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Juiz de Fora: o apito final

Por Wendell Guiducci

05/11/2019 às 07h02 - Atualizada 05/11/2019 às 07h13

Apoia-se ao meu lado na mureta do Bar Cascatinha insuspeito barbado de ralos fios brancos. Na TV, o Flamengo trucida mais uma vítima sem qualquer piedade. Sem tirar os olhos da tela, o Matusalém me confidencia que já esteve aqui.

Esteve em Juiz de Fora.

No dia de seu juízo final.

O fim veio junto com o derradeiro apito da Joalheria Meridiano, ao meio-dia de uma terça-feira, ele relata.

Do céu desceram anjos de túnicas alvinegras trazendo consigo uma chuva de ais. Das tumbas ergueram-se todas as mulheres mortas em busca de seus filhos e netos, que conduziriam pela mão ao limbo do nada absoluto.

Para vós não mais pastel da Mexicana, não mais hambúrguer do Mary Milk, não mais coxinha da Pipita, não mais, não mais.

Nas janelas de todos os prédios da Rua Halfeld, capivaras agitavam bandeiras celebrando o fim de seu apartheid. Eram delas os sofás e a internet e o forno micro-ondas e as cenouras congeladas. No ar flanava em loucas piruetas o bicicleteiro Carlinho e seu silvo infernal, trazendo esvoaçante capa onde cintilava a palavra “PAZ”. (Seus olhos flamejavam)

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Acorriam para as escadarias da Igreja da Glória todos os mestres cervejeiros cenobitas, rumo às catacumbas, levando às costas sacos de ossos de padres exumados. Ali, nos subterrâneos do Morro da Providência, os alquimistas do fim do mundo hão de produzir, de santificados restos mortais, o perfeito mosto.

Da fachada do Edifício Clube Juiz de Fora fugiam os cavalinhos de Portinari, atendendo ao assovio de sete estátuas de bronze que marchavam do Museu Mariano Procópio à casa de Arnaldo Baptista para um último tango no Graminha.

O cavalete armado no cume das Repartições Municipaes, Dnar Rocha ressurreto pintava seu próprio “Jardim das delícias terrenas” com alegres horrores multicoloridos. Os enforcados do Parque Halfeld, as prostitutas de duas cabeças da Baixa Floriano, o Paraibuna um leito de lava, Santo Antônio de volta ao Morro da Boiada, amém, amém.

Adriano, novamente o 666, regia no palco da Praça Antônio Carlos uma orquestra de mil crianças guitarristas, a sinfonia da destruição de megamortes, os tijolos da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas ardendo ao lado em seu incêndio terminal.

Para vós não mais Mascarenhas Meu Amor, não mais Fantasma do Mineirão, não mais a estrela platinada do progresso que cruza de lá para cá a BR-040 sem jamais aqui pousar sua luz de maçarico, não mais, não mais.

Disse-me essas coisas, o Filho de Enoque em manto rubro-negro modelo 1995, enquanto bebericava um perfeito rabo de galo e pitava seu cigarro de palha.

Na TV, o jogo é findo.

Ai de ti, Juiz de Fora. Que esse teu dia não esteja prestes.

Wendell Guiducci

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