As fogueiras da memória

"É ela que nos ajuda a compreender de onde viemos e para onde queremos ir"

Por Jose Anisio Pitico

Junho chega acendendo as fogueiras. Elas iluminam os quintais, aquecem os encontros e convocam nossas lembranças. Em torno delas, a cidade parece voltar a conversar consigo mesma. Tenho uma pergunta que arde dentro de mim: “o que fazemos com as memórias de quem envelheceu conosco?”.

Toda cidade possui duas geografias. Uma, que é feita de ruas, de prédios, de praças e de avenidas. Básica. Uma outra, segunda, que é mais profunda. Porque é construída pelas histórias de vida de quem as percorreu. Uma cidade sem memória de sua gente é mais uma cidade, uma cidade morta, de concreto: Se despreza as pessoas idosas, corre o sério risco de desaparecer, de esquecer de si mesma. De se “alzheimear-se”.

As pessoas idosas – não custa nada repetir, e é bom que eu repita – são guardiãs de um patrimônio que não cabe nos museus da cidade. Elas carregam mapas humanos invisíveis. Sabem, por exemplo, onde corria o córrego que foi canalizado, o nome do cinema que tinha na Avenida, quais lutas construíram os direitos que hoje parecem naturais. Seus corpos trazem marcas do tempo. Suas memórias carregam as marcas da cidade.

É bom também que se diga e reforce, meu caro leitor e leitora, que memória não é algo sem vida. Memória é organismo vivo, ferramenta política. É ela que nos ajuda a compreender de onde viemos e para onde queremos ir. Portanto, uma cidade que escuta as suas pessoas idosas ganha profundidade. Por outro lado, uma cidade que as ignora está arremessada à superficialidade.

Nesse mês frio de junho vamos acender mais fogueiras da memória! Não apenas as de lenha que assam batatas doces, mas as fogueiras humanas que queimam as nossas almas: as que são feitas de rodas de conversas, onde apreciamos o cruzeiro no céu de estrelas, enquanto nossas histórias são compartilhadas. Vamos acender fogueiras onde a nossa experiência não seja vista como coisa velha, mas como combustível para o futuro.

O desafio é grande, pessoal! Estamos numa ditadura da velocidade, a vários cliques no celular. Tudo precisa ser novo, rápido, muito rápido e descartável. Nós, pessoas idosas, com o nosso tempo mais reflexivo, acabamos nos tornando uma espécie de resistência guerreira –  e somos mesmo contra essa lógica dominante, que chega a ser desumana. Quem escuta uma pessoa idosa escuta mais do que uma biografia. Escuta uma parte da cidade falando. Escuta as ruas que já mudaram de nome, árvores que já foram cortadas, sonhos que deram certo e outros que ainda esperam acontecer.

Precisamos criar mais espaços de escuta. Mais rodas de conversas. Mais encontros entre as gerações. Mais oportunidades para que as nossas memórias circulem. Porque memória presa em silêncio corre o risco de virar cinzas. Quando uma pessoa idosa morre, leva com ela uma biblioteca inteira de histórias, sentimentos e saberes.

Está na hora de a gente acender as fogueiras da memória. Não para contemplar nostalgias, nem para chorar pelo leite derramado, mas para aquecer o presente. Afinal, eu penso que uma cidade
verdadeiramente humana, não é aquela que apenas constrói o novo. É aquela que sabe manter a chama de tudo aquilo que merece ser lembrado.

Uma cidade não sobrevive pelo número de prédios que tem, mas, pelo que preserva em afeto de seus cidadãos e cidadãs.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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