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Ketellen e Ágatha roguem por nós!

Por Marcos Araújo

21/11/2019 às 07h15 - Atualizada 20/11/2019 às 18h46

Toda vez que morre uma criança, ouvimos que ela virou anjo. Deus busca na Terra seus querubins para repor sua legião. Inocentes e incorruptíveis, as crianças têm sempre a preferência do Criador para restituir sua falange. Mas quando a criança é tirada dos braços de sua família com um tiro? Como um pai ou uma mãe pode se confortar com essa história de anjo, se a violência inverte a lógica da vida, que seria os filhos sepultarem seus pais e não o contrário, resultando em mortes precoces, abruptas, inesperadas, inaceitáveis!

Os filhos são para os pais a junção de seus mais variados desejos, uma forma de permanência, de constância, de prosseguimento. E quando isso é interrompido, o que resta para os genitores a não ser o vazio da dor de mais nada poderem fazer? Estarrecimento e impotência devem ser, agora, os sentimentos dos pais da menina Ketellen Umbelino, de 5 anos, morta depois de ter sido baleada, em Realengo, no Rio de Janeiro. A criança estava a caminho da escola com sua mãe, quando foi atingida por disparos de arma de fogo na perna, no último dia 12. Na ocasião, o adolescente Davi Nascimento, 17, foi ferido e morreu no local. A pequena Ketellen ainda foi socorrida e levada para o hospital, mas não resistiu.

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A barbárie contra a menina infla uma triste estatística, pois é a sexta criança morta por bala perdida no Rio, neste ano, conforme a plataforma Fogo Cruzado. Em outubro, a quinta vítima dessa mesma violência, Ágatha Félix, de 8 anos, foi morta no Complexo do Alemão, atingida por um tiro, quando estava em uma kombi a caminho de casa.

De acordo com a Polícia Militar, os disparos que mataram Ketellen e Davi foram feitos a partir de um veículo que trafegava na rua. Os ocupantes ainda não foram identificados. Já acerca da morte de Ágatha, a Polícia Civil afirmou, nesta terça-feira (19), que não havia tiroteio no momento em que ela foi baleada, como se achava no início da apuração. O inquérito confirmou que a bala que atingiu a criança saiu do fuzil de um policial militar. O relatório da perícia contesta o depoimento dos PMs envolvidos na ação. Os militares sustentam que revidaram contra uma dupla que passava atirando em uma motocicleta. Para a Polícia Civil, no momento do crime, não havia pessoas armadas além dos policiais.

O nome do policial militar que efetuou os disparos não foi divulgado pela polícia. Em nota, a PM informou que o cabo será afastado das atividades nas ruas. Como disse o avô da garota, “ela foi para o céu”, depois de ter a vida perdida pela violência. Se considerarmos ser possível que Deus esteja reforçando seu exército, Ágatha e Ketellen serão dois anjos que, nós, brasileiros, poderemos rogar, pedindo que a luz divina ilumine as cabeças e os corações de nossos mandatários, a fim de que olhem com carinho para o povo e criem mecanismos capazes de deter a violência que assola a sociedade. Que deixem de lado uma política de enfrentamento, cada vez mais desumana, entre policiais e traficantes, independentemente do impacto que essas ações possam resultar para os moradores. E que isso seja feito o quanto antes, para que mais pais não sejam obrigados a sepultar seus filhos ainda crianças!

Marcos Araújo

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