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Os carnavais de Marlí

Por Wendell Guiducci

05/04/2022 às 07h00 - Atualizada 04/04/2022 às 15h24

Apareceu certa vez na cidade de São João Nepomuceno um forasteiro de nome Beto. Chegou para gerenciar uma fábrica têxtil e dali não saiu mais. Afeiçoou-se por uma cortadeira chamada Marlí, a quem jurou amor eterno e logo pediu em casamento. Homem de hábitos simples, impôs uma única condição: ela nunca o veria durante os quatro dias de carnaval, e sobre isso jamais deveria ser questionado. Firmado tal contrato, sua conduta seria de total devoção àquela que, asseverava, era a mulher de sua vida. Marlí resistiu de início, estranhou, mas por fim aceitou. Deveria ser brincadeira dele.
Casaram-se em uma cerimônia simples, mas muito bonita, no dia 5 de abril, na Igreja do Rosário. Todo o prometido passou a ser cumprido desde o momento em que desceram as escadas, sob as bênçãos do Cristo Redentor. Beto vivia apenas para o trabalho e para Marlí. Não tinha vícios. Uma cervejinha nas festas de família era o máximo que se permitia. Não jogava bola. Não jogava baralho. Não ligava para automóveis. Não faltava à missa dominical. Não se irritava nem procrastinava nos serviços de casa. Cozinhava. Lavava louça. Sua vida era a família e a fábrica.
Também provando ser homem de palavra, à zero hora e um minuto do primeiro sábado de carnaval, Beto colocou sob o braço uma valise de couro vermelho surrada, como se houvesse pertencido a caixeiros-viajantes de tempos imperiais, beijou a testa da esposa e saiu de casa. Enfim a brincadeira dele, claro. Não poderia um homem com a conduta de Beto sair no meio da noite se não fosse para acudir algum enfermo ou ir à farmácia em busca de Ponstan. Quem sabe atender à Missa do Galo. Mas Beto retornou somente ao meio-dia da quarta-feira de cinzas, barba bem-feita, a mesma roupa impecável e trazendo sob o braço a valise vermelho-velha. Marlí fez menção de questionar onde estivera, mas um olhar de navalha cortou suas palavras ainda na garganta.
A rotina foi retomada e perdurou por anos e anos. Beto um trabalhador aguerrido, cristão convicto, marido modelo, incapaz de qualquer indelicadeza com Marlí e feitor de todas as suas vontades, que não eram muitas pois ele as adivinhava antes que a esposa as manifestasse. Vieram três filhos criados no amor e cientes de que não haveria jamais um carnaval ao lado do pai. Em todos eles, Beto alcançava a pasta vermelha no alto do guarda-roupa, lacrada por um pesado cadeado de latão, cuja chave ninguém jamais vira, e partia para sua misteriosa jornada de quatro dias e meio.
Esta foi, durante quase três décadas, a vida de Marlí e Beto, um casal exemplar para toda a comunidade de São João Nepomuceno em 360 dias do ano. Naqueles dias entre o sábado de carnaval e a quarta de cinzas, todavia, persistiu o mistério que ainda hoje resta insolúvel. Pois Beto não está mais entre nós. No ano passado, pela primeira vez em 27 anos, ele não saiu de casa na data profana. Cancelados os festejos em função da grande pandemia, ficou acamado todos os dias, sem nenhum tipo de sintoma que acusasse mal físico. Mas dali por diante não foi mais o mesmo. Pouco falava com Marlí e os meninos. No trabalho tornou-se relapso, e na igreja, infrequente. Quando no início deste ano foi anunciado o novo cancelamento da tradicional folia, Beto caiu em mortal prostração, vindo a falecer em fins de março. No alto do guarda-roupa, persiste a valise vermelha. Não há lugar onde se encontre chave, tampouco coragem de abri-la à força.

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Wendell Guiducci

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