É o fim da carreira aspiracional? Por que as novas gerações não querem mais a vida dos seus líderes

O que significa ter sucesso para você?

Por Marcelle Tristão

O que significa ter sucesso para você?

Talvez essa pareça uma pergunta simples, mas a verdade é que ela tem se tornado cada vez mais complexa. Durante muito tempo, existia uma espécie de roteiro considerado ideal para quem desejava construir uma carreira de sucesso: estudar, conseguir um bom emprego, crescer dentro da empresa, assumir cargos de liderança e, aos poucos, conquistar mais reconhecimento, responsabilidades e remuneração.

Mas será que essa visão continua fazendo sentido para todos?

Se olharmos com atenção para o comportamento dos profissionais mais jovens, veremos uma mudança interessante acontecendo. Não porque eles deixaram de desejar crescimento ou reconhecimento, mas porque passaram a questionar se o modelo de sucesso que aprenderam a admirar é realmente compatível com a vida que desejam construir.

Afinal, quantas vezes você já ouviu alguém dizer que sonha em ser gerente, diretor ou executivo? E quantas vezes ouviu alguém afirmar exatamente o contrário?

Pode parecer uma mudança sutil, mas ela revela uma transformação importante na forma como enxergamos carreira, liderança e realização profissional.

O que mudou na forma como enxergamos o sucesso profissional?

Por muitos anos, sucesso e ascensão profissional caminharam praticamente como sinônimos. Quanto maior o cargo, maior era a sensação de realização. O crescimento profissional era medido pela posição ocupada na hierarquia e pelo reconhecimento conquistado ao longo do caminho.

Hoje, embora esses fatores continuem importantes, eles já não ocupam sozinhos o centro da decisão.

As novas gerações entraram no mercado de trabalho acompanhando discussões sobre saúde mental, qualidade de vida, propósito e equilíbrio. Além disso, cresceram observando profissionais extremamente bem-sucedidos que, muitas vezes, pareciam carregar uma rotina marcada por estresse constante, excesso de trabalho e pouco tempo para a vida pessoal.

Diante desse cenário, uma reflexão começou a surgir: será que chegar ao topo vale qualquer sacrifício?

Essa pergunta não significa falta de ambição. Pelo contrário. Ela demonstra uma busca por coerência entre aquilo que se deseja conquistar e o preço que se está disposto a pagar por isso.

Quando os líderes deixam de ser modelos de inspiração?

Vamos pensar em uma situação bastante comum.

Imagine um profissional que está iniciando sua trajetória dentro de uma empresa. Naturalmente, ele observa seus gestores, acompanha suas responsabilidades e tenta entender quais caminhos pode seguir no futuro.

Agora imagine que esse profissional percebe que seus líderes passam boa parte do tempo em reuniões, lidam constantemente com pressão por resultados, raramente conseguem se desconectar do trabalho e demonstram sinais frequentes de cansaço.

Diante desse cenário, qual mensagem você acha que está sendo transmitida?

Bem, em muitos casos, a sensação não é de inspiração, mas de alerta.

Isso ajuda a explicar por que tantas empresas têm encontrado dificuldades para formar novos líderes. Não porque faltem profissionais capacitados, mas porque muitos deles não enxergam esses cargos como um objetivo desejável.

Talvez a questão mais importante seja entender que ninguém aspira ocupar um lugar que parece representar apenas sobrecarga e renúncias.

As novas gerações não são menos ambiciosas

Existe uma ideia bastante difundida de que os profissionais mais jovens não querem assumir responsabilidades ou construir carreiras sólidas. Mas será que isso é verdade?

Quando observamos seus comportamentos com mais atenção, percebemos algo diferente.

Eles querem aprender, crescer, ganhar mais, desenvolver novas habilidades e conquistar espaço no mercado. A diferença está na forma como definem sucesso.

Para muitos profissionais, crescimento não significa necessariamente liderar equipes ou ocupar posições hierárquicas mais elevadas. Pode significar trabalhar com aquilo que gostam, ter autonomia, construir uma rotina equilibrada ou desenvolver uma especialidade reconhecida pelo mercado.

Em outras palavras, a ambição continua existindo, o que mudou foi o formato dela.

Se antes a pergunta era “como chegar mais longe?”, hoje ela parece ser “como crescer sem abrir mão de quem eu sou e da vida que desejo viver?”.

O que isso significa para o futuro das carreiras?

O mercado de trabalho está sendo obrigado a olhar para essa transformação com mais atenção.

Empresas que desejam atrair, desenvolver e reter talentos precisarão repensar não apenas suas estratégias de crescimento, mas também o próprio conceito de liderança.

Se os cargos de gestão continuarem associados a jornadas excessivas, pressão constante e falta de equilíbrio, será cada vez mais difícil despertar interesse por essas posições.

Por outro lado, organizações que conseguirem construir ambientes mais saudáveis, flexíveis e sustentáveis terão mais facilidade para desenvolver os líderes do futuro.

A boa notícia é que essa mudança pode beneficiar todos os envolvidos.

Quando a liderança deixa de ser sinônimo de sacrifício permanente e passa a representar desenvolvimento, influência positiva e equilíbrio, ela volta a ser inspiradora.

Talvez não seja o fim da carreira aspiracional

Voltamos então à pergunta inicial: estamos vivendo o fim da carreira aspiracional?

Talvez não.

O que parece estar chegando ao fim é a ideia de que existe apenas um modelo de sucesso profissional.

As novas gerações continuam sonhando, planejando e construindo suas carreiras. A diferença é que elas desejam que esse crescimento esteja alinhado aos seus valores, à sua saúde mental, aos seus relacionamentos e à vida que pretendem viver fora do trabalho.

E talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que estamos presenciando no mercado atualmente.

Porque, no final das contas, construir uma carreira nunca foi apenas sobre alcançar cargos maiores. Sempre foi sobre construir uma vida que faça sentido.

A pergunta que fica é: a carreira que você está construindo hoje está levando você para a vida que deseja viver amanhã?

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão é colunista do jornal Tribuna de Minas e da TV Alterosa, onde apresenta o quadro Negócios e Carreira. É mentora estratégica em liderança, negócios e carreira, palestrante e fundadora do Grupo M.Tristão, um ecossistema voltado ao desenvolvimento de pessoas e organizações.É coautora do livro Mulheres na Liderança: o poder de uma mentoria, pela Editora Leader, contribuindo ativamente para a formação e fortalecimento de lideranças femininas no Brasil.Conveniada à Fundação Getulio Vargas (FGV) em Juiz de Fora, é psicóloga e educadora com mais de 30 anos de experiência. Está à frente da Tristão Escola de Negócios, iniciativa dedicada à formação executiva e ao desenvolvimento de competências estratégicas para o mercado contemporâneo.Com mais de 1.000 horas de mentoria realizadas com CEOs, executivos de alto escalão e empresários, é especialista em gestão comportamental e inteligência emocional. Atua com foco em decisões, posicionamento e fortalecimento de lideranças em contextos cada vez mais digitais, exigentes e competitivos.

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