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Wysko Amadeu Fernandes, seu servo

Por Wendell Guiducci

19/04/2022 às 07h00 - Atualizada 18/04/2022 às 14h33

Existe no município de Barra de São Miguel, arredores de Maceió, capital do grande estado de Alagoas, um excelente guia turístico. Atende pelo nome de Wysko Amadeu Fernandes, um nosso parente brasileiro, sangue índio, português, negro e holandês. Seu pessoal, garante, de um lado descende do grande Domingos Fernandes Calabar, e de outro, da linhagem guerreira de sua inimiga Clara Camarão. “Nossa gente é fruto de amor e sangue, como toda vida na Terra.”
Wysko desconhece leis de trânsito e ignora qualquer equipamento de segurança básico em seu jipe Willys, “um mimo do presidente João Figueiredo de quando esteve por aqui em 1985 e se afeiçoou demais por minha pessoa”. Apontando para um areião à direita da estrada, afirma que ali foi disputada a primeira partida de futebol no Brasil, por volta de 1840, uns 30 anos antes de os ingleses inventarem o esporte. “Foram os índios caetés que inventaram o jogo de bola, jogavam com a cabeça do bispo Sardinha, que encontraram mumificada perto de onde fica hoje a igrejinha de Santana.”
Não há um palmo de Barra de São Miguel que não tenha uma ótima história na companhia de Wysko. Inventa pontos turísticos como um guitarrista de jazz inventa acordes. Deturpa a biografia de personagens históricos, cria outros de sua imaginação prodigiosa, inverte datas e lugares e não tem o menor problema em colocar coisas onde elas não estão. “Tá vendo aquele farol lá? Meio tombado, lá no meio do mar?” E a gente não vê farol algum. “Vai no oculista quando voltar pra Minas então. Naquele farol ali, que o mar já vai engolindo pouco a pouco, Roberto Carlos parou de jangada e compôs ‘Lady Laura’. O violão era meu.”
Aos poucos a gente vai percebendo que Wysko gosta mesmo é de falar, mais ainda que de tomar dinheiro de seus clientes, o que faz com graça e voracidade. Um extra pra isso, um extra praquilo e já estamos descapitalizados (mas aceita pix) antes de chegarmos às margens do Rio São Miguel, no exato local em que Américo Vespúcio, segundo Wysko, no ano da graça de 1501, fez o primeiro churrasco da história do Brasil. “Foi de capivara, a mesma carne que os senhores vão saborear agora numa receita tradicional, revista e atualizada por esse que vos fala.” E põe-se a espetar carne de porco claramente extraída de uma embalagem a vácuo estampada com a cara do Sérgio Reis.
Ao fim do passeio, um pouco ardidos do sol mormacento, levamos para casa as lembranças de dois mundos: a concreta e desbundante paisagem da cidadezinha pacata e ainda pouco turística ao Sul de Maceió; e o universo fantástico que só na existe na cabeça de Wysko Amadeus Fernandes, “seu servo”, guia, churrasqueiro-arqueólogo, piloto de jangada de Roberto Carlos, insuspeito Jorge Amado semiletrado atrás do volante puído do velho Willys.

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Wendell Guiducci

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