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A incalculável riqueza do livro

Por Marcos Araújo

10/09/2020 às 07h15 - Atualizada 10/09/2020 às 07h48

A escritora Conceição Evaristo, em entrevista à jornalista Marisa Loures da Coluna Sala de Leitura, do jornal Tribuna de Minas, lamentou que o livro e a leitura chegam primeiro às classes privilegiadas. “O livro é um objeto de luxo e hoje, cada vez mais, ele corre o risco de se tornar um objeto mais difícil de ser acessado pelas classes populares”, considera a mulher nascida em uma favela de Belo Horizonte, que trabalhou como empregada doméstica e, por meio do amor aos livros e à leitura, transformou-se em uma escritora consagrada. Já vencedora do Prêmio Jabuti, a autora sempre busca, por meio de seu ofício com as palavras, deixar em evidência personagens marcados pela pobreza, principalmente, a mulher negra.

Ao dar essa declaração, Conceição Evaristo respondia a pergunta sobre se conseguia imaginar como leitores as pessoas que lhe serviam de inspiração para povoar sua literatura, posto que, oriundos das classes populares, o acesso ao livro e à leitura seria um luxo para eles, algo como quase intocável. Diante de tal convicção, que parte de alguém que tem autoridade para falar, pus-me a pensar sobre a ameaça que paira sobre o livro, no Brasil. A intenção de se criar uma taxação de 12% para o livro, ideia que compõe a proposta de reforma tributária em discussão no Congresso, só afastaria ainda mais da leitura a parcela de brasileiros que mais carecem dela.

Que a reforma tributária é algo importante e urgente para o país já sabemos. Só que é preciso deixar bem claro que não é por meio de cobrança de impostos que os livros servirão de mais fonte de renda para a nação. O que a maior circulação de obras impressas gera em riqueza para o povo brasileiro é, infinitamente, maior do que o lucro que poderá ser resultado dessa taxação.

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Aqui é preciso fazer uma advertência sobre um assunto que nossas autoridades não conhecem ou fingem não conhecer, porque querem se aproveitar dos baixos índices de leitura de nossa população: países desenvolvidos assentam suas economias em conhecimento. Sim, isso não é surpresa. O saber tem a capacidade de ampliar riqueza material e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Falta a quem nos governa o entendimento de que, quanto mais leitores, mais desenvolvimento humano o Brasil pode concentrar, o que, certamente, também culmina em desenvolvimento econômico. Então, é inconcebível pensar em uma pátria que se quer séria e, ao mesmo tempo, promove barreiras de acesso ao livro.

Ao contrário de se pensar acerca de tributação de livros, era para haver uma grande preocupação sobre como fazê-los chegar às mãos do maior número de brasileiros, dotar as escolas de boas bibliotecas, remunerar dignamente professores para que também tenham acesso aos livros e aprimorem seu ensino, ampliar os acervos e melhorar as condições estruturais de bibliotecas públicas, criar medidas de fomento para o surgimento de novos escritores. Essas são algumas das propostas que já deveriam ter sido discutidas e tiradas do papel.

O conhecimento que o livro nos proporciona serve de repertório para a ampliação de nossa visão de mundo, que nos ajuda a pensar de forma crítica e, claro, origina uma riqueza que tributação alguma é capaz de nos oferecer!

Marcos Araújo

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