Papo de barbeiro

Por Wendell Guiducci

19/12/2017 às 07h00 - Atualizada 18/12/2017 às 15h43

Toda vez que sentava na cadeira do barbeiro era a mesma piada: “E aí, Alemão? Corta em cima e pica atrás?”.
Não teve uma vez, nos mais de dez anos em que eu cortei meu cabelo naquela pequena barbearia – não existia esse negócio de barber shop ou hair design – da Avenida Raul Soares, na pequena e pouco pacata cidade de Ubá, que o distinto não trazia à baila o dito chistoso.
Mesmo assim eu continuava indo lá. Ele fumava um cigarro atrás do outro, fazia todas as piadas sexistas que se possa imaginar, e eu continuava indo lá.
Porque com barbeiro – cabeleireiro ou hair designer – a gente desenvolve essa relação de fidelidade meio inexplicável.
Se o cara dá uma barbeirada a gente perdoa. No trânsito não, mas no salão? Tranquilo. Navalhada, idem.
Mesmo já vivendo em Juiz de Fora eu ia lá cortar meu cabelo com o “Alemão” na Raul Soares.
Eu, que de alemão só tenho o “Wendell” na carteira de identidade, voltava e voltava e voltava.
Pra ouvir a mesma piada.
E sair com o cabelo fedido de cigarro.
Só quando terminei a faculdade e me mudei para São Paulo é que larguei o bendito “Corta em cima e pica atrás”. Não dava pra ficar três meses sem dar um tapa no topete.
Mas lá na Pauliceia não tinha problema de piada. Em geral, paulista não fala com estranhos muito além do estritamente necessário.
De volta a Jufas City, vínculo perdido com o “Alemão”, fui aparar o pelo com uma cabeleireira. Nossas conversas giravam em torno de artes plásticas – ela era pintora, eu repórter de cultura e desenhista de parcos recursos -, tipos de telas, tintas, técnicas etc.
Preparou meus cachos para o casamento, inclusive.
Mas não seguimos juntos por muito mais tempo, pois ela se mudou e a nova localização tornou-se inviável para o meu corre-corre cotidiano.
Fui então para um bom camarada que ficava no caminho do trabalho. Foram mais de dez anos ali, conversando sobre os filhos, os feriados, o trabalho e a política local, assuntos preferenciais do referido penteador.
(Reconheçam a regra: quem tem a tesoura é que pauta a conversa.)
Há poucos meses mudei novamente de barbeiro, para dar preferência a um fera que abriu seu próprio negócio – e fica mais perto de casa. Gosta do Vasco da Gama e de música, de café e de cerveja, e nossos papos vão por essa seara.
Prevejo aí mais uma década de fidelidade, dessa cumplicidade com hora marcada que, sabe-se lá porque, acorrenta a gente às poltronas giratórias.
Num período de 30 anos, entre o “Alemão” e o vascaíno, exceção feita ao paulistano geladão, este couro agora pouco cabeludo esteve à mercê de apenas quatro profissionais das artes capilares.
Quatro em 30 anos.
Ora, tem gente que em muito menos tempo já teve quatro esposas.
Já começou e acabou bem mais que quatro amizades.
Amor de carnaval então, nem brinca.
Que com o coração a gente até deixa brincar, mas com o cabelo… ah, o cabelo exige compromisso.
Destreza com o aço das tesouras.
E, sobretudo, um bom papo.

O conteúdo continua após o anúncio
Wendell Guiducci

Wendell Guiducci

Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia