte da história e acontecem assim”, afirma a autora, que foi incluída, por indicação da FNLIJ – Federação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – na lista de honra do ano do ano 2000 na International Board on Books for Young People.

“Um saci no meu quintal”, “Tem uma história nas cartas da Marisa” e “A roupa nova de Doralice” estão entre os títulos que Monica já lançou. Além de escritora, ela também é tradutora, tendo sido responsável por traduções de Mafalda, a famosa personagem de Quino.

Marisa Loures – Como surgiu essa ideia de criar uma história inédita a partir da lenda do Romãozinho, esse personagem que faz parte do nosso folclore brasileiro?

Monica Stahel – Há quase duas décadas, vi-me diante da tarefa de escrever, para o público infantil, um livro sobre mitos brasileiros.  Ao fazer minhas pesquisas em livros e em campo, duas coisas me surpreenderam principalmente: a imensa riqueza e diversidade regional da nossa mitologia e a nossa imensa ignorância a respeito dela (aqui falo em desconhecimento por parte de adultos e crianças da atualidade). Conhecemos poucas figuras, como saci, lobisomem e mais uma ou outra, sempre acompanhadas por imagens e descrições estereotipadas e simplistas. Já nessa primeira obra utilizei, entre outros recursos, o de criar histórias inéditas envolvendo essas figuras, para que as crianças fossem se aproximando delas de uma maneira mais “amigável” e menos “acadêmica”. E, a partir daí, continuei sempre pensando: já que temos uma diversidade tão grande de figuras na nossa mitologia, por que não as tornar mais conhecidas utilizando-as como personagens de histórias das quais, por suas características, elas poderiam participar? E, tanto tempo depois, me voltou à ideia o Romãozinho, essa figura tão presente no Centro-Oeste e tão desconhecida em outras regiões.

“É pela história que se chega à criança, narrando coisas tristes, alegres, espantosas, assustadoras, sem ter medo de fazê-la chorar, rir, de provocar suspense, pois afinal a vida tem tudo isso.”

– E você trava um diálogo com o leitor mirim a respeito de uma questão muito séria: se o ser humano continuar interferindo indiscriminadamente nos ciclos naturais, como consequência, teremos um desequilíbrio ambiental, eliminando algumas espécies. É difícil tratar de questões sérias assim em um livro infantil?

Pois é, interessante você generalizar o Romãozinho como “ser humano” – viu como funciona? De fato, só depois que terminei a história, saquei que o Romãozinho, no conto, era o ser que vinha provocar o desequilíbrio daquele ciclo tão “arranjadinho” – o que nós, assim chamados humanos, estamos fazendo. E, se ele continuasse com suas estripulias, tudo se acabaria: rio, jacaré, tuiuiú, piranha e todo o resto. Para evitar o estrago, recorri a outra figura mitológica, o Curupira (aliás, de aparências e características extremamente diversas, dependendo da região em que aparece). Falar desses assuntos com a criança não é difícil, não. Nós, adultos, precisamos nos despojar um pouco da nossa mania de “discorrer” sobre temas. É pela história que se chega à criança, narrando coisas tristes, alegres, espantosas, assustadoras, sem ter medo de fazê-la chorar, rir, de provocar suspense, pois afinal a vida tem tudo isso. Eu diria que precisamos recorrer mais ao “Era uma vez”, à fantasia, também para falar de coisas sérias, delicadas, graves, perigosas.

– E já ouvi de uma escritora que os animais despertam a curiosidade e a admiração das crianças. Por isso, tê-los como personagens é uma boa estratégia para se trabalhar questões mais delicadas com a meninada. É isso mesmo?

É a tal questão do “era uma vez”. Dar vida a animais, brinquedos, plantas, pedras e outras coisas inusitadas é próprio de crianças. (Quando criança, eu tinha um filhinho que era uma bandeja de madeira da minha mãe. Para mim, a própria figura de um bebê…) Portanto, tudo vale, para tratar qualquer tipo de questão, para contar qualquer tipo de história.

