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Um Beatle morto e muitas mulheres fazendo quadrinhos

Por Júlio Black

15/07/2020 às 07h00 - Atualizada 14/07/2020 às 14h10

Acredito que meus ah migos e ah migas, em algum momento, já se depararam com alguma dessas besteiras que chamam de “teoria da conspiração”. Geralmente são patetices que só servem pra fazer a gente rir, como “Elvis está vivo”, “a Terra é plana”, “o homem não foi à Lua” e “Paul (McCartney) está morto”, talvez a mais antiga da falta do que fazer da modernidade.

Pois bem. Dois quadrinistas italianos, Paolo Baron (roteiro) e Ernesto Carbonetti (desenhos) – também músicos e fãs dos Beatles -, resolveram pegar uma das mais famosas teorias da conspiração do rock e transformar em uma graphic novel. O resultado foi “Paul is dead: When The Beatles lost McCartney” (“Paul está morto: Quando os Beatles perderam McCartney”), lançada pela Image Comics em junho e que está com a versão ianque à venda no Brasil.

Para quem não teve o desprazer de conhecer a “teoria” ligada aos quatro rapazes de Liverpool, diz a lenda que Paul McCartney morreu em um acidente de carro em novembro de 1966, quando os Beatles gravavam “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Com a fama na estratosfera e dinheiro entrando na área feito o ataque alemão no inesquecível 7 a 1, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison teriam decidido continuar com a banda tendo um sósia (!) no lugar de Paul, e, apesar deste precisar ser o segredo mais bem guardado do universo, eles teriam decidido arriscar a sorte deixando pistas (!) sobre a morte do companheiro em suas músicas e até em capas de álbuns.

Enfim, cada um acredita na besteira que quiser, mas Baron e Carbonetti resolveram imaginar o que aconteceria se Paul realmente tivesse morrido. A graphic novel mostra, então, os Beatles sobreviventes tendo que lidar com o anúncio feito por Brian Epstein, então empresário do grupo, de que Paul teria morrido no acidente mas teve o corpo escondido pelo governo por questões de “segurança nacional”. John, Ringo e George, porém, decidem investigar por conta própria os últimos momentos de vida do amigo, numa história que ainda tem uma trama paralela que corroboraria a teoria dos fanáticos – e final surpreendente.

“Paul is dead” é o tipo de quadrinho que dá gosto de ler, com ótimo roteiro de Paolo Baron – com direito a citações de músicas do Fab Four – e Ernesto Carbonetti entregando um trabalho de ilustração deslumbrante, aproveitando o clima de psicodelia do final dos anos 60 para caprichar nas cores e nos delírios visuais. A graphic novel conta ainda com as participações especiais do produtor George Martin, do engenheiro de som Geoff Emerick e da primeira formação do Pink Floyd, que estava nos estúdios de Abbey Road na mesma época para gravar seu álbum de estreia.

Também temos quadrinhos nacionais, começando por “Gibi de Menininha 2: O faroeste é mais embaixo”. A parada é um projeto idealizado por Germana Viana (“As empoderadas”, lembra?) que reúne roteiristas e ilustradoras mulheres para criar histórias de terror-suspense-e-muito-séquiço. Em 2018, o primeiro volume – que ainda não li, mas quero – faturou o Troféu HQ Mix de melhor publicação mix e o Prêmio Angelo Agostini na categoria melhor lançamento.

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Logo não demorou para termos uma segunda edição, lançada em 2019, que adicionou o western à equação. Além de Germana, participam do projeto Camila Torrano (capa), Camila Suzuki, Clarice França, Dane Taranha, Fabiana Signorini, Ju Loyola, Katia Schittine, Milena Azevedo, Rebeca Puig, Renata C B Lzz, Roberta Cirne e Sueli Mendes. O resultado das sete histórias curtas é muito divertido, com sede de vingança, suspense, bangue-bangue, terror, sangue, tripas, demônios e sexo para quem gosta de safadeza das boas.

E por falar de safadeza das boas, recebemos também os três números dos “Catecismos de Mama Jelly Bean”, a mestre de cerimônias do “Gibi de Menininha”.  Cada exemplar tem apenas uma historinha bem curta e ótima, mas é só para quem curte o violento esporte bretão sem preconceito algum.

Para encerrar, lemos ainda “Ânsia eterna”, de Verônica Berta, publicada pela Sesi-SP Editora. Com pouco mais de 50 páginas, o título adapta para as HQs três contos do livro homônimo de Júlia Lopes de Almeida, uma dessas grandes escritoras do século XIX que aos poucos vão sendo redescobertas graça ao engajamento das feministas – e olha que a moça foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, da qual não pôde ser membro porque mulheres só passaram a ser aceitas pela ABL apenas em 1977.

Os três contos apresentam personagens e histórias em que a tragédia, a solidão, o grotesco e o suspense, a morte e outros paranauês nos fazem ter uma vontade danada de conhecer os livros de Júlia – eu, da minha parte, já tinha “A falência” na lista de leituras futuras, agora “Ânsia eterna” também está no meu aplicativo de livros e vai furar a fila.

A vontade de conhecer o trabalho da autora aumentou, claro, graças ao trabalho de Verônica Berta, que além de ter um traço pessoal, forte, assombroso, às vezes pinturas levadas para os quadrinhos, parece ter pegado o melhor de cada história original e condensar tudo de forma perfeita na HQ.

Além de caçar todos esses bons quadrinhos, nossos 14 leitores podem aproveitar e curtir a playlist da coluna, “…E obrigado pelos peixes”, lá no Spotify e Deezer. São quase 130 horas de boa música para quem cansou dos mesmos artistas cantando as mesmas coisas.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

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