

“Por que ensinar a escrita literária na escola?” Essa é a pergunta que nomeia a roda de conversa que Rildo Cosson conduzirá, na próxima quinta-feira, às 19h, na Faculdade de Letras, da UFJF, dentro do II Congresso Práticas de Ensino de Língua e Literatura na Educação Básica: Consolidação e desafios. Mas, enquanto produzia esta coluna, antes de pensar nas razões para ensinar, quis percorrer o caminho inverso. O que a escola perde quando a escrita literária deixa de fazer parte de sua rotina? O que desaparece quando os estudantes passam anos lendo literatura sem experimentar o desafio de escrevê-la?
“Perde um dos caminhos comprovadamente mais eficientes e poderosos de cumprir a sua função básica, que é dar acesso, conhecimento e competência para o uso da escrita. É por meio da escrita literária que a escola consegue formar um aluno capaz de usar a escrita em toda sua potencialidade expressiva e comunicativa. Se hoje reclamamos que nossos alunos não sabem ou têm dificuldade de escrever, é justamente porque retiramos da escola o exercício da escrita literária colocando em seu lugar a escrita empobrecida de textos jornalísticos”, afirma o professor e autor de referência em letramento literário e ensino de literatura, que acaba de lançar o livro “A escrita literária na escola” (Contexto, 192 páginas), gestado com base em reflexões teóricas e no diálogo com professores da educação básica e na análise do cotidiano escolar.
Em suas páginas, Cosson defende que a escrita literária deve ser encarada como um elemento central no cotidiano escolar, não como uma atividade complementar. E ele vai além nesse debate, argumentando que a experiência da leitura e da escrita literárias também contribui para que assumamos, de maneira plena, nossa posição como sujeito de linguagem. “É pelo manuseio dos recursos literários na escrita e na leitura que construímos nossas identidades, transformamos em palavras o vivido e inventamos novas formas de ser e estar no mundo.”
O II Congresso Práticas de Ensino de Língua e Literatura na Educação Básica será realizado, nos dias 25 e 26 de junho, pelo Mestrado Profissional em Letras, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Linguística, ambos da UFJF. Com programação gratuita, ele é voltado para professores, estudantes de Letras e Educação, pós-graduandos, gestores escolares e todos os interessados no ensino de Língua e Literatura. O evento contará com palestras, oficinas e relatos de experiência.
Marisa Loures – Durante muito tempo, a escola se preocupou em formar leitores de literatura. Por que você considera que chegou o momento de discutir também a formação de escritores de literatura?
– Não estamos propondo a formação de escritores na escola se por escritores de literatura entendemos os autores profissionais ou mesmo diletantes que publicam obras rotuladas de literárias. O que estamos defendendo é uma compreensão mais adequada do ensino da literatura na escola, isto é, defendemos que não haja dissociação entre a leitura e a escrita no manuseio escolar da linguagem literária.
– A ideia de que a escrita literária depende de um dom ainda está muito presente no imaginário social. Em que medida essa crença contribuiu para afastar a criação literária das práticas escolares?
– Essa visão romântica e ingênua da criação literária não prejudica apenas as práticas escolares, mas a escrita literária como um todo. Muitos potenciais escritores deixam a literatura de lado porque acreditam necessitar de um talento especial, quando a escrita literária, assim como as demais atividades humanas, depende mais da transpiração do que da inspiração. No que tange à escola, essa visão termina por insular a literatura em uma torre de marfim onde tal como a princesa ou donzela só pode ser admirada de longe por meio da leitura especializada. Como apenas o herói tem acesso pleno à literatura, cabe aos alunos apenas o lugar de leitores assistentes. Essa limitação acompanha os alunos até mesmo nos cursos de Letras que só oferecem aos futuros professores o papel de leitores, frustrando a expectativa de muitos que entram no curso acreditando que teriam uma relação mais profunda com a linguagem literária.


– Seu livro “A escrita literária na escola” parte não só de reflexões teóricas, mas do diálogo com professores da educação básica e da análise do cotidiano escolar. A partir dessa conversa com os professores, quais foram os principais obstáculos identificados para a inserção da escrita literária nas salas de aula?
