
Recém-empossada como membro da Academia de Letras Joaquim Osório Duque Estrada, de Paty de Alferes, na qual passou a ocupar a cadeira da poetisa Cecília Mereiles, Denise Doro segue com o lançamento do novíssimo “O sabor da vitória” (Gryphon Edições, 120 páginas). O livro é o terceiro que ela envia para as prateleiras e é composto por 14 contos que, nas palavras da também escritora Emanuelle Ferrugini, permitem que os leitores conheçam “uma autora que é uma fortaleza de mulher”, mas, ao mesmo tempo, uma pessoa “de carne e osso, com suas dores e aflições”.
Nessas narrativas breves, Denise escreve sobre injustiças, tristezas e, claro, vitórias. Atua no terreno da ficção, mas não foge da realidade, tocando em questões que ela própria vivenciou. “Houve momentos em que não pude conter as lágrimas. Quando mergulhamos no passado e revivemos aflições, acabamos por senti-las novamente. Em contrapartida, ao reviver as vitórias, foi prazeroso. E o que eu tinha por objetivo se concretizou, sempre colhemos o melhor após uma grande tempestade”, comenta a autora, celebrando o fato de, agora, ter conseguido tocar em assuntos que são tabus para boa parte da sociedade.
“Foi muito desafiadora essa experiência. Eu desejava passar por ela há algum tempo. Muitos assuntos que relatei foram, durante boa parte de minha vida, proibidos de serem comentados, fruto de uma educação repressora e dominadora em que o patriarcado foi muito marcante. Sempre me incomodei com tudo isso e o que mais desejava era ter liberdade para escrever e dizer o que sentia e na época não podia. Enfim consegui. Sinto-me realizada”, afirma.
Denise Doro é professora. Nasceu em Miguel Pereira (RJ), mas vive em Juiz de Fora. Aqui, integra a Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (Leia/JF) e participa do grupo Café com Poesia e Arte. Estreou na literatura com “Saltando as amarras”. Em seguida, lançou “O jogo da vida”. Além disso, possui participações em coletâneas e faz palestras em escolas e em grupos de literatura.
Marisa Loures – Você escreve que “Saltando as amarras”, seu livro de estreia, “traduzia uma Denise diferente da que as pessoas conheciam e imaginavam”. O que diferencia a Denise da vida e a Denise que se apresenta aos leitores por meio da escrita?
Denise Doro – Certamente uma mulher mais corajosa, com ímpetos de mostrar o que sente, o que a incomoda. Também seu lado amoroso e determinado. A resiliência em muitos momentos vividos em que outras pessoas talvez tivessem desistido. A Denise escritora transgride uma educação recebida na infância que a reprimia e impedia de externar seus pensamentos com liberdade de expressão.
– A também escritora Emanuelle Ferrugini destaca que “O sabor da vitória” nos permite conhecer “uma autora que é uma fortaleza de mulher”, mas que também “é de carne e osso, com suas dores e aflições.” Quais são as inquietações que você levou para esse novo livro?
– São inúmeras, algumas vividas por mim em alguns momentos de minha existência. Através do tempo, constatei que as adversidades serviram para meu fortalecimento e, consequentemente, ao alcançar a vitória, esta teve um sabor especial.Tive o cuidado de transmitir ao leitor que nossas angústias e aflições são também vividas por inúmeras criaturas, cada uma em sua individualidade. Portanto, preocupei-me em relatar fatos que incomodam a sociedade como um todo e dos quais poucos ousam falar. A pedofilia é terrível e existem milhões de vítimas diariamente no mundo e, até pouco tempo atrás, pouco se falava disso. Parece que havia um interesse oculto em escondê-la. Já, quanto à violência contra a mulher, que a todos causa dor, acredito que o sofrimento de uma é o de todas nós. Hoje a mídia divulga mais, porém ela ainda continua de forma cruel persistindo em nossa sociedade. Enfatizei a perda de filhos. Vivi isso e acredito que seja uma dor inesquecível para qualquer mãe. Mostrei que podemos superar essas dores e continuar a caminhada mais fortes e preparadas para ajudar quem enfrenta tais problemas.
– Você confidencia que, em “O sabor da vitória”, “revela-se uma autora capaz de ousar na escrita, tocando até em assuntos considerados delicados e tabus por alguns conservadores.” Essa sua confidência me passou a impressão de que escrever sobre esses assuntos foi um pouco desafiador e me fez lembrar de uma frase que já ouvi de um escritor: “O Brasil não gosta de se ver no espelho”. Acredita que essa seja a causa para que muitas pessoas não aceitem que se toque em temas considerados tabus?
– Acredito que sim, porque, fatalmente, evitamos tudo que nos incomoda. Eu relutei um pouco. No entanto, sentia uma necessidade imensa de tocar nisso, pois sempre gostei de desafios, e esse seria um enorme desafio para mim.
– Você segue com o lançamento deste livro. Quais são os planos para ele?
– Tenho como objetivo levá-lo o mais longe possível por meio de um projeto pronto para visitar escolas, faculdades e grupos literários. Com ele, poderemos levar a uma análise profunda de como nossa sociedade se comporta diante de temas, como relações homoafetivas, violência contra a mulher, feminicídio e pedofilia. Temos que encarar e discutir de frente tais assuntos. O amor é a arma transformadora e parece que está sendo esquecido. A falta de respeito reina e a liberdade de ser o que se deseja idem. A conscientização só se fará com o debate sobre esses assuntos tão importantes. Meu livro está disponível para a venda direta ao leitor no meu Instagram @denisedoroescritora, e, no final deste mês, estará na Galeria Secreta .
“O sabor da vitória”
Autora: Denise Doro
Editora: Gryphon Edições, 120 páginas