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Por fones de ouvido gratuitos

Por Wendell Guiducci

08/10/2019 às 07h06 - Atualizada 08/10/2019 às 14h52

Duvide, hodierno leitor, de um cronista que comece seu arrazoado com “antigamente é que era bom”. “No meu tempo”, pior ainda. Duvide muito. Seja cronista ou qualquer falador de epíteto menos pomposo. “Naquele tempo”, vá lá, ainda coloriria o texto de litúrgica ironia. O caso é que esse negócio do “antigamente que era bom” desvela de imediato certa amargura, indisfarçável desconforto com a contemporaneidade, da qual ser urbano algum escapa. Aliás, mesmo seres rurais raramente logram êxito em escapulir das agruras de seu tempo. Aceita que dói menos.

Mas dói.

Quem consegue escapar, por exemplo, dessa gente assistindo vídeo no YouTube no último volume em seus celulares na recepção do dentista? Já não nos basta sofrer na famigerada cadeira articulada, a broca comendo solta no segundo molar inferior? Como evitar aquela moça escutando áudio de 4 minutos e meio enviado no grupo da família e acessado a muitos decibéis na antessala do curso de inglês? Na fila do banco. Na poltrona do ônibus da Util. Não sou de frequentar, mas não duvido que até na missa pinte aí um gemidão do zap, ou o cantor flamenguista Bruno Henrique interpretando “Pirata e tesouro”. “É verdade, é verdade, laialalalaiá, tchurururururu.” Só Jesus na causa. Jorge Jesus.

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Tão ligada às modernidades celuláticas, essa gente não se dá conta de que um artefato criado muito antes dos smartphones resolveria esse problema (meu): os fones de ouvido. Grande invenção da humanidade. Remonta aos tempos do walkman, que era um negócio muito chique que tocava fitas cassete e só você – pasme, imberbe leitor! – só você ouvia! Sei que muitos de vocês usam. Costumam inclusive ser atropelados por isso. Preço justo a se pagar pelo compromisso com a saúde mental da população em geral. Estão de parabéns pelo esforço e sua dor não será esquecida.

Não leve a mal a rabugice, mas observe: o que aconteceu com os silenciosos revisteiros dos consultórios médicos? Desapareceram! Aquela revista “Caras” com a segunda lua de mel de Roberto Marinho no Japão? Com Zico à beira da piscina explicando porque deixou o Governo Collor? Kelly Key casando com um cara que não é o Latino? Sumiu tudo! É o louvor do áudio, a dileção do vídeo, o assassinato lento da leitura e, sobretudo, uma ameaça à paz de espírito do cidadão brasileiro. O silêncio faceia seu ocaso.

(Salvo meia dúzia de doidos, como se sabe, desde o século IX a gente lê em silêncio e, uma vez em silêncio, tende a não incomodar o coleguinha do lado com música ruim ou com a ladainha da Tia Dorinha, que anda mal dos quartos.)

Já que escasseiam-se os revisteiros, carregar livro na bolsa é coisa anacrônica na sociedade hiperconectada e o jogo da cobrinha no Nokia 3310 finou-se naquele tempo que era bom, que ao menos sejam oferecidos fones de ouvidos gratuitos em todas recepções e salas de espera do Brasil. Proponha-se um projeto de lei. Eu, que não uso, recomendo fortemente. É uma forma de proteger a coletividade do assédio sonoro. Ainda que você venha a ser atropelado no cruzamento da Rio Branco com a Independência, distraído com um áudio que começa com “Bom dia, famíííííííííliaaaaa”, será em nome de nobre causa. Pois me diga: o que são uns ossos quebrados diante da paz mundial?

Wendell Guiducci

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