Vítimas vulneráveis

Mais de 150 animais domésticos são resgatados após chuvas em Juiz de Fora. Número de óbitos é desconhecido

Por Ana Paula Cappellano

Na segunda-feira (23) à noite, chuva torrencial, concluí um editorial com desejos de que nossos lares fossem sempre proteção para os animais. Terça de manhã, acordamos com a cidade desabada, e ao longo de uma semana inundada e sem fim para a Zona da Mata, milhares de famílias foram desalojadas, centenas perderam suas casas, dezenas suas vidas. Famílias multiespécies. 

Esses lares de gente e de bichos, Juiz de Fora afora, adentro, acima e abaixo, de proteção, por inúmeras razões, muito pouco ofereceram. Nos escombros, na lama, nas águas violentas das inundações, toda a vulnerabilidade exposta. 

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A veterinária Carla Sássi, do GRAD, em resgate de uma ninhada de gatos recém-nascidos em meio aos escombros (Foto: GRAD)

Socorro

Em situações de calamidade, os animais ficam ainda mais vulneráveis, especialmente nos centros urbanos, erguidos a tantas invisibilidades, inclusive a deles. “Os animais não estão inclusos nos planos de contingência, então, quando um desastre acontece, os municípios não estão preparados para atuar com nenhum tipo de ação em relação aos animais”, aponta Carla Sássi, médica veterinária e presidente do GRAD – Grupo de Resposta a Animais em Desastres, em Juiz de Fora para o socorro aos bichos desde 24 de fevereiro. 

Carla conta que encontrou aqui um cenário comum nos 15 anos de atuação do GRAD, onde sobra destruição e falta informação. “Hoje, praticamente todas as famílias têm algum animal e não temos um Censo de animais por residência. Acabam faltando muitos dados para que se consiga atuar em cima de números específicos”, observa. O grupo havia resgatado, até a última terça-feira, mais de 150 animais, entre cães, gatos e aves. 

Em desastres, muitas vezes, os bichos estão sozinhos em casa e, quando não estão, falta orientação. Esta é uma das atividades do GRAD durante suas missões, educar a população sobre o que fazer para protegê-los em situações emergenciais. “As pessoas saem no desespero e não estão preparadas para levar seus animais”, descreve Carla, que ressalta como os bichos sentem a mudança aguda nos ambientes e ficam desorientados, podendo se machucar e adoecer.

Sustentado por doações e com operações de alto custo, o GRAD deve seguir no município até a situação começar a se normalizar. 

Abrigo

Os animais resgatados pelo grupo passam por avaliação veterinária, com protocolo sanitário que inclui a vacinação e a desparasitação interna e externa, e são encaminhados para acomodações temporárias, antes de serem restituídos aos tutores, ou, em casos específicos, seguirem para adoção. 

Depois de esgotar a capacidade do Canil Municipal e a busca por lares temporários, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) montou com o GRAD e o GRABH – Grupo de Resgate de Animal de Belo Horizonte um abrigo emergencial para cães na Praça CEU – Centro de Artes e Esportes Unificados, em Benfica.

A Secretaria do Bem-Estar Animal (Sebeal) ressalta que a estrutura se destina às vítimas das chuvas, que não há barreiras burocráticas, mas organização no acolhimento dos animais, e que todas as providências tomadas seguiram as orientações técnicas do GRAD, com foco, entre outros, no controle sanitário. Ainda segundo a Sebeal, o grupo de resgate orientou separar os gatos dos cães, com as diferentes adequações de espaço necessárias, e por isso optou-se pelo aluguel de um imóvel à parte para acolher os felinos. 

O órgão da prefeitura, que segue recebendo doações, informou estar contando com apoio do Governo Federal com a determinação de R$ 180 mil para atender à crise, e que o abrigo para cães foi construído com recursos próprios do GRAD e GRABH

Despedida digna

Não há um número oficial de óbitos de animais domésticos nas chuvas de fevereiro em Juiz de Fora, mas existe a triste perspectiva de que esse dado possa se revelar no processo de retirada dos escombros e da lama nos bairros atingidos. 

Na funerária Vida Pet, que está atendendo as famílias desses pets sem custos, em parceria com a PJF via Sebeal foram realizados três sepultamentos até agora. “Entendemos que os animais, hoje, têm um papel fundamental dentro das famílias e da sociedade. E foi isso que pensamos, em tentar trazer uma dignidade para esses animaizinhos, e que as famílias, mesmo tendo sofrido com os problemas da chuva, pudessem se despedir ou até mesmo saber que o sepultamento, ou a cremação, foi de forma digna”, relata Marco Aurélio Marques, empresário e diretor da Vida Pet

O atendimento busca trazer conforto, direcionado ao luto e à psicologia da perda, e inclui a preparação dos corpos, os cuidados de higienização e salas reservadas, com ambientação sensorial, para velório. “Temos todo o acolhimento, desde a recepção. A família entra na sala de despedida, num lugar totalmente reservado, luzes, aromas, entre outras coisas, para que esteja mais tranquila”, descreve Marco Aurélio. Os animais são velados numa caminha de flores. “Pode acariciar, sentir cheiro, e é aí, nesse momento, que o nosso trabalho faz todo sentido”, reflete o diretor.      

Quebrando o ciclo

Os animais dessa tragédia sinalizam várias camadas de abandono. O das cidades, em uma série de ausências e desresponsabilizações no processo de crescimento urbano, o das populações, construindo e vivendo em áreas de risco. E, de novo, o dos animais de estimação, quando ficam para trás, quando perdem suas famílias ou são separados de seus tutores, impossibilitados de manter a guarda.                

O desejo de que nossos lares sejam proteção para eles, tanto quanto devem ser para nós, segue ainda mais convicto, e agora ele se soma à urgência de uma frente de ações capaz de quebrar esse ciclo. Que o socorro que resgata e salva nos ensine a proteger com a mesma força todas as formas de vida. Que o transtorno da calamidade não gere novos abandonos, que o ruído das redes sociais não nos confunda e não nos separe, e que a perplexidade e a dor do trauma sejam insumo na reconstrução de uma Juiz de Fora que não deixa ninguém para trás, nem sua gente, nem seus bichos.

Ana Paula Cappellano

Ana Paula Cappellano

Ana é jornalista pela UFJF, mas foi em redações e agências na cidade de São Paulo que consolidou seu trabalho, desenvolvido ao longo de mais de 20 anos no campo editorial, em revistas e jornais das áreas de saúde, direitos sociais e humanos, e design de interiores. Na capital paulista, atuou como redatora, coordenadora e editora em títulos tão diversos quanto Decoração e Estilo Casa by Olga Krell e Jornal Ação (CRESS-SP). Hoje, de volta às terras mineiras, atua profissionalmente no setor de ensino livre e no mercado criativo, e é publisher da revista independente Vida, Bicho, Casa, sobre animais de estimação, estilo de vida, bem-estar, casa e variedades.

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