O fim de uma forma de estar no mundo

Na coluna deste domingo, o jornalista Marcos Araújo reflete sobre como esses aparelhos foram fundamentais no cotidiano dos brasileiros e como ainda ocupam um lugar significativo na memória afetiva de muitas pessoas

Por Marcos Araújo

Jose Cruz Agencia Brasil
O orelhão, naquele momento, deixava de ser objeto e virava um palco improvável, mas suficiente para fazer daquele instante uma lembrança que ainda toca (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Puxa vida, o orelhão vai deixar de existir nas ruas de todo o Brasil! Eu sei que a existência deles quase já não tem utilidade, contudo, a sua presença, rara em algumas localidades, servia como marca de um tempo. Um tempo que ficou para trás, só que deixou muita saudade. Sim, porque eles foram testemunhas para o início de namoros, para confissões sussurradas, para matar as saudades ou para conversas apressadas e despretensiosas, ou até mesmo para pedir socorro. Sem esquecer que também funcionavam como ponto de referência para encontros marcados. 

Neste mês, começa a remoção em massa de carcaças e aparelhos desativados. A ideia é que os famosos telefones públicos sejam retirados definitivamente do país em dois anos. Eu entendo que o gesto é prático e inevitável, mas também carrega consigo um tipo de apagamento simbólico, uma vez que, assim, também desaparece uma forma de estar no mundo. 

Por incrível que pareça, já que estamos na época da telefonia móvel e das trocas de mensagens instantâneas, o Brasil ainda contava com cerca de 30 mil aparelhos. A minha mais remota lembrança envolvendo um orelhão tem a ver com música. Antes da presença das plataformas de streaming, era nas rádios que os jovens tinham acesso aos lançamentos. Havia programas em que a gente podia ligar para pedir o sucesso desejado. Lembro-me de muitas vezes ter telefonado de um orelhão que ficava na rua da minha casa. 

Era divertido ficar tentando completar a ligação até ser atendido, e, muitas vezes, ter que pedir a música no ar. De um lado, era a voz do locutor. Do outro, a expectativa dos amigos que, na retaguarda, vibravam em silêncio. O orelhão, naquele momento, deixava de ser objeto e virava um palco improvável, mas suficiente para fazer daquele instante uma lembrança que ainda toca.

Pelo que li no noticiário, a partir deste mês, a Anatel dará início à remoção gradual de aparelhos desativados, principalmente em capitais e grandes centros urbanos. Em cidades onde ainda não há cobertura adequada de telefonia móvel, os telefones públicos poderão ser mantidos até 2028. 

Como compensação pela extinção dos orelhões, as operadoras deverão redirecionar os recursos antes destinados à telefonia fixa para investimentos em banda larga e redes de telefonia móvel. A intenção é modernizar a infraestrutura de comunicações e ampliar o acesso à internet em todo o país. Espero que esse apagamento do orelhão na paisagem urbana sirva, de fato, para isso!

Criado em 1971, os orelhões rapidamente se incorporaram ao cotidiano da população. Eles eram uma mão na roda, porque telefone em casa era caro e quase ninguém tinha. Inicialmente, funcionavam com fichas telefônicas, pequenas moedas próprias para ligação, que mais tarde deram lugar aos cartões telefônicos, itens que também se tornaram objeto de coleção e memória afetiva. 

Em 2026, o aparelho completa 55 anos, consolidando-se como um dos maiores ícones do design urbano brasileiro. Talvez não esteja mais nas ruas, mas segue vivo em quem ainda se lembra do som da chamada, da ansiedade da espera e da sensação de existir, por alguns minutos, do outro lado da linha.

 

Marcos Araújo

Marcos Araújo

A Tribuna de Minas não se responsabiliza por este conteúdo e pelas informações sobre os produtos/serviços promovidos nesta publicação.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Leia também