– Esses obstáculos são muitos. Para identificá-los, busquei analisar, no segundo capítulo do livro, não sem razão intitulado “Perseverar é preciso”, em uma analogia com o célebre verso de Pessoa “Navegar é preciso”, cinco grupos de obstáculos. Há, assim, aqueles que são constituídos durante a formação docente nos cursos de Letras e Pedagogia. Há os que são próprios dos currículos e prescrições legais como a BNCC. Há os que se apresentam a partir do funcionamento da escola. Há aqueles que são de ordem metodológica na sala de aula. Há, por fim, aqueles de fora da escola que surgem das pressões equivocadas dos pais e da sociedade. Todos são enfrentados cotidianamente por aqueles professores que insistem e persistem em fazer da escrita literária uma prática pedagógica. Professores que, por conta de sua própria experiência e de seus alunos, sabem da extraordinária força formativa da literatura.
– Seu livro propõe integrar a escrita literária ao letramento literário. O que essa integração muda na forma como compreendemos o ensino de literatura na educação básica?
– O livro tem como propósito esclarecer qual é o lugar da escrita literária na escola para, com isso, mudar não apenas como se compreende o ensino da literatura, mas também o ensino da escrita na escola. Reconheço que é uma proposta ambiciosa. Todavia, tal como diz Caetano Veloso nos versos de “Um índio”, se ela surpreender o professor, não é porque revela algo novo, mas sim porque trata do óbvio. Em última instância, o que defendemos no livro é a inversão da maneira como a escrita literária é tradicionalmente percebida e ensinada na escola: em vez de tratá-la como suplemento ou excepcionalidade, propomos tomá-la como paradigma do ensino de escrita nas aulas de língua portuguesa.
– E como essa mudança que é ao mesmo tempo óbvia e radical se apresenta ao professor? A partir de que bases teóricas e metodológicas essa proposta é construída?
– Ao lado da apresentação de estratégias concretas, o livro traz dois argumentos centrais. O primeiro deles é que a escrita literária é mais ampla do que aquilo que a escola usualmente considera como literário. Daí a necessidade de o professor reconhecer que a escrita literária de seus alunos não se restringe à produção de gêneros socialmente reconhecidos como literários, tais como um haikai, uma crônica ou um conto. A literatura também se faz presente na maioria dos outros textos que ele produz, ainda que em diferentes medidas, a exemplo de memórias de família, relatos de experiências, registros de leituras diversas, descrições de objetos ou lugares, e até mesmo textos argumentativos na forma de ensaios, só para nomear o que é mais comum nas práticas escolares. O segundo é que, independentemente de o aluno vir a produzir um poema, uma narrativa ficcional ou um texto argumentativo, o que de fato distingue essas práticas de escrita de outras fora da escola é o seu caráter formativo. Tal como aprendemos com a reescrita de “Dom Quixote” por Pierre Menard de Borges, a atividade pode até ser exatamente a mesma dentro e fora da escola, mas, se realizada dentro da escola, ela adquire um sentido próprio e um objetivo distinto, que é a formação do leitor literário. Ou melhor, a inserção dessa prática em um processo de aprendizagem da literatura que responde pelo letramento literário do aluno.
– Ao defender a escrita literária como parte da formação do sujeito de linguagem, você amplia o debate para além da aprendizagem de técnicas de escrita. Que papel a criação literária desempenha na formação humana dos estudantes?
– Não há formação verdadeiramente humana se não passar de alguma maneira pela literatura tanto como leitura quanto como escrita. No caso específico da escrita literária, ao contrário do que é usualmente propalado na escola e em outros espaços formativos, ela não apenas desenvolve a criatividade ou expressão artística do aluno. Muito além dessa visão estreita e limitadora, é pelo manuseio dos recursos literários na escrita e na leitura que construímos nossas identidades, transformamos em palavras o vivido e inventamos novas formas de ser e estar no mundo. Em outras palavras, é pela experiência da escrita e da leitura literária que assumimos mais plenamente a posição de sujeitos de linguagem. Por isso, em uma sociedade cada vez mais padronizada culturalmente como a nossa, a escola não pode deixar de oferecer a experiência formativa da escrita literária que, tal como acontece com a leitura, faz parte do ensino da literatura. A escrita literária é para todos.







