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A educação precisa ser defendida no braço

Por Marcos Araújo

11/07/2019 às 07h15 - Atualizada 10/07/2019 às 19h21

Com a força do braço, o pai enfrenta a correnteza de um rio com um filho dentro de um saco plástico. Apesar de todos os riscos, esse pai sabe da importância de se chegar à margem do outro lado. É a partir dela que seu filho terá condições de seguir seu caminho até a escola. E, na escola, ele sabe que seu filho terá acesso à educação e, por meio dela, às oportunidades para transformar a sua vida e de sua família.

Essa história faz parte da vida de crianças e pais do Vietnã, na província de Dien Bien onde, quando chega o período das fortes chuvas, a maneira de atravessar o Rio Nam Po é enfrentar a força das águas no braço com uma fé imensurável no poder da educação. É justamente a educação que tem ajudado esse país do Leste asiático a superar suas dificuldades econômicas. Nos últimos 25 anos, a miséria extrema despencou dos cerca de 50% para perto de 12% da população. Atualmente, o país tem mais de 90% da população adulta alfabetizada.

No ano passado, um vídeo feito por um professor mostrou a mesma garra de pais da cidade de Campo Maior, no interior do Piauí, atravessando os filhos em boias a fim de chegarem até o ponto onde passava o ônibus escolar, porque o rio não tinha uma ponte para a travessia. A tenacidade dessas pessoas para que seus filhos estudem e se formem é algo que me comove profundamente. Como já escrevi outras vezes, neste espaço, a educação é, para mim, transformadora, uma vez que possibilita a abertura de portas que nos levam até a nossa autonomia. Como dizia Paulo Freire, o ensino desperta nossa criticidade, ampliando nossa consciência sobre o lugar que ocupamos. E é justamente quando tomamos ciência sobre quem somos e de onde viemos que expandimos nosso horizonte acerca do mundo e temos o ensejo de saber e escolher para onde vamos.

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Na última semana, encontrei com uma colega dos tempos do ensino fundamental na Escola Estadual Professor José Freire, na Zona Norte. Nós dois fizemos parte do mesmo grupo temático num seminário sobre literatura e cultura. Ela, como estudante de doutorado, e eu, como mestre, buscando minha entrada no doutorado. Além de conhecermos o trabalho atual de cada um, colocamos o papo em dia e lembramos de Dona Luiza, nossa professora de português, daqueles tempos idos. Míriam – o nome dessa minha colega, me contou que escolheu o curso de Letras em razão de um trabalho extraclasse chamado “Jornalzinho”, desenvolvido por essa nossa professora.

Também confessei que havia escolhido ser jornalista pelo mesmo motivo. Dona Luiza era daquelas professoras severas, mas ao mesmo tempo tinha uma empatia pelo aluno e uma gana pela educação. Ela nos ensinava que estudar valia a pena. Tanto eu quanto Míriam devemos muito à Dona Luiza. Ela abriu nossos caminhos, quando nos afetou com sua paixão pelo ensino e pelo estudo.

Por isso, quando o trabalho infantil, uma pauta tão séria e que deveria ser mais abordada e denunciada pela imprensa, volta à baila porque autoridades do governo passaram a defender que o “trabalho dignifica em qualquer idade”, me soa absurdo! Falam de dignidade sem levar em conta que milhares de crianças ao deixarem de frequentar a escola para trabalhar só perpetuam um ciclo de miséria. Sim, porque os pais delas não conseguiram escapar e, provavelmente, os filhos delas também não. Pensar nessa possibilidade é desumanamente doloroso! Nossa sociedade tem mostrado uma tolerância em relação ao trabalho infantil, talvez porque não tenha conhecimento suficiente acerca dos impactos negativos que ele provoca na vida das crianças e do quanto fere a Constituição brasileira.

E pensar que essa condescendência surge já num cenário em que a educação vem sendo atacada de todos os lados, com professores sendo ultrajados em sala de aula e desvalorizados por baixos salários. E pensar que há aqueles que defendem o conservadorismo e uma formação repressiva, empreendendo uma verdadeira cruzada moralista e anti-iluminista, jogando para o limbo fatos históricos e científicos.
Todo esse contexto permeado por essa incongruência me faz pensar no ímpeto daqueles pais do Vietnã e do Piauí ao defenderem no braço o direito de seus filhos estudarem. O Brasil precisa de mais pais do Vietnã e do Piauí para salvarem nossa educação e o nosso futuro!

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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