A voz que já não se ouve

Na coluna desta semana, o jornalista Marcos Araújo reflete sobre a raridade das ligações telefônicas e a saudade de um tempo em que o tom da voz dizia mais do que qualquer mensagem digitada.

Por Marcos Araújo

telefone pexels neosiam
Mesmo assim, insisto em dizer que dá saudade das vozes que chegavam vivas, do telefonema fulminante, no meio do dia, que tinha o poder de mudar nossa trajetória. (Foto: Pexels/Neosiam)

As ligações telefônicas estão cada vez mais raras. As que ainda restam são tímidas, apressadas, obrigatórias. Claro, há também as de operadoras que insistem em oferecer serviços, mas essas não merecem consideração. Sinto até saudade da época em que as ligações aconteciam sem aviso, sem mensagem prévia, perguntando “pode ligar?”, sem emoji. Aquelas que chegavam de surpresa, como uma notícia, às vezes boa, outras nem tanto assim. Aquelas que interrompiam o que quer que fosse e, por isso mesmo, devolviam-nos a realidade.

Hoje tudo é pelo whatsApp, o que faz perder um pouco o sentido do inesperado. Os textos muitas vezes são calculados, os áudios pensados e refeitos com cada palavra sendo medida. Na verdade, o que estou querendo dizer é que se fala muito e conversa-se pouco. Chegará o tempo em que sentiremos saudade da voz humana que chegava inteira pelo fio, sem filtro, sem ensaio, sem rascunho. Era uma voz que não precisava ser enviada de novo, porque não existia botão de apagar. Aquela voz era de verdade, marcada pelo momento, às vezes, uma eufórica alegria, às vezes, um tom pesado de cansaço, de frustração, mas cheia de calor humano, de presença, algo tão em falta em tempos tão digitais.

A gente atendia a ligação sem saber o motivo, e, talvez por isso, descobria, no meio da prosa, o real motivo que nosso interlocutor queria. Às vezes, era só amizade mesmo, essa coisa tão simples, tão rara, tão bonita. Às vezes, era só para saber como estávamos passando, para compartilhar um susto, para contar uma história engraçada. E quantas gargalhadas nasciam dali, inesperadamente, no tropeço, no fervor da conversa que ia sendo inventada enquanto acontecia.

Atualmente, não, pois tudo precisa de um certo método: escrevemos e apagamos, gravamos e ouvimos, e o diálogo perde sua espontaneidade. Para onde foi a naturalidade da fala, do suspiro, do silêncio que também era palavra? Silêncio muitas vezes dividido, como sinal de respeito, de compreensão, de empatia ou até de mesmo de negação, mas sempre como forma de atestar nossa presença.

Assim, me pergunto: quando foi que desaprendemos a atender as ligações? Quando foi que o telefonema virou susto, virou peso, virou quase uma invasão? Hoje, na verdade, ninguém liga mais para conversar, só para resolver. Um jeito que só faz a gente se distanciar devagar, sem perceber. Sei que há pessoas que vão dizer que tudo isso é baboseira, que a comunicação nos aplicativos é muito melhor, mais rápida, sem perda de tempo. Mesmo assim, insisto em dizer que dá saudade das vozes que chegavam vivas, do telefonema fulminante, no meio do dia, que tinha o poder de mudar nossa trajetória. Um tipo de ligação que bastava, porque nos dava a certeza de que tínhamos sido lembrados, de que não estávamos sozinhos. Tenho saudade, sincera, da voz que a gente já não ouve.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

A Tribuna de Minas não se responsabiliza por este conteúdo e pelas informações sobre os produtos/serviços promovidos nesta publicação.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Leia também