Para que não seja apenas promessa

Na coluna desta semana, o jornalista Marcos Araújo aborda a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lembrando que, apesar dos avanços, há muito o que se fazer para que a dignidade humana não seja apenas uma promessa.

Por Marcos Araújo

Direitos Humanos pexels thirdman
Se a dignidade humana segue como uma promessa incompleta, cabe a nós garantir que ela não continue sendo apenas promessa.(Foto: Pexels/Thirdman)

O Dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos passou quase despercebido, não fossem alguns poucos jornais que lembraram da data. Celebrado no último dia 10, o documento completou 77 anos em um cenário que ainda está longe de cumprir o que prometeu. As desigualdades crescem como se não houvesse freio, as crises ambientais avançam feito maré alta, existem ainda milhões de famintos, o trabalho escravo nunca foi totalmente abolido e muitas pessoas continuam sendo forçadas a deixar seus territórios, abandonando vidas e memórias. Tudo isso revela que os direitos sociais ainda não alcançaram o status de “para todos”. A violência, essa que se banaliza nas ruas, nas casas e nas redes sociais, mostra que ainda falhamos na proteção de quem mais precisa.

As mulheres, por exemplo, vislumbram uma promessa de igualdade que segue tropeçando em uma realidade permeada de feminicídios, misoginia, violência doméstica, assédio e abuso nos locais de trabalho, no transporte público e nas ruas. Crimes que silenciam vidas e viram temas de manchetes cada vez mais rotineiras. E, se lembrarmos aqui das mulheres negras, quilombolas, indígenas, periféricas, migrantes, mães que criam filhos sozinhas, a conta se torna ainda mais pesada. A elas se somam desigualdades que perpassam as questões raciais, econômicas e territoriais, ampliando a lista de vulnerabilidades. Como se não bastasse, os discursos autoritários voltaram a soprar, corroendo a democracia e enfraquecendo políticas que deveriam zelar pelo mínimo.

Ainda assim, desde 1948 houve avanços importantes. Leis foram mudadas e criadas, constituições passaram a incorporar direitos antes invisíveis e mecanismos democráticos se fortaleceram. E talvez o mais significativo tenha sido aprendermos, a muito custo, que direitos humanos nunca foram dádiva de governos. Eles foram, e continuam sendo, conquistas de lutas persistentes, que tiveram e ainda têm na linha de frente trabalhadores, mulheres, povos tradicionais, populações negras, pessoas com deficiência e tantos outros grupos minoritários. Uma gente que não para de abrir caminhos com o próprio corpo e com a própria história.

Essas vitórias, no entanto, exigem vigilância constante. Caso contrário, os ventos do passado voltam a soprar e ameaçam fechar as portas que foram abertas. Celebrar, portanto, o 10 de dezembro não pode ser apenas a lembrança de um documento, é assumir um compromisso para que ele se transforme em ação. Governos e sociedades precisam reforçar o combate às desigualdades, ampliar redes de enfrentamento à violência, incentivar a educação em direitos humanos, assegurar verbas para ações de proteção e fortalecer ambientes democráticos onde caibam todas as vozes.

Além disso, é necessário reconhecer o valor dos movimentos sociais, pois, sem eles, nada disso existiria. São a raiz que sustenta a árvore e mantêm viva a defesa da vida em todas as suas formas. Por isso, precisam de todo o nosso apoio, porque os direitos humanos são um movimento contínuo na busca de fazer do mundo um lugar onde ninguém precise pedir permissão para existir.

No fim das contas, o Dia dos Direitos Humanos não é um ponto final, mas um lembrete de que a história ainda está sendo escrita. Ele nos convida a pensar no país que queremos deixar para os que chegam agora e para os que ainda virão. Cada avanço depende da coragem cotidiana de transformar indignação em gesto, cansaço em persistência e esperança em prática. Se a dignidade humana segue como uma promessa incompleta, cabe a nós garantir que ela não continue sendo apenas promessa. Afinal, os direitos humanos só existirão plenamente quando forem vividos e não apenas proclamados.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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