Uma forma de não perder nossa sensibilidade

Na coluna deste domingo, o jornalista Marcos Araújo propõe uma pausa: em meio à pressa das plataformas digitais, ele revisita o gesto de ouvir um CD para pensar o que estamos perdendo quando já não sabemos mais escutar com calma

Por Marcos Araújo

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Diferente do streaming, que dilui tudo em infinitas possibilidades, o CD, de certo modo, impõe um foco e funciona como um objeto-memória. (Foto: Pexels/Brett Jordan)

Estamos tão acostumados a ouvir música pelo celular enquanto fazemos outras coisas que, muitas vezes, esquecemos que esse hábito também tem a ver com contemplação. Um dia desses, em vez de clicar no play do smartphone, resolvi fazer como “antigamente”: optei por ouvir um CD. Coloquei-me na frente da estante e comecei a passar o dedo em cada um deles até completar a fileira de uma coleção que deve ter cerca de 80 discos, entre artistas nacionais e internacionais. 

Enquanto tentava decidir qual seria a melhor escolha musical para aquele momento, comecei a pensar sobre aquele processo, que já não é mais tão frequente em nossas vidas e, hoje, parece tão deslocado no tempo. Logo imaginei que ouvir um CD, atualmente, é quase um ritual, pois exige um gesto, que começa com a escolha do disco, passa pela abertura da caixa, pelo cuidado ao segurar o compact disc, até chegar ao momento de posicioná-lo no aparelho e apertar o play. 

Penso que esse pequeno ritual cria uma disposição diferente, porque não é apenas ouvir a música, mas se comprometer com ela. Diferente do streaming, que dilui tudo em infinitas possibilidades, o CD, de certo modo, impõe um foco e funciona como um objeto-memória. 

Não é só o som, pois há o encarte, as fotos, as letras e o cheiro de coisa guardada. É algo que ocupa espaço físico e, por isso, ocupa também espaço afetivo. Ele é diferente de uma playlist que pode desaparecer com um clique. E isso, que parece limitação, pode virar algo de permanência. É o prazer de escutar o álbum como foi concebido, com começo, meio e fim.

Claro que tem muita romantização no que estou descrevendo, porque na época em que o CD player imperava, certamente a gente deixava ligado e ia fazer outras coisas. A dispersão não é uma invenção do presente. Mas, com tanta tecnologia cabendo na palma da mão, optar por ouvir música como há alguns anos cria uma emoção diferente. 

Não porque o passado fosse melhor, mas porque havia limitações e, paradoxalmente, esses limites nos obrigavam a permanecer. O acesso era mais restrito, os discos custavam caro e a escolha precisava ser mais cuidadosa. Talvez por isso a escuta carregasse um peso maior: ouvíamos mais de uma vez, prestávamos mais atenção, voltávamos às mesmas faixas como quem retorna a uma ideia inacabada. 

Hoje, o cenário é outro. As novas tecnologias ampliaram o acesso de forma inegável. Elas democratizaram catálogos, encurtaram distâncias, colocaram a música ao alcance de quase todos. Ignorar isso seria, no mínimo, desonesto. Mas essa abundância também trouxe a pressa como um efeito colateral. O excesso de opções pode diluir a experiência, transformar a escuta em algo passageiro, quase descartável.

Talvez o desafio não seja escolher entre um modelo e outro, mas encontrar um ponto de equilíbrio. Aproveitar a facilidade e o alcance do streaming sem abrir mão de uma escuta mais demorada e cautelosa. Porque, no fim, não é o suporte que define a relação com a arte, mas o tempo que se dedica a ela.

E, numa sociedade que nos empurra constantemente para a velocidade, preservar algum espaço para a contemplação pode ser menos um capricho nostálgico e mais uma forma de não perder, no meio de tanto ruído, a nossa sensibilidade. Naquele dia em que passei por esse ritual, Gal Costa era quem cantava no meu aparelho e fazia o tempo desacelerar um pouco. 

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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