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É possível acreditar no “novo normal”?

Por Marcos Araújo

21/05/2020 às 07h15 - Atualizada 20/05/2020 às 20h18

Se estivéssemos em um cruzeiro em alto-mar, com certeza estaríamos navegando sob intensa e tenebrosa tempestade e sem possibilidade de calmaria. Está difícil manter a fé e acreditar na habilidade do comandante em nos tirar deste barco à deriva. Muitos têm se perguntado como vai ser, mas, no atual estado das coisas, essa resposta está encoberta por uma nuvem cumulonimbus carregada de raios, trovões e rajadas de vento.

A certeza que temos agora é o medo, e o medo não dá certeza alguma. Isso aumenta nossa ansiedade, que já está em níveis altíssimos em razão das limitações impostas pela pandemia. É como se estivéssemos todos suspensos e à espera. Porém, à espera de quê? Muito se tem dito a respeito de um “novo normal”. Existe a expectativa de que estamos caminhando para um “novo normal”, para depois do coronavírus.

Internamente, nós estamos passando por alterações diárias para lidar com nossas emoções diante de tanta insegurança. Seria como se estivéssemos em um processo de depuração, de limpeza profunda do nosso ser, a fim de excluir o que não é desejável. Mas, passados cerca de 60 dias de quarentena, já era para estarmos, enquanto seres humanos, melhores do que quando entramos nessa tormenta. E isso já começa a abalar essa noção de “novo normal”.

Primeiro porque o que é normal para um, não é normal para outro. O que é normal? Tem gente apoiando, como normal, a ideia de que é aceitável morrer mais de mil pessoas, em 24 horas, como registrado no Brasil, nesta terça-feira (19), em razão das infecções provocados pela Covid-19.

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Há aqueles ainda que consideram normal uma ação policial que, infelizmente, termine com a morte de inocentes, como aconteceu com João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, no Rio de Janeiro, na última segunda-feira (18). Foi aberto fogo contra o imóvel onde o menino estava, apesar dos gritos de que havia crianças na casa, no Complexo do Salgueiro. O adolescente acabou sendo baleado, não resistindo ao ferimento.

As responsabilidades, para mais esse crime, estão sendo apuradas, mas uma família inteira foi destruída por uma morte que escancara que a cor da pele e o local onde a pessoa mora podem definir muitas coisas em nosso país, inclusive, o direito de viver.

Falando em circunstâncias mais próximas, podemos citar a normalidade que nos assola e joga na nossa cara estatísticas estarrecedoras como a que mostra o lado perverso do distanciamento social. Em Minas Gerais, a cada dia, 17 crianças e adolescentes são abusados sexualmente, como aponta dados da Polícia Civil mineira, divulgados no início desta semana. Só em Juiz de Fora, 48 vítimas foram registradas. Os números compreendem os meses que vão de janeiro a abril deste ano e podem ser maiores, já que muitas crianças e adolescentes estão em casa, convivendo com seus abusadores e sem poder denunciar.

Assim, pensar em um “novo normal”, que sugere que seja algo para o futuro, pós-crise sanitária, é contraditório e, ao mesmo tempo, desolador, porque podemos considerar que uma coisa normal é o que está no nosso presente. E, até agora, nosso presente tem permanecido sombrio como antes do vírus. Temos a sensação de que nosso navio está afundando, fazendo água, sem chances de sobreviventes e de uma possibilidade de transformação da normalidade!

Marcos Araújo

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