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Vidas perdidas

Por Wendell Guiducci

02/03/2021 às 07h00 - Atualizada 01/03/2021 às 15h23

O leitor não me leve a mal se peço, pelos próximos minutos, que “esqueça os mortos, que eles não levantam mais”. Roubo o verso de “Negro amor” dos dedos de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, tradutores de Bob Dylan. Pode parecer insensibilidade deste cronista no país que já perdeu mais de 1% da sua população para um vírus letal e para um governo de ineptos. Ainda assim, peço que esqueçamos, brevemente, somente pelas próximas linhas, as mais de 250 mil vidas perdidas. Concentremo-nos por uns instantes na vida, a vida que os que seguem vivos também têm perdido. Especialmente os jovens vivos.

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Tenho pensado especialmente nos adolescentes. Nas meninas debutantes. Nos meninos e seus buços constrangidos. Nesses jovens que mudaram de cidade e não puderam conhecer ninguém, enfurnados em seus quartos. Nos que mudaram de bairro, de escola, e não travaram a deliciosa descoberta das novas amizades, dos novos amores, das novas decepções. Penso nessas pós-crianças com suas caras espinhentas enfiadas na tela azul-mortícia de seus celulares, exercendo ali o que deveriam estar fazendo na pracinha do bairro, na porta do colégio, nas festinhas que são tantas, escola de uma vida que não está nos livros nem nessas redes antissociais.

Quanta vida perdida nesse longo ano de reclusão? Em seu lugar, a vida mediada por telas: tela para estudar e não aprender, para namorar e não se apaixonar, para falar e não confidenciar. Tenho pensado no cigarro dividido atrás do muro, no amargor da primeira cerveja, no frio na barriga quando a paixonite entra na sala abraçada a seus livros. Quanta vida perdida entre eles, que deveriam ser os mais vivos entre todos os vivos, maremoto de hormônios a bombear o sangue juvenil. Descobrindo o mundo, quebrando a cara, fazendo bobagem. Vivendo, enfim. Mas no lugar da vida, esse arremedo de existência, navegando à deriva na superfície rasa das telas de cristal líquido, olhos zumbificados numa viagem sem destino nem hora pra acabar.

Wendell Guiducci

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