Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / polícia / eleições 2020 / bolsonaro

Dedos de fogo

Por Marcos Araújo

12/03/2020 às 07h20 - Atualizada 11/03/2020 às 18h42

Nesta semana, completa-se um ano que essa coluna é publicada todas as quintas-feiras. Com este, que ora se apresenta, somam-se 45 textos que, ao longo deste tempo, resultaram em 153.737 toques. Aliás, cabe aqui contar por que essa coluna foi batizada com o nome de “3miltoques”. Existe uma brincadeira dentro da redação da Tribuna de Minas, da qual faço parte como jornalista, que meus dedos são de fogo, porque escrevo além da conta, tendendo a não respeitar o limite de caracteres imposto pela página impressa. Quando fui convidado para exercer o ofício de cronista, o desafio colocado para mim era de manter minhas ideias dentro de um espaço fortemente demarcado. Então, impus-me o total de três mil toques para sarar as minhas dores por meio das palavras e, assim, ganhei um nome para chamar essa seção.

Já me perguntaram que história é essa de escrever para sarar a dor. – Isso funciona? Quiseram saber. Funciona, mas é um antídoto que cura a dor pela dor. O ato de escrever é doído e, se não fosse, não serviria de remédio para as dores do mundo. Já vi escritores famosos dizerem que escrever é um parto, uma das maiores dores que se tem notícia. Talvez seja um exagero, mas considero a escrita dolorida porque ela é fruto de uma imposição. Com isso não estou falando sobre uma ordem que vem de uma outra pessoa, que tem que ser obedecida, mas de um imperativo muito mais amplo.

O conteúdo continua após o anúncio

Porque a escrita nasce da vida. É a nossa vivência que nos impele a escrever, que nos cobra a palavra. A palavra se confunde com a existência, porque deixa marcas e quem escreve sabe o quanto de nós fica na mensagem. É como desnudar-se diante de terceiros. E é daí que vem a dor, da exposição que nos faz vulneráveis, desprotegidos de nossa casca e, ao mesmo tempo, tão fortes, porque é preciso ter coragem. Dessa mescla de fragilidade e fortaleza nasce a cura.

A palavra mal usada é destruição. Do contrário, é construção. É convocação. É anunciação. É liberdade. É ato, que pode ser de amor e também político, por isso é fundamental garantir o direito de usufruir da palavra, seja escrita ou falada. A palavra pode ser tudo, e o que mais precisamos, atualmente, é da palavra que edifica, que liga, que soma, que equaliza.

Quero aproveitar assim, nesta comemoração de primeiro aniversário, para celebrar o poder da palavra que, em tempos atuais, tem sido tão fustigado, já que paira no ar uma ordem estabelecida que, a toda hora, almeja furtar das palavras seus reais sentidos. É claro que os sentidos das palavras são deslizantes, e é isso que garante a vida e a poesia das palavras. Mas refiro-me ao uso da palavra com significados roubados para inverter fatos, ludibriar as pessoas e apagar a memória em prol de um presente que pode colocar em risco o nosso futuro. Como já havia dito uma vez aqui nessa coluna, a ruptura de sentidos interrompe o diálogo, que se extravia diante de tanto desentendimento, e o resultado é o conflito. Desta forma quero saudar a palavra que cura, que salva e que nos transforma!

Marcos Araújo

Marcos Araújo

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia