Ressaca de carnaval

Na coluna deste domingo, o jornalista Marcos Araújo aproveita o carnaval para refletir sobre como a curadoria das redes sociais vem moldando e, muitas vezes, sufocando a espontaneidade do cotidiano

Por Marcos Araújo

Confetedecarnaval Pixabay
A intenção deste texto pós-carnaval é dizer que vivemos numa época em que as pessoas aprenderam a publicizar suas conquistas, seus feitos positivos, ao mesmo tempo que omitem seus fracassos e seus medos (Foto: Pixabay)

Já perceberam que vivemos uma época em que as fotos são escolhidas não para guardar os bons momentos, mas para provar que determinado momento valeu a pena? Nosso álbum de fotografias, que agora está nas redes sociais, deixou de ser memória para virar marketing. O que parecia ser um instante de afetividade virou curadoria. Antes de escolhermos qual foto postar, várias outras são apagadas. 

A espontaneidade está desaparecendo, porque sempre precisa passar por um processo de escolha, de organização. A imagem tem que fazer um certo sentido, ou seja, necessita performar. Agora, neste período de carnaval, isso ficou muito claro em diversos perfis. A irreverência muitas vezes parecia ter sido montada, algo que representa bem os tempos atuais, em que a embalagem tem mais valor do que o conteúdo. 

Qualquer olhadinha no Instagram gera a sensação de repetição, tipo um “déjà vu”, e isso cansa. Não é cansaço físico, porque esse se resolve com café. Mas um cansaço de saber que tem gente que se esforça para sustentar suas versões: a versão que produz, a versão equilibrada, a versão leitora, a versão viajante, a versão opinativa. Entendemos que ninguém está livre disso, porque é difícil se manter ileso. 

A intenção deste texto pós-carnaval é dizer que vivemos numa época em que as pessoas aprenderam a publicizar suas conquistas, seus feitos positivos, ao mesmo tempo que omitem seus fracassos e seus medos. Posta-se a alegria da festa, mas silencia-se a solidão que veio depois. É como se a vida fosse um trailer de um minuto, com cortes rápidos, trilha animada e sem cenas longas demais para evitar mostrar as partes chatas. 

O problema nem é desempenhar vários papéis, porque desempenhamos. É assim que o jogo é jogado. A questão é quando o papel supera o ator. Conhecemos gente que já não sabe mais o que sente, porque, antes de sentir, precisa pensar se aquele sentimento performa bem. Há relações que só funcionam na base da felicidade aparente, que não resiste ao compartilhamento das frustrações. Tem amizades que não suportariam fragilidades, momentos de incerteza. 

O impacto disso tudo na vida das pessoas é negativo, porque nem todo mundo tem corpo instagramável, consegue fazer viagens internacionais ou ter a profissão dos sonhos. Se fazemos da vitrine um parâmetro, a vida real parece escassa e limitada. Não é que ela seja sem graça, mas foi comparada com situações cuidadosamente editadas, gerando desapontamento.  

Performar o tempo todo é cansativo. Cansa ter que sorrir sem vontade. Cansa ter que parecer interessante quando se está só tentando dar conta da rotina. Cansa sustentar ser sempre coerente, quando, internamente, há um sentimento de estar em pleno caos. 

Talvez o gesto mais radical na atualidade seja não querer impressionar. Admitir fraqueza diante dos outros. Dizer que não sabe. Confessar que tem medo. Reconhecer que isso ou aquilo não nos faz bem. O mais audacioso de hoje talvez seja mesmo assumir que gostaríamos de ter uma vida mais confortável dentro do que se pode ter e ser. 

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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