– Além de escritora, você também é tradutora. É mais difícil fazer uma boa tradução ou criar uma boa história?

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Traduzir e escrever histórias são atividades completamente diferentes, portanto exigem atitudes completamente diferentes por parte de quem as pratica. Para traduzir, você tem que se colocar em segundo plano, ser humilde e lembrar que naquele momento é porta-voz de outra pessoa, a voz é dela. Por isso, essa história de dizer que “a tradução é melhor do que o original” não existe. Se for assim, o tradutor não terá sido fiel ao autor. Ao criar uma história, você toma a dianteira, a voz é sua, o recado é seu, você é responsável por aquilo que diz e não por transmitir aquilo que outra pessoa disse. Mas, no frigir dos ovos, não existe uma coisa mais difícil ou mais fácil do que a outra. No entanto é importante ressaltar que tradução e escrita têm o mesmo alvo: o público. O respeito ao público não pode ser perdido de vista nunca, e, neste caso, ele se traduz em competência e verdade por parte de quem exerce essas atividades.

– Você tem no currículo traduções da famosa personagem argentina Mafalda, que é um exemplo quando o assunto é levar temas contemporâneos para as crianças. Até nós, adultos, aprendemos muito com ela. Qual ensinamento de Mafalda você leva para seus personagens e até para sua vida?

Sempre gostei da Mafalda, desde muito antes de traduzi-la, porque ela dizia a mim e me dizia. Quino foi um grande pensador. Em seus personagens, adultos ou crianças, retratou pessoas como a gente, do meu bairro, da minha escola, da minha família, eu mesma, e me ajudou a conhecê-las e a pensá-las melhor, a conhecer o mundo e a pensá-lo melhor. Já conversei muito com Mafalda na vida, e continuo conversando. Sem dúvida o que sou hoje, o que escrevo hoje, o que traduzo hoje, o que vivo hoje é resultado do que vivi, do que experimentei, com todos os erros e acertos, e disso faz parte tudo o que li, todos os trabalhos que fiz, todas as pessoas que conheci. É difícil separar em pedacinhos e dizer o que aprendi com quem e com o quê. Mafalda foi mais uma.

– No site da Saíra, você diz que, na hora de escolher uma profissão, acabou sendo atraída para o universo dos livros. Mas, quando foi escolher uma faculdade, optou Ciências Sociais. Isso porque queria um curso que te ajudasse a entender o seu país, o seu povo, os outros países e o mundo. De certa forma, realiza tudo isso ao escrever. Estou certa?

O que as Ciências Sociais e a experiência universitária me ofereceram foi muito mais do que um conhecimento acadêmico. Foi uma maneira de olhar para a realidade que resultou numa tomada de posição e, por conseguinte, num modo de vida que passou a ser o meu e continua sendo.  Isso se reflete em tudo o que sou, o que faço, na minha maneira de me relacionar com as pessoas, no meu gosto estético, no meu lazer, no meu trabalho – portanto, obviamente, também na minha escrita.

– Gostaria que enfatizasse a pertinência deste livro neste momento em que vivemos.

Acho que a dedicatória do “Romãozinho, tuiuiú e outros bichos” resume o que penso e o que me aproxima da Saíra: “Aos verdadeiros donos da terra, que lutam bravamente para manter a integridade de sua cultura, da natureza, da vida.” A integridade da vida, em todos os sentidos, está em jogo hoje. Não me sinto no direito de deixar recados ou dar lições de moral no final dos meus livros. Por isso, também este termina com uma pergunta: “Será que depois disso o Romãozinho tomou jeito?” Será? Algum dia a resposta virá.

 

“Romãozinho, tuiuiú e outros bichos”

Autora: Monica Stahel

Ilustradora: Luciana Romão

Editora: Saíra, 56 páginas

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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