Esperança, liberdade e ‘O último azul’

Na coluna deste domingo, o jornalista faz uma reflexão sobre o filme 'O último azul'  

Por Marcos Araújo

Oultimoazul divulgacao
O que move Tereza (Denise Weinberg), o seu desejo de viver plenamente, não pertence apenas aos idosos. Talvez por isso a personagem se torne tão reconhecível (Foto: Divulgação)

Só recentemente tive a oportunidade de assistir ao filme “O último azul”, agora disponível na Netflix. Estrelado por Denise Weinberg, com participação coadjuvante de Rodrigo Santoro, o longa-metragem, na minha leitura, é uma mistura de distopia e utopia com um toque brasileiro. 

Em um tempo que se projeta no futuro não muito distante da gente, a história, que se passa na Amazônia, mostra uma sociedade em que os idosos, depois da aposentadoria, são obrigatoriamente enviados para uma colônia isolada a fim de supostamente desfrutarem de sua velhice. Um lugar sobre o qual não se sabe muito bem como é, pois ninguém volta para contar. 

O tom distópico se intensifica com a presença de um veículo cata-velho. Ele possui uma gaiola na parte de trás como se fosse uma carrocinha e percorre as ruas em busca de idosos insurretos.

É claro que Tereza, a protagonista de 77 anos, não está satisfeita com essa regra. Antes de ser levada, ela embarca em uma jornada em busca de seus desejos ainda não realizados e, sobretudo, de sua liberdade.

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2025, além de outros prêmios, e até cogitado para representar o Brasil no último Oscar, o longa trata de temas pertinentes à nossa condição humana, como o envelhecimento, a sede de liberdade e a busca de um novo sentido para a vida, que já se pensava encerrada. 

Chama a atenção o fato de Tereza, diante das pressões da sua filha e das imposições da sociedade, tomar as rédeas da situação e assumir o controle da própria existência. Ao recusar a passividade frequentemente atribuída aos mais velhos, a personagem faz suas escolhas e sustenta suas decisões. O desejo de andar de avião pela primeira vez antes de ir para colônia, é o que impulsiona a protagonista para frente e funciona como metáfora do livre-arbítrio.

O título do filme, que é algo que desperta a curiosidade, tem a ver com um caracol de baba azul, um elemento psicodélico inventado pela narrativa. Ele deixa um rastro por onde passa, e, quando essa baba é pingada no olho dos personagens, permite a visão do futuro. Essa alegoria se liga a história de Tereza, pois, enquanto a sociedade ao seu redor insiste em encerrá-la no presente, ela vislumbra um porvir ainda aberto, deixando uma mensagem de esperança. Enquanto houver vida, há possibilidades de recomeços. O recado de que o envelhecimento não é o fim é a tese que marca a crítica ao etarismo. 

Ao tratar do enfrentamento dos limites, tenho a impressão de que o longa, dirigido por Gabriel Mascaro, dialoga com todas as idades, apesar de evidenciar a velhice. O que Tereza busca é algo que também fascina os mais jovens, o que permite que a personagem, tão bem trabalhada pela atriz, ultrapasse a identificação etária. O que move Tereza, o seu desejo de viver plenamente, não pertence apenas aos idosos. Talvez por isso a personagem se torne tão reconhecível.

Para quem ainda não assistiu, espero que este texto sirva de incentivo, pois “O último azul”, além da poesia simbólica acerca do envelhecimento e da liberdade, mistura ficção científica brasileira e reflexão social sem abrir mão de provocar o espectador.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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