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Não há superdimensionamento, há perdas e dor

Por Marcos Araújo

22/10/2020 às 07h10 - Atualizada 23/10/2020 às 08h17

A Terra ultrapassou a marca dos 40 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, desde que a China anunciou o surto inicial da doença, na cidade de Wuhan, em dezembro do ano passado. Seria como se os países Uganda, Ucrânia, Sudão e Argélia, que têm a sua população total perto desse número, cada um, estivessem contaminados em massa. São os Estados Unidos o país com o maior número de doentes, 8.273.296, seguido pela Índia (7.597.063) e Brasil (5.273.954). Ao todo, a Covid-19 já matou 1.124.027 pessoas no planeta, com os EUA também à frente da contagem (221.052 mortos). Nessa lista, o Brasil, com 154.837 óbitos, está à frente da Índia (115.197), como apontavam os dados da Universidade Johns Hopkins (EUA), no momento em que essa coluna era redigida.

São 154.837 vidas perdidas, 154.837 histórias brasileiras de dor. São números impressionantes ou nem tanto, porque há aqueles que olham para esses números e enxergam apenas números. Vazios. Sem os rostos existentes por trás de cada um deles. O governo brasileiro, por exemplo, declarou que a pandemia do novo coronavírus foi “superdimensionada”, mesmo depois de o vírus matar, repito, 154.837 pessoas aqui e infectar mais de 5,2 milhões.

“Entramos em 2020 e tivemos o problema da pandemia que, no meu entendimento, foi superdimensionada. Desde o começo, falei que nós tínhamos dois problemas pela frente: a questão do vírus e o desemprego, e que eles deveriam ser tratados com a mesma responsabilidade e simultaneamente. Se nós, e parte do empresariado, tivéssemos embarcado na onda ‘fique em casa que a economia a gente vê depois’, com toda a certeza estaríamos em uma situação bastante complicada no momento”, afirmou o governante da nação.

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Não dá para entender, do ponto de vista de quem dirige um estado, que outra situação poderia ser mais complicada do que a morte de mais de 150 mil brasileiros. Preocupar-se com a crise da economia e em como sairemos dela é parte das atribuições de quem seria um líder, mas fingir que mais de 150 mil óbitos não são uma complicação escapa a qualquer senso de humanidade esperado para um governante. Apesar das tristes estatísticas, há a negação do vírus, a negação da letalidade do vírus, a negação da morte de brasileiros e, pior, há a negação de brasileiros, os considerados na condição de morríveis. Aqueles de quem a corrupção roubou o dinheiro que poderia ser usado para salvar suas vidas.

A história da pandemia no Brasil poderia ter sido outra se quem zela por nossas instituições não estivesse putrefado pela ganância de reais que são flagrados na cueca, se houvesse menos menosprezo pelo sofrimento e menos questionamentos do tipo : “- E daí?”. Houve muita negligência e diferentes modelagens epidemiológicas apontam para cenários ainda mais graves, caso estados brasileiros não tivessem aderido a medidas de distanciamento social desde março. Tivemos que amargar, vergonhosamente, o colapso de sistemas de saúde e funerário de diferentes capitais e ouvir de especialistas a avaliação de que a subnotificação de casos no Brasil é muito expressiva por conta do déficit de testagens.

Em agosto, quando nosso país atingiu a marca de cem mil mortos em razão da Covid-19, refleti que, numa hora tão triste, é preciso agarrar-se à fé. Mas na fé que é sinônimo de acreditar nos muitos que ainda não perderam o senso de justiça e guardam a sensação de que essas milhares de vidas perdidas não sejam em vão. Naquela ocasião escrevi: “Que a lembrança de cada uma delas, para aqueles que as conheceram, seja o desejo de mudança! E que esse desejo se prolifere no ar pelo Brasil!”. Quase dois meses se passaram, desde então, os números não param de crescer, mas ainda é preciso ter esperança!

Marcos Araújo

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